sábado, 12 de janeiro de 2013

Receitas para Voar - (Coisas de Bruxa)

Claro que não haveria graça apenas ler sobre pessoas que voavam, a graça está em voar também. Assim coletamos 5 receitas do unguento de voo  ou poção verde, como também era chamado para os curiosos e aventureiros. Lembrando-se sempre que você estará lidando com substâncias tóxicas é bom ter um acompanhamento de quem saiba o que está fazendo.


Receita 1: Lamiarum Unguenta (Unguento das Feiticeiras)

Tirada do já citado livro de Giovanni Battista Della Porta, registrada em 1558 d.C.

"Embora elas misturem uma grande dose de superstição, é evidente, no entanto, para o observador que estas coisas podem resultar de uma força natural. Repetirei o que me foi dito por elas. Fervendo (certo tipo de gordura) em um vaso de cobre, elas se livram de sua água, espessando aquilo que resta da fervura. Então elas a guardam, e tornam a fervê-la antes de usar: com isto, eles misturam o aipo, o acônito[1], folhas de álamo e fuligem. Ou, em alternativa: Conium[2], Acorus[3], cinco-folhas[4], o sangue de um morcego, uva-de-cão (Solanum)[5] e óleo, e se elas ali misturam outras substâncias, elas não diferem muito dessas."

Della Porta prossegue mostrando como esta mistura era utilizada, lembrando-se que antes do uso, a mistura deveria ser aquecida novamente:

"Então elas as esfregam em todas as partes do corpo, primeiro esfregando-a para devolver-lhe a cor avermelhada e esquentá-la, acabando com qualquer matéria que havia se condensado por causa do frio. Quando a carne é relaxada e os poros abertos, elas acrescentam a gordura (ou o óleo que é substituído por ela) - para que o poder dos sucos possa penetrar mais e tornar-se mais forte e mais ativa, sem dúvida."

Existem dois adendos que podem ser feitos aqui. Existe a menção na receita de "certo tipo de gordura" e sangue de morcego. A gordura obviamente é uma base para a pomada que será feita e foi a responsável por inúmeros mitos que favoreciam a igreja católica. A gordura usada, gordura animal, ganhou a imaginação popular como sendo originária de bebês não batizados, ou seja, crianças pagãs. A igreja com isso aumentou absurdamente o número de batismos, serviço pelo qual cobrava, de crianças por onde quer que este mito se espalhasse. Posteriormente, quando o número de crianças não-batizadas quase desapareceu, graças ao medo e ao preconceito criado, o mito se converteu ao mito da gordura de um recém nascido, o que novamente era uma bênção para os servos de Deus. Na época, devido às condições de saúde e higiene era comum que crianças morressem no parto. A parteira então podia ser acusada de bruxaria, já que havia "matado o infante" para adquirir sua gordura. Isso fez com que as pessoas parassem de procurar parteiras e buscassem o auxílio da igreja nos partos, além de fazer com que todos pedissem que padres abençoassem a mãe, serviço cobrado, para que nenhuma bruxa matasse suas crianças.

O sangue de morcego aparece, num primeiro momento, como um ingrediente maldito, mas sob um olhar mais calmo possui uma função muito importante. Note que antes de passar no corpo o ungüento, a bruxa o esfregava com as mãos até devolver-lhe a cor avermelhada. Duas substâncias da segunda receita tem essa capacidade, o cinco-folhas e o sangue. Uma vez que a mistura era re-fervida, assim que esfriava para uma temperatura em que pudesse ser manuseada, era esfregada entre as mãos até que ficasse ruborizada novamente, ai era o momento de a espalhar pelo corpo. O sangue é parte deste mecanismo para se saber quando a mistura está pronta, e um morcego possui a quantidade ideal para a mistura.

Este é um relato antigo que busca explorar os elementos, mas não as quantidades envolvidas. Hoje, graças à homeopatia, é possível se encontrar os extratos dessas plantas para serem usados. Da mesma forma homeopatas podem, caso persuadidos, te ajudar a descobrir as medidas seguras para a mistura. Lembrando que ela deve ser esfregada no corpo e não ingerida.


