quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Amor não existe mais?


por João Carvalho Neto -joaoneto@joaocarvalho.com.br
Dizem que o amor não existe mais - é o que eu escuto com alguma frequência de pessoas deitadas no divã do meu consultório, falando sobre suas decepções amorosas, sobre a falta que sentem de retorno afetivo para as necessidades de sua carência interior. Ouvi isto por muitas vezes, sem ter parado para refletir sobre a complexidade que pode estar envolvendo esta questão.
A princípio, minha tendência era sempre a de pensar que estas queixas vinham de pessoas excessivamente carentes, pessoas que tendem a cobrar demasiada atenção de seus parceiros, que esperam um amor apaixonado que nunca se modifique. Claro que estas pessoas existem... e não são poucas. Mas comecei a perceber que talvez a explicação dessa queixa não residisse apenas em suas predisposições psicológicas, a darem uma interpretação pessoal e lastimosa aos fatos. Diante de uma paciente que se lamentava sobre o comportamento mais distante do marido, tive um insight e percebi que talvez ele realmente não a amasse; contudo, não de todo, mas como ela esperava que fosse.

Vivemos tempos de uma profunda transição, que se opera em todos os níveis da existência humana. Tempos em que a vida nos coloca em um constante exercício de adaptações às novas formas de lidar com a realidade ao redor, mas também com nossas emoções.
Na verdade, todas as mudanças que vêm ocorrendo, no campo do social, da cultura, da política, da economia, dos hábitos, da ética nada mais são do que o reflexo de uma mudança básica que se opera na consciência humana. Não é mundo que está mudando, mas os seres humanos que formam e dão sentido a este mundo que estão mudando. E com os relacionamentos, especialmente com o amor, não seria diferente.

Quando Sigmund Freud estabeleceu as bases da proposta psicanalítica, estudando a sexualidade humana desde a mais tenra idade, percebeu que os desejos reprimidos que os filhos nutriam pelos pais estabeleciam construções que poderiam se tornar neuróticas nessas crianças, com fortes possibilidades a se transferirem para os relacionamentos futuros quando adultos.
Um pai e uma mãe são as primeiras pessoas que aprendemos a amar e, sobre elas, criamos modelos que tendemos a repetir, principalmente, nos encontros conjugais. A forma como esses modelos se estabeleceram, com seus conflitos ou resoluções satisfatórias, irão marcar indelevelmente a percepção afetiva que fazemos do outro.
Por isso, costumamos transferir para nossos parceiros afetivos nossas carências, dominações, recriminações, cobranças que tivemos com nossos pais, mas que ficaram reprimidas a nível do inconsciente por conta da culpa de desejos possivelmente condenáveis -pela cultura religiosa e social- que tivemos por eles.

Freud percebeu este contexto de construção psicológica dentro da sociedade européia do início do século XX, que emergia de sentimentos profundos de culpa, até mesmo patológicos, devido ao longo período de dominação de uma religião construída sob o domínio do medo de castigos e condenações.
Cem anos depois, temos inquestionavelmente um novo cenário. As liberdades são outras, a força da coação religiosa diminui, e a probabilidade de construções neuróticas nos modelos que Freud observou tem mudado. Os filhos amam seus pais mais livremente, falam sobre sexualidade com abertura, compreendendo, aceitando e lidando melhor com seus desejos sem recriminações neurotizantes. Além disso, as necessidades de inserção no mercado de trabalho, para organizar melhor as despesas do lar, aumentaram, fazendo com que os pais -especialmente agora as mães- passem mais tempo fora de casa do que antes.

Dessa forma, os modelos de relacionamento entre filhos e pais são mais livres, menos dependentes, com mais autonomia afetiva, o que não significa descaso ou desprezo, mas mais independência para todos vivenciarem seus projetos de vida sem que isso caracterize falta de amor ou de compromisso afetivo.
Muitos dos jovens casais de hoje são herdeiros dessa cultura familiar que, curiosamente, baseia-se em mais autonomia, mas também em melhores relações, já que as cobranças e expectativas neuróticas transferenciais estão deixando de existir.
Se ambas as partes concebem a vida dessa forma será muito bom, e a convivência tenderá a ser harmônica e baseada no diálogo. Entretanto, como estamos em tempos de transição, aquilo que se apresenta como o novo se mistura com as tendências ainda arraigadas que insistem em persistir.

Muitas vezes ainda encontramos casais onde um dos parceiros já avançou para estas concepções mas o outro traz modelos demasiadamente possessivos de relacionamento. Para esses, o outro, mais autônomo afetivamente, parecerá distante e incapaz de amá-lo como gostaria que fosse.
Então, parece-me que não é o amor que não existe mais, mas o amor vem passando por um processo de amadurecimento nas pessoas, apresentando características mais saudáveis, pela melhor preservação das individualidades e com menos apegos neurotizados, o que desagrada os que esperam desses amores completarem seu vazio interior.
Para estas pessoas, dizer que o amor não existe pode ser mais fácil do que assumirem suas necessidades de transformação pessoal.

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor dos livros "Psicanálise da alma" e "Casos de um divã transpessoal"
www.joaocarvalho.com.br


VEM AÍ O IV CONGRESSO NACIONAL DE TERAPIA REGRESSIVA
7 a 9 de novembro 2013/ Rio de Janeiro
www.congressotr2013.com.br

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Sol Brilha Sempre


por Maria Cristina Tanajura -tinatanajura@terra.com.br
Por mais fé que tenhamos e por mais que nos preparemos para enfrentar os acontecimentos do nosso dia a dia, concordo que não está sendo nada fácil!!! O noticiário é verdadeiramente absurdo, sinistro... (como gostam de dizer os mais jovens) e tudo de mais abjeto parece acontecer ao mesmo tempo, não apenas lá longe --em outros países-- mas bem aqui perto, na nossa esquina. Parece-me que vivemos um filme de terror verdadeiro.

