sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Livro de Kells - parte III


Descrição

O Livro de Kells contém os quatro Evangelhos constitutivos do cristianismo, precedidos de prólogos, resumos e transições entre certas passagens. Está redigido em maiúsculas com um estilo tipográfico tipicamente insular, com tinta pretavermelhavioleta ou amarela. O manuscrito consta atualmente de 340 folhas em pergaminho, chamadas fólios. A maioria destes fólios era na realidade parte de folhas maiores, os bifólios, que se dobravam em dois para formar dois fólios. Vários destes bifólios são agrupados e costurados, para obterem-se os cadernos. Pode acontecer de um fólio não fazer parte de umbifólio mas seja uma simples folha solta inserida em um caderno.
Estima-se que cerca de trinta fólios foram perdidos, uma vez que em 1621, James Ussher ao examinar a obra contou 344 páginas. As folhas existentes estão agrupadas em trinta e oito cadernos, cada um deles contém de quatro a doze folhas (de dois a seis bifólios); o mais comum é encontrar cadernos de dez folhas. Alguns fólios são folhas únicas. As páginas mais decoradas geralmente são encontradas em folhas soltas. Os fólios tinham linhas traçadas sobre eles, às vezes dos dois lados, para facilitar o trabalho de escrita dos textos pelos monges: os furos feitos com agulha e os traços podem ainda ser vistos em alguns lugares. O pergaminho é de boa qualidade, apesar de ser trabalhado de maneira desigual: algumas folhas têm uma espessura semelhante ao couro, enquanto que outras são muito finas, quase transparentes. O manuscrito tem 33 cm de comprimento por 25 cm de largura, sendo este um tamanho padrão, apesar de estas dimensões serem posteriores ao século XVIII, período em que as folhas tiveram uma pequena redução durante um processo de reencadernação. A área do texto cobre aproximadamente 25 cm de comprimento por 17 cm de largura, e cada página de texto contém entre dezesseis e dezoito linhas. Contudo, o livro parece estar inacabado, na medida em que algumas ilustrações parecem simples esboços.

Conteúdo

No seu estado actual, o Livro de Kells apresenta, depois de alguns textos introdutórios, o texto integral dos Evangelhos segundo Mateussegundo Marcossegundo Lucas. Em relação ao Evangelho segundo João, está reproduzido até o versículo 17:13. O restante deste Evangelho, assim como uma parte dos escritos preliminares, são impossíveis de encontrar. Provavelmente perderam-se devido ao roubo do manuscrito no século IX. O que resta dos escritos preliminares faz parte dos fragmentos de listas de nomes hebreus contidos nos Evangelhos, os Breves causae e os Argumenta dos quatro Evangelhos e finalmente as tábuas canónicas de Eusébio de Cesareia. É bastante provável, como no caso dos Evangelhos de Lindisfarne ou do Livro de Durrow, que uma parte dos textos perdidos inclua a carta de São Jerónimo ao Papa Dâmaso I, designada Novum opus (obra nova), na qual Jerónimo justificava a tradução da Bíblia em latim. Pode supor-se também, embora com algumas reservas, que os textos continham a carta de Eusébio, chamadaPlures fuisse, onde o teólogo ensina o uso correcto das tábuas canónicas. De todos os evangelhos insulares, apenas o de Lindisfarne contém esta carta.
Existem dois fragmentos de listas contendo nomes hebreus: um deles está no anverso do primeiro fólio e o outro, no vigésimo sexto, está no final dos textos introdutórios do Evangelho segundo João. O primeiro fragmento contém o final da lista destinada ao Evangelho segundo Mateus, tendo em conta que o início da lista devia ocupar outras duas folhas, que hoje estão desaparecidas. O segundo fragmento mostra a quarta parte da lista para o Evangelho segundo Lucas; certamente as três quartas partes restantes deviam ocupar outras três folhas. A estrutura do caderno em questão torna altamente improvável a ideia de poderem estar faltando três folhas entre os fólios 26 e 27, o que induz a pensar que o segundo fragmento não está no seu local original. Não existem vestígios das listas dos Evangelhos de Marcos e João.
Ao primeiro fragmento de lista seguem-se as tábuas canónicas de Eusébio de Cesareia. Estas tábuas, anteriores à tradução da Bíblia em língua latina (a Vulgata), foram criadas para comparar os quatro Evangelhos. Eusébio procedeu à divisão dos Evangelhos em capítulos e criou as tábuas que deviam permitir ao leitor situar um dado episódio da vida de Cristo em cada um dos quatro textos. Tornou-se hábito a inclusão das tábuas canónicas nos textos preliminares da maioria das cópias medievais da Vulgata. As tábuas do Livro de Kells revelaram-se inúteis visto que o amanuense as condensou de tal forma que se tornaram um amontoado confuso. Além disso, os números dos capítulos nunca foram colocados nas margens do texto, tornando assim impossível de se encontrar as respectivas secções às quais as tábuas fazem referência. As razões deste esquecimento permanecem obscuras, permitindo-nos colocar duas hipóteses: ou os monges podem ter decidido não numerar os capítulos até que as ilustrações estivessem terminadas, acabando isso por ser adiado sine die, ou a omissão da numeração poderá ter sido deliberada com o intuito da não alterar a beleza da obra.
As Breves causae e os Argumenta pertencem a uma tradição manuscrita anterior à Vulgata. As Breves causae são, de facto, resumos de antigas traduções em latim dos Evangelhos e estão divididas em capítulos numerados. Esta numeração, como no caso das tábuas canónicas, não foi feita no corpo do manuscrito. Trata-se desta vez duma decisão bastante compreensível, na medida em que os números dos capítulos correspondentes a velhas traduções foram difíceis de harmonizar com os textos da Vulgata. No caso dos Argumenta, trata-se de coleções de lendasdedicadas aos quatro evangelistas. O conjunto destes escritos está ordenado duma forma estranha: em primeiro lugar, encontram-se as Breves causae e os Argumenta sobre Mateus, seguidos dos de Marcos. Chegam então, de maneira bastante inesperada, os Argumenta de Lucas e João, após a continuação das Breves causaedestes dois apóstolos. Esta ordem, pouco usual, é a mesma da adoptada no Livro de Durrow. Em outrosmanuscritos insulares, como nos Evangelhos de Lindisfarne, o Livro de Armagh ou os Evangelhos de Echternach, cada Evangelho é tratado separadamente e é precedido por todos os escritos introdutórios. Esta repetição fiel do esquema do Livro de Durrow levou o pesquisador T. K. Abbot a concluir que o amanuense de Kells devia ter nas suas mãos o manuscrito em questão, ou pelo menos um esquema comum.