Receita 2: Ao modo de Don Juan

A década de 1960 revelou ao mundo que o xamanismo não havia morrido e estava para se tornar uma forma contemporânea e poderosa de magia novamente, inclusive uma muito popular. O responsável por isso foi Carlos Castañeda, um americano que encontrou um feiticeiro no méxico do qual se tornou discípulo, Don Juan. Depois dos primeiros encontros Castañeda registrou tudo o que lhe era ensinado em livros que foram publicados e graças à onde Hippie que crescia pela América do Norte se tornou uma das maiores ondas populares de xamanismo que temos notícia até os dias de hoje. 

Don Juan não perdia tempo ensinando a filosofia da magia, ou as tradições folclóricas para Castañeda, ele literalmente jogava o pobre rapaz no fogo e depois respondia as dúvidas que jovem viesse a ter, geralmente de forma a mostrar como ele era tolo ao tentar tornar a magia uma experiência psicológica ou meramente mental.

Em seu livro de 1968, A Erva do Diabo, ele registra:

"Havia uma pergunta que eu queria fazer-lhe. Sabia que ele ia esquivar-se, de modo que esperei que ele mencionasse o assunto; esperei o dia inteiro. Por fim, antes de partir naquela noite, tive de perguntar-lhe: 

- Voei de verdade, Dom Juan? 

- Foi o que me disse. Não voou? 

- Sei, Dom Juan. Quero dizer, meu corpo voou? Levantei vôo como um passarinho? 

- Sempre me faz perguntas que não posso responder. Voou. É para isso que serve a segunda porção da erva-do-diabo. Quando tomar mais dela, vai aprender a voar perfeitamente. Não é uma coisa simples. Um homem voa com o auxilio da segunda porção da erva-do-diabo. E só isso que lhe posso dizer. O que quer saber não faz sentido. Os pássaros voam como pássaros e um homem que tomou a erva-do-diabo voa como tal (el enverbado vuela así).

- Assim como os pássaros? (?Así como los pájaros?) 

- Não, voa como um homem que tomou a erva (No, así como los enverbados). 

- Então, realmente não voei, Dom Juan. Voei em minha imaginação, só em minha mente. Onde estava meu corpo? 

- Nas moitas - respondeu ele, mordaz, mas logo caiu na gargalhada outra vez. - O problema é que você só entende as coisas de um jeito. Não acha que um homem voa; e no entanto, um brujo pode mover-se mil quilômetros por segundo para ver o que está acontecendo. Pode desfechar um golpe em seus inimigos a distâncias imensas. Então, ele voa ou não? 

- Sabe, Dom Juan, você e eu estamos orientados de maneira diferente. Suponhamos, para argumentar, que um de meus colegas tivesse estado aqui comigo quando tomei a erva-do-diabo. Ele teria podido ver-me voando? 

- Lá vem você outra vez com suas perguntas de que aconteceria se... Não adianta falar assim. Se seu amigo, ou qualquer outra pessoa, tomar a segunda porção da erva, só vai poder voar. Agora, se só estivesse olhando para você, poderia ter visto você voando, ou não. Depende da pessoa,diabo. "Ele teria podido ver-me voando?"

- Mas o que quero dizer, Dom Juan, é que, se você e eu olharmos para um pássaro e o virmos voando, concordamos que está voando. Mas se dois de meus amigos me tivessem visto voando como voei ontem, concordariam em que eu estava voando? 

- Bom, podiam ter concordado. Você concorda que os pássaros voam porque já os viu voando. Voar é coisa comum, com os pássaros. Mas não vai concordar com outras coisas que os pássaros fazem, pois nunca viu pássaros fazendo tais coisas. Se seus amigos soubessem a respeito dos homens voarem com a erva-do-diabo, então eles haviam de concordar. 

- Vamos dizer a coisa em outras palavras, Dom Juan. O que quero dizer é que, se estivesse amarrado a uma pedra, com uma corrente pesada, ainda assim eu teria voado, pois meu corpo nada tinha a ver com meu vôo. 

Dom Juan olhou para mim, incrédulo. 

- Se você se amarrar a uma pedra - disse ele - acho que terá de voar segurando a pedra com sua corrente pesada."