Nesta semana, perto de minha casa, tentando fazer um caminho costumeiro de carro, fui parada pela multidão e carros de polícia, imprensa, aquela confusão. Depois fiquei sabendo que um homem havia sido encontrado morto em cima de uma árvore que é bem alta e fica na porta do maior supermercado de meu bairro. Gente, ele já devia estar morto há mais de três dias, dizia o estado do corpo. Confesso que fiquei abalada e muito assustada. Como pode isto acontecer? Quem seria esta pessoa? Provavelmente um morador de rua, que não sabemos que nome tinha. Por que dormia em um local assim? Talvez porque fosse o mais seguro para ele. Enfim, meu coração ficou doído. O local é muito frequentado por todo tipo de pessoas e o corpo só foi notado quando já estava em estado de putrefação, exalando mau cheiro.

Precisamos nos colocar de forma mais clara diante do Universo. Deus precisa se expressar através de cada um de nós que já ouve sua própria consciência. Vamos ser seres espiritualizados não apenas nos dias de culto -seja ele qual for- mas em todos os instantes de nossas vidas. Vamos falar de Deus com nossos filhos, com nossos amigos. Vamos procurar amar mais e melhor. Fazer o que precisarmos de forma amorosa, pois o Apocalipse está instalado no nosso planeta, deem a esta fase o nome que quiserem. O que importa é reconhecermos a urgência da mudança que precisamos operar em nós mesmos, nas nossas vidas.

O pobre mendigo sem nome faleceu e nem sei se seu corpo foi enterrado. Mas certamente será recebido pelo Amor, na outra dimensão de Vida, pois sendo insignificante como foi nesta encarnação, é um filho de Deus como eu e você - temos a mesma origem e a mesma destinação...

Vamos trazer a espiritualidade, a bondade, mais e mais pra nossas vidas. Tentando viver o agora de forma responsável, consciente, estando mais presentes em cada ato, em cada olhar. Poderemos trabalhar pela mudança planetária apenas quando nos convencermos de que nosso exemplo é de fundamental importância pra que isto aconteça.

Existem tantas pessoas boas neste nosso mundo! Procuremos nos unir. O STUM é um exemplo de trabalho bem direcionado e em equipe, a muitas mãos, dirigido por muitas consciências e apoiado por milhares delas.

Quando me sinto abalada e triste, procuro me lembrar do Sol, expressão poderosa de Deus em nosso planeta. Sempre presente, sem escolhas de local e hora, muitas vezes encoberto por nuvens espessas que o escondem, mas conseguindo transformar todas elas em gotas d'água que nos trazem a vida, molhando a terra que tudo dá de volta.

Certamente, atravessamos momentos MUITO DIFÍCEIS, mas estamos sendo observados por Irmãos de Luz que nos indicam caminhos, que nos fortalecem o ânimo, que nos sopram mensagens de esperança.

Não podemos desistir nem desanimar, pois somos a força libertadora, encarnada, de nosso planeta. Lutemos mais e sempre mais, cada um no seu lugar, fazendo o que está sendo possível, na certeza de que valerá a pena. A tempestade instalada passará, pois tudo passa...

O pedido é para que nos unamos numa só corrente, de muito Amor e Fé na vitória do Bem. Nossa mente precisa ajudar com imagens dessa transformação. Não podemos guardar tristeza e desânimo em nossos corações, pois ficaremos doentes e sem forças.

Não importa como o nosso Deus se apresenta. A fé que nos inspira é que nos vitaliza e fortalece. Assim, vamos em frente, independente da religião, seita ou crença que tenhamos. O Amor nos criou e nos sustentará até a chegada da Nova Era anunciada que está sendo trazida à Terra por cada coração que acredita nela.

O Irmão Sol brilha e brilhará sempre, dando-nos um exemplo claro do que precisamos ser, onde estivermos. Vibrando Luz, venceremos! 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ciganos - Parte I, II e III.












Os Ciganos inicialmente se manifestaram na Umbanda dentro da Linha do Oriente.  

Mais tarde, vieram como Linha autônoma e com um campo especializado de atuação, que se volta muito para a magia visando à prosperidade, à união das famílias, ao amor, à cura, à quebra de magias negativas, à superação de preconceitos e de traumas e bloqueios emocionais. 

A Linha dos Ciganos tem a Regência dos Orixás Egunitá (que inclusive é sincretizada com Santa Sara Kali, a Padroeira do Povo Cigano), Oyá-Tempo e Yansã.  

A Linha traz o arquétipo de um povo muito antigo e místico, de alma livre, desapegado e, por isso mesmo, capaz de atrair a prosperidade no campo espiritual e material e de ensiná-la a quem precise.  

Popularmente, às vezes se pensa que os Ciganos eram apegados a jóias e metais preciosos, mas o que ocorre é que esses valores eram de fácil transporte para eles, que eram nômades, e assim procuravam ter meios de subsistência. O desapego e o senso de liberdade aparecem na sua maneira de viver, que é sustentada em suas crenças, tradições e na valorização da família. Nunca se envolveram em disputas por domínio ou conquistas. 

Segundo a maioria dos pesquisadores da atualidade, a origem dos Ciganos está na Índia. Ao que tudo indica, de início não eram nômades, mas condições adversas os levaram a peregrinar. Alguns pesquisadores apontam que foram expulsos por invasores muçulmanos, por volta do século 10, e daí em diante tornaram-se nômades. 

Os Ciganos são grandes conhecedores da magia, alegres, amantes da natureza, muito voltados para a família, serenos e sábios conselheiros. São especialistas em preparar remédios com raízes, folhas, pós e pomadas. São portadores de uma Energia que favorece muito a prosperidade, pois estimula nas pessoas um sentimento de liberdade, de amor e celebração da vida, bem como o desapego, fatores indispensáveis para se atrair a ”boa sorte” e “a fortuna”. 

O Povo Cigano traz uma extraordinária bagagem cultural. Por sua natureza nômade, os Ciganos viveram em diversas regiões do mundo, acabando por somar aos próprios conhecimentos aquilo que assimilaram de tantas outras culturas.  