Texto e escrita

O Livro de Kells contém o texto dos quatro Evangelhos em latim segundo a Vulgata, sem ser uma cópia exata desta última: são encontradas numerosas variantes com relação à Vulgata, principalmente quando são utilizadas traduções latinas mais antigas ao invés do texto de São Jerônimo. Estas variantes são encontradas sistematicamente em todos os manuscritos medievais da Grã-Bretanha e apresentam diferenças de uma obra para a outra. Sem dúvida, os monges, pela falta de disporem de um exemplar preexistente, deviam trabalhar de memória.
O manuscrito está escrito em letras maiúsculas, exceto algumas minúsculas, maioritariamente as c ou as s. A universitária estado-unidense Françoise Henry identificou no mínimo três amanuenses que contribuíram com a obra e os chamou Mão AMão B e Mão C.
  • Mão A criou principalmente os fólios de 1 a 19 e do 276 ao 289, antes de retomar seu trabalho do fólio 307 até o fim do manuscrito. O amanuense Mão A utiliza com freqüência uma tinta de cor marrom muito comum na Europa e escreve entre dezoito e dezenove linhas por página.
  • Mão B é reconhecida desde o fólio 19 até o 26 e do 124 até o 128; tem mais tendência a utilizar letras minúsculas, prefere uma tinta vermelha, violeta ou preta e escreve um número mais variável de linhas em cada página.
  • À Mão C, finalmente, é atribuído o restante do manuscrito, tendo ela contribuído para a obra de uma maneira bastante dispersa: tem tendência a usar mais minúsculas que Mão A; utiliza a mesma tinta marrom e escreve quase sempre dezessete linhas por página.

Erros

Existem várias diferenças entre o texto do Livro de Kells e o Evangelho normalmente aceito, por exemplo:
  • Na genealogia de Jesus, que começa em Lucas 3:23, Kells nomeia erroneamente um antepassado adicional.
  • Em Mateus 10:34, deveria ter sido colocado non veni pacem mittere, sed gladium (não vim trazer paz, mas espada). Ao invés de gladium que significa espada, no manuscrito de Kells foi escrito gaudium que significa alegria; sendo assim, a tradução ficanão vim trazer paz, mas alegria. Provavel distração do amanuense.

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