sábado, 11 de maio de 2013

Awen: alguns pensamentos...


por Wallace William "Kunvelin"

Retirado das apostilas de treinamento Bárdico e Druídico do Ramo de Carvalho e com a permissão do próprio Wallace.

O que é Awen? Há muitas definições. Os dicionários de galês definem palavra como significando “a Musa”. Algumas etimologias duvidosas sugerem um significado de “espírito fluente”. Dentro da interpretação geral, é vista como “inspiração poética” ou “inspiração divina”. Em suma, o Awen é aquilo que flui na mente na cabeça dos Bardos célticos, a sua inspiração que os leva a compor seus versos eu logísticos os seus louvores aos deuses, as suas lembranças de outras formas e vidas, sua feitiçaria. É o fogo que queima na cabeça de Amhairgen, Taliesin, Merlin e outros. O Bardo e o Druida estão buscando constantemente o Awen como forma de encontrar suas respostas no mundo.
E onde está o Awen? O que inspira ao Bardo, o que inspira ao Druida? Antes de mais nada, o mundo. Mas não o mundo comum, visto pelos olhos comuns, mas sim o mundo como ele é. O Bardo e o Druida tenta ver além dos olhos, pois essa é a essência do que é o Outro Mundo: o nosso mundo visto de outra forma. Na Irlanda, há uma palavra em irlandês antigo, ai, que nasce da mesma raiz e também significa inspiração. O Awen pode ser oriundo de muitas fontes: em um texto Galês, Ceriddwen é chamada “A Senhora do Awen”, e à Ela pode ser pedido pela benção do Awen, do ver além dos olhos comuns. Na tradição gaélica, Brighid é a senhora da inspiração poética, além de Oghma ser um dos senhores da profecia também. Mas a fonte do Awen pode ser o próprio mundo: se o espírito de uma árvore lhe fala, você saberá que está sendo inspirado por ele. Claro, é mais comum que isso ocorra com árvores antigas e imponentes, mas uma das bases do pensamento animista
é que toda a forma de vida possuí espírito, e enquanto você não ver além de suas qualidades externas, você não a entenderá. Mais que isso, não apenas árvores, mas lugares com uma forte carga espiritual podem ser inspiradores e trazerem o Awen. Pessoas que falem ao seus espírito também são fontes de inspiração.
E como sabemos que o Awen está presente entre nós? Quando as palavras fluem de forma natural. Quando estamos pensando firmemente em questões como métrica, no uso das palavras, não estamos agindo de forma inspirada. Estamos agindo de forma estudada. O Awen é fluente, é a fagulha que queima naquele instante na mente, e leva à inspiração. A inspiração pode ser expressa como poesia, como uma resposta a uma dúvida, como um “insight”, ou apenas como uma manifestação de um momento de comunhão entre o Bardo e o Druida com o mundo. É a arte feita com o espírito. O Bardo/Druida em busca do Awen passa sempre por uma experiência de Renascimento, que pode ser realizada através de meditação, e que é normalmente simbolizada através da lenda do jovem Gwion que renasce como Taliesin através do próprio renascimento pela deusa Ceriddwen, a “Senhora do Awen”.

O que é a linguagem inspirada pelo Awen? É a linguagem que expressa a unidade, na visão do poeta, entre todas as coisas. Tudo se torna relativo, inclusive o tempo, onde o falante vê a sua passagem por muitas formas, e a ligação entre tudo. A dicotomia entre homem e animal desaparece, pois as características animais (por vezes, mesmo vegetais ou minerais) podem ser vistas tanto como qualidades quanto como defeitos. As passagens entre essa vida e a outra vão perdendo a importância, pois todas são vistas como parte de um todo
cíclico. Se ela é manifesta na forma de poesia, ela tem um valor espiritual para todos, e pode ser inclusive mágica. A poesia é um dos eixos centrais da cultura céltica. O conhecimento dos Druidas da Gália era passado de mestre a discípulo através de poemas que eram cantados. A magia dos Celtas era expressa através da poesia. Seus deuses da comunicação e das artes estavam entre os mais valorizados. E a poesia inspirada pelo Awen é a representação maior daquilo que os gregos nos disseram sobre as crenças dos celtas: a de que eles seguiam uma doutrina filosófica “pitagórica”. A poesia do Awen, ao representar a unidade entre as coisas, mostra a ideia da possibilidade da transmigração do espírito (metempsicose), de assumir as características que nos são reveladas pela natureza (xamanismo), e do abandono do Ego, a partir do entendimento da relação entre todas as coisas. A poesia do Awen normalmente segue regras métricas, e elas serão estudadas, mas a inspiração está acima delas. Com o tempo, as regras e a inspiração se mesclarão, assim como a Tribo deve se mesclar com a Terra, sob o ensinamento do Druida e o louvor do Bardo, em comunhão.

Um comentário:

  1. " A dicotomia entre homem e animal desaparece, pois as características animais (por vezes, mesmo vegetais ou minerais) podem ser vistas tanto como qualidades quanto como defeitos. As passagens entre essa vida e a outra vão perdendo a importância, pois todas são vistas como parte de um todo cíclico. "

    ... por esta parte, digo, com espanto, porque eu entendo meus gatos, mais do que os seres humanos! :D

    "mimimi" ótimo texto. ...Ele é o que é, como se um pai, precisasse amar seu filho... ¬_¬... Já ama desde que nasce! :D

    Talvez eu precise voltar ao Homem, para mim, o Awen vive nos Animais, nos comportamentos animalescos. E os homens, que vivem de regras, eu aprendo tais regras com os animais:

    Se calar, e sofrer sozinho.

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