Ao longo da história, os Ciganos enfrentaram inúmeros preconceitos, desconfianças e acusações injustas, sendo banidos de muitas regiões do planeta. Eram fechados na sua maneira de viver, no sentido de que falavam um idioma próprio e nunca tiveram uma tradição escrita, tudo é passado oralmente; e, por serem muito místicos, pareciam sempre misteriosos. Muitos foram presos e escravizados; grande número deles foi assassinado na Inquisição e, mais recentemente, pelo nazismo.  

Todos os povos têm entre si bons e maus elementos; e com os Ciganos não poderia ser diferente. O que não se pode é julgar todos pelo comportamento da minoria. A causa de tantas perseguições foi a sua cor de pele e a sua mística (seus dons místicos), outro motivo nunca foi provado. Eles sofreram porque eram diferentes; e infelizmente até hoje “ser diferente” incomoda a alguns e gera atos de preconceito e de discriminação abomináveis.  

Apesar de tudo isso, os Ciganos souberam preservar sua mística, sua alma livre e suas tradições culturais; inclusive a partir do idioma, o Romani (ou Romanês), até hoje falado pela grande maioria dos Ciganos de todo o mundo. Eles mantiveram sua fé, suas crenças, sua sabedoria, sua magia, seu espírito livre de “cidadãos do mundo”, nunca lutaram por uma terra própria, não se apegaram a pedaço algum de chão. São “viajantes que dormem sob o teto das estrelas; filhos da Terra, da água, do vento, do sol, da lua, da chuva, do dia e da noite; e irmãos de todas as criaturas”, como nos disse um dia uma Entidade Cigana. Existe noção mais bela de vida do que esta: “ser um viajante”? Afinal, estamos aqui de passagem... 

Por toda a sua bagagem espiritual e cultural e por sua história de peregrinações e sofrimento, os Ciganos receberam do Astral Superior uma Linha de Trabalho que lhes rende homenagem. Não foram aceitos em alguns lugares, quando encarnados. Mas, ao desencarnar, conquistaram um Grau perante a Espiritualidade; vindo a somar suas forças às das demais Falanges de Trabalhadores da Umbanda, o que nos proporciona o privilégio de entrar em contato com esses espíritos antigos, que muito podem nos auxiliar, como de fato auxiliam, com sua sabedoria de vida.

Trabalham preferencialmente na Vibração da Direita e neste caso não costumam usar a cor preta (em velas, roupas etc.). Aqueles que trabalham na Vibração da Esquerda são os Exus e as Pombagiras Ciganas, Guardiões e Guardiãs a serviço da Luz nas trevas, dentro dos seus campos de atuação, como todo Guardião e Guardiã. 

Os Ciganos gostam de música e dança. Suas Giras são envolventes, coloridas pelas suas vestes e, acima de tudo, pela sua energia alegre e amiga. 

Usam muitos elementos magísticos, tais como: lenços e fitas coloridas, moedas, punhais, espelhos, taças, chaves, baralho, dados, pedras, runas, leques e incensos. Observam muito as fases da Lua para os seus trabalhos. No geral, a Lua Cheia é considerada a mais favorável, é a “lua madrinha” dos Ciganos. 

Cada incenso que usam tem uma finalidade específica. Exemplos:
Mirra- incenso considerado sagrado. Usado para limpeza, durante e após os rituais, bem como para desfazer magias negativas;
Sândalo- para estabelecer a sintonia com o Astral;
Lótus- para paz e tranquilidade;
Benjoim- para proteção e limpeza;
Madeira- para abrir os caminhos;
Almíscar- para favorecer os romances;
Jasmim- para o amor;
Laranja- para acalmar uma pessoa ou um ambiente.

Costumam indicar o incenso de sua preferência, ligado ao seu campo específico de trabalho. Numa oferenda para manutenção, agrado ou tratamento, podemos usar incenso de rosas (leveza, elevação e louvação espiritual), na falta de indicação específica.

Alguns Símbolos Ciganos: 

Tudo no mundo Cigano está envolvo em magia. Há muitos símbolos, como estes: 

●Roda – É o grande símbolo Cigano. Simboliza o “Sansara”, o ir e vir; o passar por diversos estados; o ciclo nascimento/morte/renascimento. Usado para “o despertar da consciência” e assim promover a evolução e o equilíbrio.  

●Estrela de seis pontas- Simboliza proteção. É o símbolo dos grandes Chefes Ciganos. Usado como talismã de proteção contra inimigos visíveis e invisíveis. Também conhecido como Estrela Cigana e Estrela de David. Representa sucesso e evolução interior. Suas seis pontas formam dois triângulos iguais, que indicam a igualdade entre o que está encima e o que está embaixo (princípio de uma das Leis Herméticas).  

●Estrela de cinco pontas (pentagrama)- Simboliza evolução, o domínio dos cinco sentidos. Usado para proteção, está associado à intuição, à sorte e ao êxito.   

●Ferradura- Simboliza energia e sorte. Os Ciganos a consideram um poderoso talismã. É usada para atrair energia positiva, a boa sorte e a fortuna e para afastar a má sorte.  Também representa o esforço e o trabalho. 

●Chave- Simboliza as soluções. Usada para atrair boas soluções de problemas. Quando trabalhada no fogo, atrai sucesso e riquezas. 

●Lua- Simboliza a magia e os mistérios. Usada geralmente pelas Ciganas para atrair percepção, o poder feminino, a cura e o exorcismo, e sempre atentando para as suas fases: Nova, Crescente, Cheia e Minguante. A Lua Cheia é o maior símbolo de ligação com o Sagrado, sendo chamada de “madrinha”. As grandes festas Ciganas sempre acontecem em noites de Lua Cheia.  

●Coruja- Simboliza "ver a totalidade". É usado para ampliar a percepção com a sabedoria, possibilitando ver a totalidade, o consciente e o inconsciente. 

●Âncora- Simboliza segurança. Usada para trazer segurança e equilíbrio no plano físico, inclusive financeiro, e para se livrar de perdas materiais. 

