quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Crenças Pagãs - III (Final)


(continuação)
O deus sacrificado, outra fórmula antiquíssima, já foi uma deturpação do culto aos homens-deus. Um sacrifício humano anual, para ajudar a colheita, era então um rito genérico entre todas as tribos agricultoras da Europa e da Ásia Menor há cinco mil anos, e mesmo nos primórdios do romanismo ainda era praticado por tribos indo-européias. O sacrificado era, originalmente, o rei da tribo, reinava durante o ano, e era executado nos Ritos da Primavera, ou Páscoa. Era tratado como encarnação do deus tribal, e adorado até o momento de sua morte. Com seu sangue os campos de cultivo eram salpicados, sua carne era comida por nobres e sacerdotes e o povo tinha de contentar-se em respirar a fumaça de certas partes queimadas e oferecidas à divindade que ele havia encarnado (estas partes variavam: algumas tribos queimavam os órgãos sexuais, outras o coração). Eventualmente uma fórmula tornou-se mais conveniente para os reis: concebeu-se a idéia de um vicário e, desde então, um rei substituto era simbolicamente ungido para a ocasião, para ser sacrificado no lugar do rei verdadeiro. Primeiro usaram voluntários, depois velhos e doentes ou criancinhas, a seguir inimigos, e, por último, animais.
Em muitas tribos os pais, em vez de se sacrificarem, sacrificavam seus primogênitos (neste caso os pais eram os chefes ou patriarcas das tribos). Esse costume foi abolido na tribo do Abraão bíblico, por Iaweh (Gn 22:9-13), e substituído pelo sacrifício animal. Sacrifícios humanos, acompanhados de antropofagia ritual, eram costume no continente indo-europeu, na Austrália, no continente africano e no Novo Mundo. A presença universal de tal rito, numa época em que a arte da navegação era praticamente nula, indica uma origem comum na Antigüidade.
Já a religiosidade monólatra fenícia se baseava no culto às forças naturais divinizadas. A divindade principal eraEl, adorado junto com sua companheira e mãe, Asherat ou Elat, deusa do mar. Desses dois descendiam outros, como Baal, deus das montanhas e da chuva, e Astarte ou Astar, deusa da fertilidade, chamada Tanit nas colônias do Mediterrâneo ocidental, como Cartago. Entre os rituais fenícios mais praticados, tiveram papel essencial os sacrifícios de animais, mas também os humanos, principalmente de crianças. Em geral os templos, normalmente divididos em três espaços, eram edificados em áreas abertas dentro das cidades. Havia ainda pequenas capelas, altares ao ar livre e santuários com estrelas decoradas em relevo. Os sacerdotes e sacerdotisas freqüentemente herdavam da família o ofício sagrado. Os próprios monarcas fenícios, homens ou mulheres, exerciam o sacerdócio, para o que se requeria um estudo profundo da tradição.
Para os finlandeses, no princípio havia somente Luonnotar (a Filha da Natureza), completamente sozinha num enorme vazio. Flutuou no “oceano cósmico” durante eons, até que uma águia fez um ninho em seu joelho. Assustada terminou quebrando os seus ovos, dos quais surgiram o céu, a Terra, o Sol, a Lua e as estrelas. NoKalevala (pátria dos heróis), o mais antigo poema épico finlandês, fala-se dos deuses do ar, da água, do fogo e das florestas, do céu e da Terra. Nele Mariatta, Virgem-Mãe das Terras Nórdicas, é escolhida por Ukko, o Grande Espírito, como veículo para se encarnar por meio dela em Homem-Deus. Repudiada pelos pais, dá nascimento a um “Filho imortal” numa manjedoura de estábulo. Mais tarde o menino desaparece e Mariatta se põe aflita a procurá-Lo perguntando a uma estrela, à Lua, até que quando pergunta ao Sol este diz onde achá-Lo.
De um modo geral, as religiões primais, além dos conceitos acerca da Divindade, tinham as mais diversas formas de explicar a origem, a finalidade e até a extinção do mundo e do homem. Usavam uma água lustral, ou santa, para purificar suas cidades, seus campos, seus templos e a si próprios. Nas suas cerimônias sacrificiais, o pontífice (curion) aspergia essa água em todos os presentes com um ramo de louro; possuíam em seus templos altares para a consagração aos deuses. Muitos sacerdotes pagãos se castravam, com o fito de serem mediadores puros e santos entre o povo e deus ou a deusa. A castração ritual era encontrada na Babilônia, no Líbano, na Fenícia, no Chipre, na Síria e no culto frígio de Átis e Sibele.
Muitas tribos primitivas, como os aborígenes da Austrália, os zulus da África do Sul e os peles-vermelhas da América celebravam também algumas cerimônias tribais de mistérios, que consistiam na escolha de um lugar isolado, marcação dos direitos e deveres da virilidade dos rapazes, um período de instrução e exercícios de resistência à dor. Então os candidatos, em transe, passavam por uma morte simbólica e após se erguerem (ressurreição) recebiam um novo nome (uma nova vida) junto com a exibição de algum objeto sagrado sob juramento. Além desses ritos, conhecidos como “ritos de puberdade”, outros ritos, conhecidos como “ritos de passagem”, eram também importantes: nascimento, casamento e morte.

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