A receita usada por Castañeda tem como base a planta datura, um gênero botânico pertencente à família Solanaceae. É constituído por cerca de catorze espécies de plantas anuais ou perenes de vida curta. Sua taxonomia é complexa e difícil, sendo constante e erroneamente chamadas de "Lírio" devido à sua grande semelhança nas flores com as plantas do gênero Lilium, pois, para leigos, é difícil a distinção. É comum dividir-se o gênero em 4 seções: Brugmansia, Stramonium, Dutra e Ceratocaulis. Muitas discussões tem havido sobre esse e outros critérios. Hoje, os especialistas estão de acordo em que se deve separar ao menos Brugmansia, pelo que em novos sistemas de classificação se tornou em um gênero distinto, restando oito espécies para o gênero Datura. A maneira de preparar o ungüento é a seguinte:

- Já lhe ensinei como distinguir o macho da fêmea disse Dom Juan. - Agora vá até às suas plantas e me traga ambos. Vá primeiro para a sua planta antiga e olhe atentamente para o caminho feito pela chuva. A essa altura, ela já deve ter levado as sementes para longe. Olhe para as gretas (zanjitas) feitas pela enxurrada e daí verifique a direção da água. Depois veja a planta que cresce mais afastada da sua. Todas as plantas da erva-do-diabo que crescem no meio são suas. Mais tarde, quando sementearem, poderá ampliar o tamanho de seu território seguindo o curso da água de cada planta no caminho. 

Deu-me instruções meticulosas sobre como conseguir um instrumento cortante. O corte da raiz, disse ele, tinha de ser feito da maneira seguinte: primeiro, eu tinha de escolher a planta que ia cortar e limpar toda a terra em volta do lugar onde a raiz se unia ao caule. 

Depois, tinha de executar exatamente a mesma dança que tinha dançado quando replantei a raiz. Em terceiro lugar, tinha de cortar fora a haste e deixar a raiz na terra. O último passo era cavar 40 centímetros de raiz. Aconselhou-me que não falasse nem demonstrasse sentimento algum durante esses atos. 

- Você deve levar dois pedaços de pano - disse ele. - Estenda-os no chão e coloque as plantas neles. Depois, corte-as em pedaços e empilhe-as. A ordem depende de você; mas deve lembrar-se sempre da ordem que seguiu, pois é assim que você deve sempre fazê-lo. Traga-me as plantas assim que as tiver. 

Na segunda-feira, 1° de julho, cortei as plantas de Datura que Dom Juan tinha pedido. 

Esperei até estar bem escuro para dançar em volta das plantas, pois não queria que me vissem. Eu estava bem apreensivo. Estava certo de que alguém ia presenciar meus atos estranhos. Já tinha escolhido as plantas que eu achava que eram masculina e feminina. Tive de cortar 40 centímetros da raiz de cada uma, e cavar tudo isso com um pedaço de pau não foi brincadeira. Levei horas. Tive de acabar o trabalho numa escuridão total, e quando estava pronto para cortá-las precisei usar uma lanterna. Meu medo original de que alguém pudesse ver-me era irrisório comparado com o medo de que alguém pudesse reparar na luz nos arbustos. Levei as plantas para a casa de Dom Juan na terça-feira, 2 de julho. Abriu os embrulhos e examinou os pedaços. Disse que ainda teria de me dar as sementes de suas plantas. Empurrou um almofariz para minha frente. Pegou um pote de vidro e esvaziou seu conteúdo - sementes secas aglomeradas - no almofariz. 

Perguntei-lhe o que eram, e ele disse que eram sementes comidas pelos gorgulhos. Havia muitos bichinhos entre as sementes - gorgulhos pretos. Falou que eram bichos especiais, e que tínhamos de tirá-los e pô-los num pote separado. Entregou-me outro pote, cheio até um terço do mesmo tipo de gorgulhos. Um pedaço e papel estava metido no pote para não deixar os gorgulhos escaparem. 

- Da próxima vez você terá de usar os bichinhos de suas plantas - disse Dom Juan. - O que tem de fazer é cortar as sementes que tenham buraquinhos; elas estão cheias de bichos. 