●Moeda- Simboliza proteção e prosperidade. Usada contra energias negativas e para atrair dinheiro.  É associada ao equilíbrio e à justiça, bem como à riqueza material e espiritual representada nas duas faces da moeda (cara e coroa). Para os Ciganos, cara é o ouro físico; e coroa é o espiritual. 

●Punhal- Simboliza força, poder, vitória e superação. Muito usado nos rituais de magia, tem o poder de transmutar energias. Os Ciganos usavam o punhal para abrir matas e por isso ele é um dos grandes símbolos de superação e pioneirismo, além da roda.  

●Taça- Simboliza união e receptividade (qualquer líquido cabe nela e adquire sua forma). No casamento Cigano, os noivos tomam vinho numa única taça, representando valor e comunhão eterna. 

●Trevo- É o símbolo mais tradicional de boa sorte. O trevo de quatro folhas traz felicidade e fortuna; encontrar um é prenúncio de boas notícias.  
  


A Devoção a SANTA SARA KALI 

A maior peregrinação dos Ciganos é a que acontece para Saintes-Maries-de-La-Mèr, na região de Camargue (Sul da França), onde fica o Santuário de Santa Sara. Todos os anos, Ciganos do mundo inteiro peregrinam às margens do mar Mediterrâneo para louvar Santa Sara, nos dias 24 e 25 de maio. 

A origem do culto a Santa Sara permanece um mistério. Foi provavelmente na primeira metade do século XIX que os Boêmios criaram o hábito da grande peregrinação anual a Camargue.  

Contam-se muitos milagres atribuídos a Santa Sara, considerada a Padroeira do Povo Cigano.  

Além de trazer saúde e prosperidade, Santa Sara Kali é cultuada pelas Ciganas por ajudá-las diante da dificuldade de engravidar e como protetora dos partos difíceis.  

Muitas Ciganas que não conseguiam ter filhos faziam promessas: se concebessem, iriam à cripta da Santa, em Saintes-Maries-de-La-Mèr, cumprindo uma noite de vigília e depositando em seus pés, como oferenda, o mais bonito lenço (diklô) que encontrassem. E lá existem centenas de lenços, como prova que muitas Ciganas receberam esta graça. 

Existem muitas lendas sobre Santa Sara.  

Uma delas conta que entre os anos 44 e 45 d.C., quando o rei Herodes perseguia os cristãos, alguns discípulos de Jesus foram colocados no mar, em embarcações sem remos e sem provisões, entregues à própria sorte. Numa dessas embarcações estavam Maria Madalena, Maria Jacobé, Maria Salomé, José de Arimatéia e Trofino que, junto com Sara, uma cigana escrava, foram atirados ao mar. As três Marias entraram em desespero, chorando e rezando.  

Então, Sara retirou o diklô (lenço) da cabeça, chamou por Kristesko (Jesus Cristo) e fez um juramento: se todos se salvassem, ela seria escrava do Mestre Jesus e jamais andaria com a cabeça descoberta, em sinal de respeito.  

Milagrosamente, a barca atravessou o oceano e aportou em Petit-Rhône, hoje Saintes-Maries-de-La-Mèr, na França.  E Sara cumpriu sua promessa até ao fim de seus dias. 

Até hoje, o diklô (lenço) é um simbolismo forte entre os Ciganos. Significa a aliança da mulher casada, um sinal de respeito e fidelidade.  
  

Nomes Simbólicos:

De Ciganos: Pablo, Wlademir, Ramirez, Juan, Pedrovick, Artemio, Hiago, Igor, Vitor, Ramon etc.   

De Ciganas: Esmeralda, Carmem, Salomé, Carmensita, Rosita, Madalena, Yasmin, Maria Dolores, Zaira, Sunakana, Sulamita, Wlavira, Iiarin, Sarita etc.

Dia da Semana: A 5ª-feira, associada ao planeta Júpiter e ao Orixá Egunitá.

Campo de Atuação: Atração da prosperidade em todos os sentidos; despertar a consciência, o desapego, o senso de liberdade e de amor pela vida; cura espiritual e física; corte de magias negativas.

Ponto de Força: Espaços abertos, jardins e campos floridos.

Cor: Cores variadas: violeta, azul noite (“royal”), verde, rosa, amarelo, vermelho, branco etc. Os Ciganos que trabalham na Direita não costumam usar a cor preta.

Saudação: Salve a Roda e a Fortuna!

Elementos de Trabalho: Baralho, espelho, punhal, dados, cristais (pedras coloridas), moedas antigas, medalhas, estrelas de seis e de cinco pontas, chave, ferradura, trevo, taça, roda, âncora, fitas e lenços coloridos, instrumentos musicais, leques, folha de sândalo, raiz de violeta, folha de tabaco, tacho de cobre ou de prata, cestas de vime, areia de rio, vinho, perfumes.

Sementes: Girassol, trigo, lentilhas, grão de bico, grãos em geral.

Ervas: Jasmim; alecrim; sálvia; hortelã; pétalas de rosas; folha de laranja e limão; folha de louro; pétalas, folhas e raiz de violeta; canela; cravo; folha de tabaco; folha de sândalo.  Especialmente são indicadas as ervas dos Orixás Oyá-Tempo, Yansã e Egunitá.

Incensos: Mirra, sândalo, benjoim, lótus, jasmim, almíscar, madeira, rosas, canela, cravo, laranja.

Pedras: Os Ciganos trabalham com Pedras de cores variadas: violeta, verde, amarelo, vermelho, pedras brancas etc., e que tenham brilho, beleza e transparência. Algumas pedras: Quartzo Branco Leitoso, Esmeralda, Turmalina Verde, Citrino, Pirita, Granada. (Fonte: Angélica Lisanty, “Os Cristais e os Orixás”, Madras Editora.)

Bebidas: Chá preto ou mate com frutas picadas; suco de frutas; leite ou água com mel; chá branco; vinho tinto com mel; licor.

Frutas: Maçã, romã, morango, uvas verdes, pêssego, banana, ameixa, tâmara, damasco, figo maduro, frutas cristalizadas, frutas secas (uva-passa, nozes, avelãs, castanhas, figo seco, damasco seco etc.), laranja, limão.

