quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O Amor não existe mais?


por João Carvalho Neto -joaoneto@joaocarvalho.com.br
Dizem que o amor não existe mais - é o que eu escuto com alguma frequência de pessoas deitadas no divã do meu consultório, falando sobre suas decepções amorosas, sobre a falta que sentem de retorno afetivo para as necessidades de sua carência interior. Ouvi isto por muitas vezes, sem ter parado para refletir sobre a complexidade que pode estar envolvendo esta questão.
A princípio, minha tendência era sempre a de pensar que estas queixas vinham de pessoas excessivamente carentes, pessoas que tendem a cobrar demasiada atenção de seus parceiros, que esperam um amor apaixonado que nunca se modifique. Claro que estas pessoas existem... e não são poucas. Mas comecei a perceber que talvez a explicação dessa queixa não residisse apenas em suas predisposições psicológicas, a darem uma interpretação pessoal e lastimosa aos fatos. Diante de uma paciente que se lamentava sobre o comportamento mais distante do marido, tive um insight e percebi que talvez ele realmente não a amasse; contudo, não de todo, mas como ela esperava que fosse.

Vivemos tempos de uma profunda transição, que se opera em todos os níveis da existência humana. Tempos em que a vida nos coloca em um constante exercício de adaptações às novas formas de lidar com a realidade ao redor, mas também com nossas emoções.
Na verdade, todas as mudanças que vêm ocorrendo, no campo do social, da cultura, da política, da economia, dos hábitos, da ética nada mais são do que o reflexo de uma mudança básica que se opera na consciência humana. Não é mundo que está mudando, mas os seres humanos que formam e dão sentido a este mundo que estão mudando. E com os relacionamentos, especialmente com o amor, não seria diferente.

Quando Sigmund Freud estabeleceu as bases da proposta psicanalítica, estudando a sexualidade humana desde a mais tenra idade, percebeu que os desejos reprimidos que os filhos nutriam pelos pais estabeleciam construções que poderiam se tornar neuróticas nessas crianças, com fortes possibilidades a se transferirem para os relacionamentos futuros quando adultos.
Um pai e uma mãe são as primeiras pessoas que aprendemos a amar e, sobre elas, criamos modelos que tendemos a repetir, principalmente, nos encontros conjugais. A forma como esses modelos se estabeleceram, com seus conflitos ou resoluções satisfatórias, irão marcar indelevelmente a percepção afetiva que fazemos do outro.
Por isso, costumamos transferir para nossos parceiros afetivos nossas carências, dominações, recriminações, cobranças que tivemos com nossos pais, mas que ficaram reprimidas a nível do inconsciente por conta da culpa de desejos possivelmente condenáveis -pela cultura religiosa e social- que tivemos por eles.

Freud percebeu este contexto de construção psicológica dentro da sociedade européia do início do século XX, que emergia de sentimentos profundos de culpa, até mesmo patológicos, devido ao longo período de dominação de uma religião construída sob o domínio do medo de castigos e condenações.
Cem anos depois, temos inquestionavelmente um novo cenário. As liberdades são outras, a força da coação religiosa diminui, e a probabilidade de construções neuróticas nos modelos que Freud observou tem mudado. Os filhos amam seus pais mais livremente, falam sobre sexualidade com abertura, compreendendo, aceitando e lidando melhor com seus desejos sem recriminações neurotizantes. Além disso, as necessidades de inserção no mercado de trabalho, para organizar melhor as despesas do lar, aumentaram, fazendo com que os pais -especialmente agora as mães- passem mais tempo fora de casa do que antes.

Dessa forma, os modelos de relacionamento entre filhos e pais são mais livres, menos dependentes, com mais autonomia afetiva, o que não significa descaso ou desprezo, mas mais independência para todos vivenciarem seus projetos de vida sem que isso caracterize falta de amor ou de compromisso afetivo.
Muitos dos jovens casais de hoje são herdeiros dessa cultura familiar que, curiosamente, baseia-se em mais autonomia, mas também em melhores relações, já que as cobranças e expectativas neuróticas transferenciais estão deixando de existir.
Se ambas as partes concebem a vida dessa forma será muito bom, e a convivência tenderá a ser harmônica e baseada no diálogo. Entretanto, como estamos em tempos de transição, aquilo que se apresenta como o novo se mistura com as tendências ainda arraigadas que insistem em persistir.

Muitas vezes ainda encontramos casais onde um dos parceiros já avançou para estas concepções mas o outro traz modelos demasiadamente possessivos de relacionamento. Para esses, o outro, mais autônomo afetivamente, parecerá distante e incapaz de amá-lo como gostaria que fosse.
Então, parece-me que não é o amor que não existe mais, mas o amor vem passando por um processo de amadurecimento nas pessoas, apresentando características mais saudáveis, pela melhor preservação das individualidades e com menos apegos neurotizados, o que desagrada os que esperam desses amores completarem seu vazio interior.
Para estas pessoas, dizer que o amor não existe pode ser mais fácil do que assumirem suas necessidades de transformação pessoal.

João Carvalho Neto
Psicanalista, autor dos livros "Psicanálise da alma" e "Casos de um divã transpessoal"
www.joaocarvalho.com.br


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