Abra as sementes e raspe tudo e ponha num pote. Junte um punhado de bichos e ponha-os noutra vasilha. Trate-os com brutalidade. Não seja delicado com eles. Meça um punhado das sementes aglomeradas que os bichos comeram e um punhado do pó de bichos e enterre o resto em qualquer lugar naquela direção (nesta altura, apontou para sudeste) de sua planta. Depois, colha sementes boas e secas e guarde-as separadamente. Pode colher quantas quiser. Sempre poderá usá-las. É uma boa idéia tirar as sementes das favas lá, para poder enterrar tudo de uma vez. 

Dom Juan me disse para moer primeiro as sementes aglomeradas, depois os ovos de gorgulhos; em seguida os bichos e, por fim, as sementes boas e secas: 

Depois de estar tudo triturado num pó fino, Dom Juan pegou os pedaços de Datura que eu tinha cortado e empilhado. Separou a raiz masculina e embrulhou-a com cuidado num pedaço de pano. Entregou-me o resto e disse que eu cortasse tudo em pedacinhos, amassasse- os bem e depois pusesse todo o suco num pote. Disse que eu tinha de amassá-los na mesma ordem em que os tinha arrumado. 

Quando acabei, ele me disse que pegasse uma xícara de água fervendo e a misturasse com tudo na panela, e depois juntasse mais duas xícaras. Entregou-me um pedaço de osso bem liso. Misturei a papa com aquilo e levei a panela ao fogo. Depois, ele disse que tínhamos de preparar a raiz, e que para isso tínhamos de usar o pilão maior, pois a raiz masculina não podia ser cortada de todo. Fomos para os fundos da casa. Ele estava com o pilão pronto, e eu amassei a raiz como já tinha feito antes. Deixamos a raiz de molho na água, exposta ao sereno, e fomos para dentro. 

Disse-me que vigiasse a mistura na panela. Eu devia deixar que ela fervesse até ficar encorpada - até ficar dura de se mexer. Depois, deitou-se em sua esteira e foi dormir. A papa já estava fervendo havia pelo menos uma hora quando reparei que estava ficando cada vez mais dura de mexer. Achei que devia estar pronta e tirei-a do fogo. Coloquei-a na sacola de linha dependurada do teto e fui dormir. 

Acordei quando Dom Juan se levantou. O sol estava brilhando num céu azul. Era um dia quente e seco. Dom Juan tornou a comentar que tinha certeza de que a erva-do-diabo gostava de mim.

Fomos tratar da raiz, e no fim do dia tínhamos um bocado de substância amarelada no fundo da tigela. Dom Juan despejou a água de cima. Achei que teso devia ser o fim do processo, mas ele tornou a encher a tigela com água fervendo. 

Pegou a panela com a papa que estava dependurada no telhado. A papa parecia estar quase seca. Levou a panela para dentro de casa, colocou-a no chão com cuidado e sentou-se. 

Neste momento, começou a falar. 

- Meu benfeitor me disse que era permitido misturar a planta com banha. E é isso que você vai fazer. Meu benfeitor misturou-a com banha para mim, mas, como já disse, eu nunca fui muito amigo da planta e nunca tentei realmente me tornar um só com ela. Meu benfeitor me disse que, para obter melhores resultados, para aqueles que realmente desejam o poder, o certo é misturar a planta com a banha de um porco-do-mato. A gordura dos intestinos é a melhor. Mas você é quem escolhe. Talvez o destino resolva que você tome a erva-do-diabo como aliada, e nesse caso eu lhe aconselho, como meu benfeitor me aconselhou, a caçar um javali e tirar-lhe a gordura dos intestinos (sebo de tripa). Em outras épocas, quando a erva-do-diabo era a tal, os brujos iam em caçadas especiais para conseguir banha dos javalis. Procuravam os machos maiores e mais fortes; deles tiravam um poder especial, tão especial que era difícil acreditar, mesmo naquela época. Mas aquele poder está perdido. Não sei nada a respeito. Nem conheço alguém que saiba. Talvez a própria erva lhe ensine tudo isso. 

Dom Juan mediu um punhado de banha, colocou-a na tigela com a papa seca e raspou a banha que ficou em sua mão na beirada da tigela. Disse-me que misturasse o conteúdo até estar tudo liso e bem misturado. 