Flores: Flores do campo; rosas vermelhas, amarelas e cor-de-rosa; violetas; girassol.

Oferenda ritual: Frutas frescas e/ou secas; pães ou farinha de trigo com mel; flores e fitas coloridas; moedas; água com mel incenso; velas. Depositar sobre folhas de eucalipto, alecrim e/ou sálvia. Acender o incenso. Circular com água e mel. Firmar velas: branca, violeta, rosa, azul, amarela, verde e vermelha. Se a oferenda for realizada na natureza, recolher o material depois que as velas queimarem, agradecer e colocar no lixo.


Cozinha Ritualística- Comidas Típicas Ciganas:

1-Arroz da esperança- ●Para restaurar a esperança. ●Ingredientes: duas xícaras de arroz cozido; meia xícara de manteiga derretida; meia xícara de cebola picada; meia xícara de queijo suíço picado; dois ovos batidos; duas xícaras de leite; um maço de espinafre cozido e picado; um maço de brócolis cortado e cozido; uma colher de sal com alho.
●Misturar os ingredientes e assar por uns 20 minutos. Servir com a salada verde de sua preferência.

2- Batatas da felicidade- ●Para quebrar a tristeza. ●Ingredientes: 6 batatas grandes; um quarto de xícara de manteiga; 200 gramas de iogurte; 1 colher de chá de alecrim; 2 colheres de chá de salsinha picada; uma colher de café de sálvia; 1 pitada de sal e uma de pimenta do reino; 1 colher de sopa de manteiga derretida; 1 xícara de salsinha picada para enfeitar. ●Cozinhar as batatas com casca, até ficarem macias. Descascar e fazer um buraco em cada uma delas. Pegar a polpa retirada das batatas e amassar bem, adicionar um quarto de xícara de manteiga e mexer. Juntar o iogurte, o alecrim, a salsinha, a sálvia, o sal e a pimenta, batendo bem, até obter uma mistura cremosa e fofa.  Rechear as batatas e pincelar com a manteiga derretida. Colocar numa assadeira de cerâmica e assar em forno quente por 15 minutos. Salpicar a salsa picadinha.

3- FEIJÃO DA BRUXA - ●Protege contra energias malignas. ●Atenção para o significado de cada ingrediente e forma de preparo. ●Ingredientes: Duas xícaras de feijão (grão que germina e nos vitaliza); 1 cebola pequena ralada; 3 folhas de louro (para visões e boa sorte); meia colher (café) de noz-moscada ralada (atrai a prosperidade); pétalas de rosa fresca (para o amor); 4 colheres de azeite de oliva (energia); 1 colher (chá) de gengibre ralado (para proteção); 2 dentes de alho em fatias finas; um pedacinho de canela (estimulante sexual; traz dinheiro e felicidade); sal a gosto; salsinha picada; água mineral para cozinhar. ●Lavar o feijão e colocá-lo para cozinhar na água com o sal, de preferência num caldeirão de ferro. Reservar. Numa frigideira, juntar o óleo, o alho a cebola e os demais ingredientes e dar uma leve fritada, mexendo com cuidado e utilizando uma colher de pau.  Despejar esses ingredientes no feijão e mexer em sentido horário, pedindo a Deus que te dê aquilo que julgas precisar.

4- Bolo de Especiarias― ●Preparar com o pensamento voltado para Deus, pedindo prosperidade. Usar uma colher de pau para mexer. ● Massa: Um leite condensado; meia xícara (chá) de mel; 1 colher (sopa) de café solúvel; 2 ovos inteiros; 2 xícaras e meia (chá) de farinha de trigo; 1 xícara (chá) de chocolate em pó; 1 pitada de sal; 1 colher (sopa) de fermento em pó; 1 colher (chá) de canela em pó; meia colher (chá) de cravo em pó; meia colher (chá) de noz-moscada em pó; meia xícara (chá) de amêndoas; meia xícara de uva passa branca; meia xícara de ameixa picada; ●Glacê: 2 xícaras (chá) de açúcar de confeiteiro, 2 claras em neve, 1 colher (sopa) de limão ●Preparo: Levar o leite condensado, o mel e o café solúvel ao fogo brando e misturar por uns 5 minutos. Retirar do fogo e mexer até amornar. Bater os ovos e acrescentar à mistura, sempre batendo. Aos poucos, colocar a farinha, o chocolate em pó, o fermento, o sal, a canela e a noz-moscada, misturando até formar uma massa homogênea. Acrescentar as amêndoas, as passas e as ameixas, mexendo devagar com uma colher de pau e pedindo prosperidade. Colocar em assadeira untada e levar ao forno médio. Depois de assado e ainda quente, enfeitar com o glacê.

5-Armianca: Salada de alface e tomate em rodelas, champignon, queijo de cabra, cenoura, beterraba em pedaços e berinjela frita em tiras. Enfeitar com uvas-passas, raminhos de hortelã e pétalas de flores.

6-Assados e Carnes: ●Pernil de carneiro; ●Pernil de leitão; ●Carne de cabrito frita com arroz e brócolis (ou com lentilha ou nozes); ●Roletes de carne bovina ou de frango com pedaços de cebola, tomate e de pimentão verde e amarelo; ●Costela defumada bovina ou suína e bacon, ao molho vermelho de tomate e pimentão, com batatas pequenas cozidas na casca e páprica doce; ●Charutos (rolinhos) feitos em folha de repolho e recheados com lombo ou carne bovina moída, azeitonas, bacon e molho dourado. Também podem ser feitos em folha de uva e recheados com bacalhau.

7-Queijo de cabra cru ou frito.

8- Ponche de Frutas com champanhe e/ou refrigerante. Enfeitar com pétalas de rosas.

9-Torta folhada salgada ou doce.

10-Cozido Manouche: Feito com feijões vermelhos grandes, pedaços de carne e osso de pernil de porco, alho poró em pedaços, salsão com as folhas em pedaços, alhos comuns inteiros, cenouras e batatas cortadas em pedaços grandes, sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto e arroz branco, que deve ser incorporado na última etapa do cozimento.

11-Cozido de arroz, batata, carne e páprica ardida.

12-Pão de Milho.

13-Pão redondo de Farinha de Trigo.

14-Polenta.

15-Grão de bico com linguiça.

16-Pirão de Milho.

17-Arroz com lentilhas, carne seca desfiada e nozes.
18- Pastel cozido, que pode ser doce e recheado com uva; ou salgado e recheado com batata ou queijo de cabra.

19- CHÁ CIGANO― É o chá preto, ou então o mate, com pedaços de frutas e mel. Pode ser servido nas Giras, depois de consagrado. Muito solicitado pelas Entidades Ciganas, como forma de comunhão e para transmitir boas energias. Cada fruta tem um significado e uma função magística:
Maçã = felicidade;
Uva fresca = prosperidade;
Uva passa ou ameixa = progresso;
Morango = amor;
Damasco = sensualidade;
Pêssego = equilíbrio pessoal;
Limão = energia positiva e purificação da alma.
●Preparo: Ferver água e despejar sobre o chá, abafando até que fique morno. Cortar as frutas em pedacinhos, macerar bem e misturar ao chá. Coar e servir.  

FONTES: “Rituais e Mistérios do Povo Cigano"; “Ciganos- Rom- Um Povo sem Fronteiras”,
livros de NELSON PIRES FILHO, Ed. Madras; 2- Sites “Guardiões da Luz” e “Sociedade Espiritualista Mata Virgem”.


LENDAS SOBRE A ORIGEM DOS CIGANOS- Por Edmundo Pellizari

●Uma lenda Cigana antiga diz que o Povo Cigano foi guiado por um rei, no passado, e que se instalaram numa cidade da Índia chamada Sind, onde eram muito felizes. Mas em um conflito, os muçulmanos os expulsaram, destruindo toda a cidade. Desde então foram obrigados a vagar de uma nação a outra.

●Outra lenda diz que existia um povo que vivia nas profundezas da terra, com a obrigação de estar na escuridão, sem conhecer a liberdade e a beleza. Um dia, alguém resolveu sair e subir às alturas, descobrindo o mundo da luz e suas belezas.
Feliz, festejou, mas ao mesmo tempo ficou atormentado e preocupado em dar conta de sua lealdade para com seu povoretornou à escuridão e contou o que aconteceu. Foi então reprovado e orientado que lá era o lugar do seu povo e dele também.
Contudo, aquele fato gerou um inconformismo em todos eles e, acreditando merecerem a luz e viver bem, foram aos pés de Deus e pediram a subida ao mundo dos livres, da beleza e da natureza.
Deus concedeu e concordou com o pedido, determinando então que poderiam subir à luz e viver com toda liberdade, mas não possuiriam terra e nem poder. Em troca, concedeu-lhes o Dom da adivinhação, para que pudessem ver o futuro das pessoas e aconselhá-las para o bem.

●Segundo outra lenda, narrada pelo poeta persa Firdausi, no século V d.C., um rei persa mandou vir da Índia dez mil Luros, nome atribuído aos Ciganos, para entreter o seu povo com música. É provável que a corrente migratória tenha passado na Pérsia, mas em data mais recente, entre os séculos IX e X. Vários grupos penetraram no Ocidente, seja pelo Egito, seja pela via dos peregrinos, isto é, Creta e o Peloponeso. O caráter misterioso dos Ciganos deixou uma profunda impressão na sociedade medieval. Mas a curiosidade se transformou em hostilidade, devido aos hábitos de vida muito diferentes daqueles que tinham as populações sedentárias.


BREVE APANHADO DA HISTÓRIA DOS CIGANOS

FONTES: 1-“Introdução à História dos Ciganos”, da Historiadora e Educadora Denize Carolina Auricchio Alvarenga da Silva; 2- “Os Ciganos”, site da “Vida Simples”, Editora Abril Cultural.

Introdução- Hoje, a maioria dos estudiosos concorda em que os Ciganos são originários do noroeste da Índia. Seu idioma é o romanês, que tem semelhanças com línguas indianas como o sânscrito, o prácrito e o punjabi.  A sina de povo errante teria começado quando eles foram expulsos da terra natal por invasores muçulmanos, por volta do século 10.

Depois de passar pela Pérsia (atual Irã), chegaram à Europa Ocidental, no início do século 15. Viajavam em grupos de dezenas até várias centenas de pessoas, conforme explica o antropólogo holandês Frans Moonen, coordenador do Núcleo de Estudos Ciganos, com sede no Recife.

Em razão de suas práticas ligadas ao sobrenatural, como leitura das mãos e cartomancia, foram brutalmente perseguidos pela Igreja Católica. Em todo o continente, com raras exceções, foram rejeitados e maltratados.

Chegaram ao Brasil por volta de 1680, deportados de Portugal, segundo Frans Moonen, e trazidos pela corte de D. João VI para divertir a comitiva, sendo cantores, músicos e dançarinos.

Embora não existam estatísticas relacionadas ao número de Ciganos no país, acredita-se que os mais numerosos pertençam ao grupo Kaldrache, um ramo dos Kalon (também conhecidos como Gitanos), que viviam em Portugal e na Espanha.

A história dos Ciganos não é contada por registros próprios (documentos etc.), mas a partir do seu contato com outras sociedades. Os interessados na reconstrução de sua história usaram, principalmente, acervos de arquivos oficiais de locais por onde eles passaram; e alguns se utilizaram do contato no cotidiano e da tradição oral.

 
Principais Hipóteses sobre as Origens dos Ciganos- Para uns, os Ciganos seriam indianospara outros, egípcios.

Outras hipótesesa de terem   vindo de algum outro lugar da Ásia (Tartária, Silícia, Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso, Fenícia ou Assíria); a de que seriam europeus de regiões afastadas da Hungria, Turquia, Grécia, Alemanha, Bohemia ou Espanha (misto de Mouros e Judeus); a de que eram africanos de outras regiões ( que não o Egito), como a Tunísia.