Bati a mistura durante quase três horas. Dom Juan de quando olhava e achava que ainda não estava boa. Por fim pareceu estar satisfeito. O ar batido para dentro da pasta lhe dera uma coloração cinza-clara e a consistência de gelatina. Ele pendurou a tigela do teto, junto da outra tigela. Disse que ia deixa-la ali até o dia seguinte, porque seriam necessários dois dias para preparar essa segunda porção. Disse que, enquanto isso, eu não comesse nada. Podia beber água, mas não sorver nenhum alimento. 

No dia seguinte, quinta-feira, 4 de julho, Dom Juan mandou que eu lixiviasse a raiz quatro vezes. Da última vez que d a água da tigela, ela já estava escura. Ficamos sentados na varanda. Ele colocou as duas tigelas em frente dele. O extrato da raiz deu uma colher de chá de uma goma esbranquiçada. Colocou-a numa xícara e juntou água. Girou a xícara na mão para dissolver a substância e depois ma entregou. Disse que eu bebesse tudo o que estava na xícara. Bebi depressa e depois pus a xícara no chão e me recostei. Meu coração começou a disparar; parecia que eu não conseguia respirar. Dom Juan mandou, com naturalidade, que eu despisse todas as minhas roupas. Perguntei-lhe por que e ele disse ia de me esfregar com a pasta. Hesitei. Não sabia se me ou não. Dom Juan insistiu, dizendo que eu me apressasse. Disse que havia muito pouco tempo para estar desperdiçando-o. Tirei toda a roupa. 

Pegou seu pedaço de osso e cortou duas linhas horizontais na superfície da pasta, desse modo dividindo o conteúdo da tigela em três partes iguais. Depois, começando do centro da linha superior, cortou uma linha vertical, perpendicular às outras duas, dividindo a pasta em cinco partes. Apontou para a parte direita inferior, e disse que aquela era para meu pé esquerdo. A parte acima dela era para minha perna esquerda. A parte superior, a maior, era para meus órgãos genitais. A seguinte, abaixo, à esquerda, .era para minha perna direita e a de baixo à esquerda era para o pé direito. Disse-me que aplicasse a parte da pasta designada para meu pé esquerdo à sola de meu pé e a esfregasse bem. Depois ensinou-me a aplicar a pasta à parte interna de toda a minha perna esquerda, em meus órgãos genitais, no lado de dentro de minha perna direita e por fim na sola de meu pé direito.

Segui as instruções dele. A pasta estava fria e tinha um cheiro especialmente forte. Quando acabei de aplicá-la, endireitei o corpo. O cheiro da mistura penetrou em minhas narinas. Parecia-me sufocante. O odor ativo estava mesmo me sufocando. Parecia um tipo de gás. Tentei respirar pela boca e falar com Dom Juan, mas não consegui. Dom Juan estava olhando para mim, fixamente. Dei um passo em direção a ele. 

Minhas pernas pareciam elásticas e compridas, extraordinariamente compridas. Dei outro passo. As juntas de meus joelhos pareciam flexíveis, como uma vara de salto; tremiam e vibravam e se contraíam como elástico. Fiz um movimento para a frente. O movimento de meu corpo era lento e trêmulo; era mais como um tremor que se adiantava e subia. Olhei para baixo e vi Dom Juan sentado abaixo de mim, muito abaixo de mim. O impulso me levou mais um passo à frente, que foi ainda mais elástico e longo do que o anterior. E dali eu me elevei no ar. Lembro-me de que desci uma vez; então, dei um impulso com os dois pés, dei um salto para trás e planei de costas.


Receita 3: Poções Neo-Pagãs

As receitas abaixo são usadas por pagãos contemporâneos, e tem a facilidade de serem feitas com essências que podem ser compradas pela internet ou em lojas próprias para isso, são bem mais simples de serem feitas em casa.