Após muitas pesquisas, apenas duas hipóteses continuaram sendo examinadas pelos Ciganólogos: a origem egípcia e a indiana.

Ao longo de suas andanças seculares, os Ciganos incorporaram culturas de diversos países, o que dificulta os estudos que tentam reconstruir sua origem e dispersão pelo mundo.

Alguns estudiosos chegaram a recorrer à Bíblia para explicar suas origens como descendentes de Caim: “Sela, de seu lado, deu à luz Tubal Caim, o pai de todos aqueles que trabalham o cobre e o ferro” (Gênesis, capítulo 4, versículo 22).

Aplicou-se também um texto de Ezequiel, capítulo 30, versículo 23: “Dispersarei os egípcios entre as nações, e os disseminarei em diversos países”- já que os Ciganos eram conhecidos como “egípcios”, quando chegaram à Europa.

No século XVIII, linguistas apontaram indícios mais palpáveis da origem indiana, ao comparar o idioma romani com o sânscrito (mais precisamente o hindi, uma de suas derivações). Exemplo: pelo menos na Europa, o Cigano designa a si próprio como “Rom” (Lom, na Armênia; Dom, na Pérsia; Dom ou Dum, Síria) ou então como “Manuche”, palavras que são de origem indiana. “Manuche” ou “manus” deriva do sânscrito e significa "homem livre".

Ainda há divergências entre pesquisadores da Ciganologia, mas os estudos mais recentes apontam para a origem indiana dos Ciganos.

Conta-se que os Ciganos chegaram à Europa dizendo ter vindo do “Pequeno Egito”.

No entanto, pesquisas atuais mostram que eles chegaram à Europa (Espanha) pelo norte, ficando conhecidos como “egípcios”, embora não soubessem informar onde ficava o “Pequeno Egito”.

Não há elementos de certeza para se responder por qual motivo o local era chamado de “Pequeno Egito”. Sabe-se, porém, que não se trata do Egito africano, já que o itinerário das primeiras migrações Ciganas não passa pela África do Norte; logo, não era possível terem vindo do Egito.

E se tivessem saído do Egito em direção à Europa, percorrendo a costa africana, chegariam à Península Ibérica pelo sul (e não pelo norte, como chegaram). Inclusive, o Geógrafo Bellon, ao visitar o vale do Nilo, no século XVI, encontrou pessoas designadas de “Egypicios” na Europa, mas que no próprio Egito eram consideradas estrangeiras e recém-chegadas.

A denominação de “egípcios” pode ter surgido da maneira dos europeus tentarem interpretá-los com base no texto de Ezequiel que fala da dispersão dos egípcios. Outra evidência de que não vieram mesmo do Egito é o fato de que não há elementos egípcios no seu idioma.

A partir da língua, do tipo físico e de algumas crenças religiosas dos Ciganos, delineia-se uma trilha geográfica que permite localizá-los na Índia. Mas a região exata ainda não está definida. Acredita-se que teriam vindo de Sind, Punjab ou de outro ponto.

Estudos sobre suas características físicas, bem como relatos sobre os caracteres dos Ciganos revelam que suas principais semelhanças com os hindus são o rosto comprido e estreito, cabelos e olhos negros, pele bronzeada, nariz um pouco agudo, boca pequena, estatura de regular a alta, corpo robusto e algo que, apesar de não ser físico, era notável: a agilidade.


A Dispersão - Uma História de Perseguição e Sofrimento- Depois de atravessarem a Pérsia (atual República do Irã, Oriente Médio), os Ciganos viveram durante séculos no Império Bizantino, que compreendia vasta região: Cartago e áreas do atual Marrocos; Sul da Península Ibérica; Sul da França, Itália e suas ilhas; a Península dos Bálcãs; Anatólia; Egito; Oriente Próximo; e a Criméia, no Mar Negro.

Nos primeiros anos do século XIV, os Ciganos foram para o Norte e alcançaram os Bálcãs, região Sudeste da Europa, que engloba: Albânia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Grécia, República da Macedônia, Montenegro, Sérvia, o atual Kosovo, parte da Turquia no continente europeu (Trácia), Croácia, Romênia e Eslovênia.

Depois de uns cem anos, já estavam espalhados por toda a Europa. E eles surgem na Europa justamente numa época de perturbações sociais e de intenso movimento nas estradas. A sua natureza errante ou nômade e o seu caráter misterioso transformaram a curiosidade inicial dos europeus em hostilidade. Eles foram considerados inimigos da Igreja, que condenava suas práticas sobrenaturais, como a cartomancia e a leitura das mãos.

A partir do século XV, os Ciganos migraram também para a Europa Ocidental. Geralmente se afirmavam originários do “Pequeno Egito”; e foram denominados de “egípcios”, “egitano” e “gipsy”, entre outros.

Alguns grupos se apresentavam como gregos e atsinganos; ficando conhecidos como “grecianos” (na Espanha), “ciganos” (em Portugal) e “zíngaros” (na Itália).

Na Holanda, a partir do século XVI, são denominados de “heiden”, que significa pagão.

Na França também foram chamados de “tsiganes”, “manouches”, “romaniche” e “boémiens”.
Distribuíram-se, enfim, por várias zonas da Europa.

Grandes grupos de Ciganos vindos dos Pirineus chegam à Espanha, banidos dos países por onde já haviam passado.

Na Espanha, um Decreto de 1449 ordena o desterro de todos os que não tinham ofício reconhecido (século XV). Nos séculos XVI e XVII eles são perseguidos e torturados para confessarem “seus crimes”. Em 1663, Felipe IV os proíbe de se reunirem, de usarem seu idioma, suas roupas e danças. O objetivo era a sua desculturalização e desintegração como grupo. Já em 1783, sob o reinado de Carlos II, fez-se uma política mais favorável e foram considerados “neocastelhanos”. Depois, ainda no século XVIII, tiveram um período de paz durante o reinado de Carlos III, que os utilizou nas artes. Mas governos posteriores derramaram contra eles perseguições, tirando seus empregos e privilégios.