O que você vai precisar de:

4 xícaras base:
Cera de abelha, manteiga de cacau ou lanolina

5 conta-gotas cheios de Essências Florais:
Eschscholzia californica, Camomila, Lotus e Rosa

Um punhado ou mais das seguintes ervas:

Ditânia de Creta (Origanum dictamnus), Cannabis Sativa, Lúpulo (opcional), Lavanda, Linden (Tilia tomentosa), solidéu e Alface Selvagem

15 a 20 gotas de óleos essenciais:

Sálvia esclaréia, Jasmim, artemísia, Sândalo

Uma pitada de ópio bruto (opcional)

5-7 gotas de tintura de Benjoim (um conservante)

Em um pote não metálico, derreta lentamente a base em fogo baixo. Misture então com a base as ervas e cozinhe com cuidado em fogo muito baixo, mexendo sem parar por 30 minutos. Retire as ervas. Pegue a base e coloque em um pote, sem fogo, acrescentando as essências de flores e óleos essenciais e a tintura de benjoim, mexendo sem parar. Coloque em jarros térmicos e deixe esfriar. Para armazenar guarde em um jarro hermeticamente fechado dentro do refrigerador ou em outro local escuro e fresco.

Ao se preparar para usar, evite o consumo de cafeína e não trate o óleo com carinho, esfregue com vontade na parte interior dos pulsos. Espere uma hora e meia e aplique na garganta e têmporas. EVITE aplicar em mucosas - ou seja qualquer parte lisa e úmida do corpo. Caso note alguma reação alérgica após aplicação nos pulsos evite usar no resto do corpo.

Esta outra receita é mais leve e sutil, é indicada para ser usada antes de se dormir para vôos e sonhos lúcidos.

1/4 de xícara de banha
1/2 colher de chá de óleo de cravo
1 colher de chá de fuligem de chaminé
1/4 de colher de chá de cinco-folhas secas
1/4 de colher de chá de artemísia seca
1/4 de colher de chá de flor do cardo seca
1/4 de colher de chá de verbena seca

Usando um almofariz e pilão, amasse as ervas secas até que se tornem um pó. Em um pequeno caldeirão ou panela, aqueça a banha em fogo baixo até que esteja derretida completamente. Adicione as ervas, o óleo de cravo e fuligem da chaminé na base de banha e misture bem. Adicione o benjoim como conservante natural, misture sentido horário e então cozinhe por 10-15 minutos.

Coe tudo usando uma gaze ou um pano de pratos limpo em um pequeno recipiente resistente ao calor e, em seguida, deixe-a arrefecer. Armazene a mistura em sua geladeira ou em um lugar fresco e escuro, até que
você deseje usá-la.

Em uma noite de lua cheia unte suas têmporas, pulsos e terceiro olho com uma pequena quantidade do ungüento de vôo e espere, ou durma.

Notas:

[1] O acônito (Aconitum napellus) é uma planta venenosa, pertencente à família Ranunculaceae muito utilizada em "medicamentos" homeopáticos. Possui raízes tuberosas e caule ereto, com flores azuis na forma de um elmo. O fruto é uma vesícula. Os sintomas do envenenamento por sua causa são salivação excessiva, falta de ar, tremores e aceleração dos batimentos cardíacos. Apenas 10 gramas de raíz constituem uma dose letal para o ser humano.

É uma planta vivaz que pode atingir até 1,5 metros de altura, tem folhas verde-escuras, palmeadas e recortadas, flores azuis, raramente brancas, e raiz fusiforme. Dá-se bem nas regiões montanhosas, é medicinal e costuma cultivar-se também em jardins, como planta ornamental.

Todas as suas variedades são venenosas quando a semente já está madura. O Aconitum napellus, comum em terrenos úmidos, cultiva-se muito em jardins. Todas as partes da planta são muito venenosas em virtude de possuírem alcalóides distintos.

Outras espécies de acônito existentes em Espanha e Portugal são a erva toira (A. anthora), ou acônito da saúde, e o matalobos (A. lycoctonum), de flor amarela.

[2] Espécie pertencenta ao gênero Conium L. que por sua vez pertence à família Apiaceae. O veneno cicuta é obtido a partir de uma espécie deste género, o Conium maculatum. A Cicutina é um alcalóide muito venenoso extraído da cicuta e que tem a aparência de um óleo amarelado.

Também conhecido como:

O bálsamo da Meca das solteironas.

Usado para: 

Deprimido, taciturno. Tristeza.
Esgotamento mental. Dificuldades de entendimento, quer na
conversação quer na leitura.
A sua tristeza aparece periodicamente. De quinze em quinze dias.
Depressão por privação sexual.
Memória fraca.
Dificuldade de concentração. Dificuldade de desenvolver trabalhos
intelectuais.
Indiferença.
Indolente. Astenia. Não é capaz de fazer um qualquer esforço.
Não gosta das pessoas, mas não quer estar só.
Não gosta que o contradigam.
Sente os músculos fracos e tem tremores.
Vertigem quando deitado.
Lacrimeja bastante.
Fotofobia em excesso.
Estrangulamento da faringe e do esófago.
Desejo de sal.
Aversão ao leite.
Arrotos ácidos.
Abdómen duro com sensibilidade ao toque.
Prisão de ventre a cada dois dias.
Sente-se fraco e tem tremores depois de evacuar.
Tosse seca.
Tem dificuldade em esvaziar a bexiga. Jacto de urina intermitente.
Impotência com desejo.
Ejaculação precoce.
Regras atrasadas, curtas, pouco abundantes.
Seios flácidos com pontos duros, sensíveis ao toque.
Sua muito quando dorme e quando fecha os olhos.

[3] Acorales é uma ordem de monocotiledôneas que contém uma única família, Acoraceae, e um único género Acorus L.. Esta família tem sido reconhecida por muito poucos taxonomistas. A classificação segundo o Sistema de Cronquist coloca o género Acorus na família Araceae, ordem Arales, subclasse Arecidae, classe Liliopsida.

Na classificação taxonômica de Jussieu (1789), Acorus é um gênero botânico, ordem Aroideae, classe Monocotyledones com estames hipogínicos.

As plantas deste gênero são nativas da América do Norte e Ásia, introduzidas na Europa durante a Idade Antiga. São conhecidas variedades diplóides e tetraplóides, assim como triplóides de origem híbrida, que por serem inférteis, se reproduzem rizomaticamente. Da espécie Acorus calamus, conhecida no Brasil como cálamo-aromático ou cana-cheirosa, pode ser extraído por destilação um óleo essencial utilizado em perfumaria e em medicina.

[4] Potentilla L. é um gênero de cerca de 500 espécies de ervas anuais, bianuais e perenes da família Rosaceae, nativa na maior parte do Hemisfério norte. Conhecida popularmente como potentilha, cinco-em-rama, tormentila, e morango estéril. Muitas espécies têm as folhas divididas em cinco folhinhas distribuídas como os dedos de uma mão, vem daí o nome popular "cinco-em-rama", embora algumas espécies, como por exemplo a Potentilla sterilis tenham apenas três, e outras, como a Potentilla anserina 15 ou mais folhinhas como se fosse uma pena. As folhas de algumas potentilhas servem de alimento para as larvas de algumas Lepidoptera, incluindo as mariposas.

Potentilla está também relacionado ao gênero Geum e Dryas, e também aos morangos no gênero Fragaria; Potentilla difere dos morangos por ter os frutos secos e não comestível (de onde vem o nome "morango estéril" para algumas espécies). Pensa-se que a espécie Potentilla arguta tenha características protocarnívoras, ou seja, é uma planta que captura e mata insetos ou pequenos animais, mas à qual falta a capacidade de os digerir diretamente ou então de absorver os seus nutrientes da mesma forma que uma planta carnívora.

Algumas espécies são cultivadas como plantas de jardim.

[5] Da família das solanaceae, é também conhecida pelas designações comuns de Dulcamara, Doce-amarga, Vinha-da-Índia e Vinha-da-Judeia. Distribui-se pela maior parte Europa e Ásia, (donde é considerada originária) e noutras paragens, incluindo a América do Norte, como planta naturalizada. Encontra-se em terrenos húmidos e, especialmente, em pequenas ínsuas no interior e ao longo de pequenos cursos de água.
É usada em fitoterapia para tratamento de eczemas, furúnculos, verrugas e acne. Note-se, no entanto, que a Uva-de-cão é tóxica, dada a presença de alcalóides, sobretudo nas suas bagas, cuja ingestão pode, quando em grande quantidade, levar à morte.

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