Muitos emigraram para Portugal; e mais tarde pereceram nas fogueiras da Inquisição de D. João II, que promulgou leis de punição contra eles. Posteriormente, Portugal deportou muitos Ciganos para as suas colônias, que eram a África e o Brasil. 

Documentos atestam que os Ciganos chegaram à Inglaterra no século XV, por volta de 1430, e logo se espalharam pelas Ilhas Britânicas, País de Gales, Irlanda e Escócia, onde também foram perseguidos. Em 1563 as autoridades ordenam que abandonem o país em três meses, sob pena de morte. Acreditando que os Ciganos vinham do Egito, os ingleses os chamaram de "gypsies".

Devido ao tom escuro da sua pele, nas terras aonde chegavam eram vistos pelos “gadje” (estrangeiros, em romani) como “malditos” ou “enviados do demônio”.

Onde permaneciam e lhes era permitido, os Ciganos trabalhavam como menestréis, marceneiros, ferreiros, artistas e damas de companhia.

O fato de praticarem a quiromancia e a adivinhação foi um argumento usado pela Igreja Católica e pelas diferentes religiões cristãs da época para repudiá-los.  Esses preconceitos e hostilidades geraram diversos tipos de perseguições.

Na Europa, a perseguição aos Ciganos não se fez esperar: através da Inquisição, o Estado desencadeou seus mecanismos de perseguição. Os Ciganos foram proibidos de usar seus trajes típicos, cujas cores berrantes e gosto extravagante fugiam à norma social; não podiam falar sua língua, viajar, nem exercer seus ofícios tradicionais. Foram até proibidos de se casarem com pessoas do mesmo grupo étnico e, com isso, os traços fisionômicos dos Ciganos se alteraram, não sendo hoje difícil encontrar Ciganos de olhos claros e cabelo louro.

Em alguns países, foram reduzidos à escravidão.

Na Romênia, os escravos Ciganos só foram libertados em meados do séc. XIX.

Na Hungria e na Transilvânia, eram escravizados sob as acusações de roubo, antropofagia e outras violações da lei, e muitos foram esquartejados ou enterrados vivos em pântanos da região.

Na Boêmia, eles tinham a orelha esquerda cortada, se por lá aparecessem, e também foram acusados de canibalismo.

Na Sérvia, também foram mantidos escravos até meados do século XIX e “caçados” com muita crueldade. Deportações, torturas e matanças ocorreram em vários pontos desse país.

Durante o nazismo comandado por Hitler, acredita-se que cerca de meio milhão de Ciganos foram assassinados. Nessa época, suas mulheres foram esterilizadas, seus filhos eram brutalmente retirados das famílias e entregues a famílias não-ciganas, seus cavalos foram mortos a tiros. Os seus nomes foram alterados, para fugir à perseguição nazista; daí que não seja invulgar encontrar Ciganos com nomes dos “gadje” (estrangeiros).

No final do século XIX houve uma terceira migração de Ciganos do Leste Europeu para os EUA. Num mundo onde tudo muda a uma velocidade alucinante, o destino previsto para estes Ciganos é, por vezes, um tanto sombrio.

Após a Segunda Guerra Mundial, muitos Ciganos das áreas rurais da Eslováquia foram forçados pelos governos a trabalhar nas fábricas da Morávia e da Boêmia, as regiões centrais mais industrializadas. Porém, em 1989, com a Revolução de Veludo e o fim do comunismo no país, os Ciganos foram os primeiros a perder os seus empregos.

Existe uma pequena e assimilada elite intelectual Cigana, mas a maioria dos Ciganos da Europa Central ainda vive em condições precárias, nas grandes cidades. Por conta de perspectivas econômicas desfavoráveis, de um surto de ataques neonazistas e do fascínio que a aparente prosperidade ocidental exerce, milhares de Ciganos emigram para países ocidentais, onde muitos trabalham ilegalmente, pedem esmola ou buscam asilo político.

Estima-se hoje que existam 10 milhões de Ciganos, dos quais 60% vivem na Europa Oriental. A Romênia, com 2,5 milhões, abriga a maior concentração mundial.

Mesmo possuindo uma só origem, o Povo Cigano, durante perseguições e injustiças ao longo dos séculos, tentou conservar sua cultura e tradição inalteradas. Prova disto é o romanês, o idioma universal Cigano falado pelos Clãs em todo o mundo.

Atualmente, dentre dezenas de grupos Ciganos, predominam os seguintes:
1-Grupo Kalon – Falam o calon e são originários do Egito. Durante séculos, situaram-se na Península Ibérica (Portugal e Espanha) e se espalharam por outros países, inclusive da América do Sul, na condição de deportados ou de migrantes. Em algumas situações, tiveram que ocultar sua origem, criando um dialeto próprio, extraído da língua regional. O nomadismo é maior entre esse grupo.

2-Os Rom (ou Roma)― Falam a língua romani e se dividem em vários subgrupos com denominações próprias, como os Matchuaia (originários da Iugoslávia), os Lovara e Churara (da Turquia), os Moldovano (originários da Rússia), os Kalderash (originários da Romênia), os Marcovitch (da Sérvia).

3-Os Sinti ―Falam a língua sintó e são mais encontrados na Alemanha, Itália e França, onde também são chamados Manouche. Fazem parte desta divisão as Famílias Valshtiké, Estrekárja e Aachkane, todas francesas.
Os Ciganos, ao contrário dos Judeus, nunca demonstraram desejo de ter o seu próprio país. Nas palavras de Ronald Lee, escritor Cigano nascido no Canadá, "a pátria dos Roma é onde estão os meus pés".


Conclusão- Por toda a sua história de superação, pela sua extraordinária bagagem espiritual e cultural, damos graças a Deus pelo fato de a Umbanda ser uma religião que acolheu os Espíritos Ciganos, que são nossos conselheiros e orientadores, muito sábios, e amigos fiéis, sempre que os solicitamos com respeito e devoção.

SALVE OS CIGANOS!

SALVE A RODA E A FORTUNA!

Fonte: http://www.seteporteiras.org.br/guias-espirituais/ciganos.html
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