terça-feira, 23 de julho de 2013

O Culto à Deusa



Um dos aspectos mais interessantes do culto pré-histórico à Deusa é o que o historiador religioso e mitólogo Joseph Campbell denomina seu "sincretismo". Em essência, isto significa que o culto à Deusa era ao mesmo tempo monoteísta e politeísta. Era politeísta por ser a Deusa adorada sob nomes e formas diferentes. Mas era também monoteísta – pois podemos falar corretamente em fé na Deusa, da mesma forma como falamos em fé em Deus como uma entidade transcendente. Em outras palavras, há notáveis semelhanças entre os símbolos e imagens associados em vários locais ao culto à Deusa em seus vários aspectos de mãe, ancestral ou criadora, e virgem ou donzela.

Uma possível explicação para esta notável unidade religiosa poderia residir no fato de, ao que parece, a Deusa ter sido originalmente cultuada em todas as antigas sociedades agrícolas. Encontramos evidências de deificação da fêmea — a qual em sua característica biológica dá à luz e proporciona nutrição, assim como a terra — nos três principais centros de onde se originaram a agricultura: Ásia Menor e sudeste da Europa, Tailândia a sudeste da Ásia e posteriormente também na América Central. muitas das primeiras histórias da criação conhecidas nos mais diferentes pontos do
mundo, encontramos a Deusa-Mãe como fonte de toda a existência. Nas Américas, ela é a Senhora da Saia de Serpentes – de interesse também porque, assim como na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, a serpente é uma das suas manifestações mais básicas. Na antiga Mesopotâmia este mesmo conceito do universo é encontrado na idéia da "montanha do mundo" como o corpo da Deusa-Mãe do universo, idéia esta que sobreviveu através de períodos históricos. E como Nammu, a Deusa suméria que concebeu o céu e a terra, seu nome é expresso em um texto cuneiforme de cerca de 2000 a.C. (hoje no Louvre) por um ideograma simbolizando o mar. A associação do princípio feminino às águas também primordiais é um tema onipresente. Por exemplo, na cerâmica decorada da antiga Europa, o simbolismo da água – muitas vezes em associação ao ovo primordial — é um motivo freqüente. Aqui a Grande Deusa, de quando em vez na forma de Deusa-pássaro ou serpente, governa a força proporcionadora de vida da água. Tanto na Europa quanto em Anatólia, motivos de chuva e fornecimento de leite se misturam, e recipientes e vasos de rituais são equipamento comum em seus santuários. Sua imagem associa-se também aos recipientes para água, os quais às vezes se apresentam em sua forma antropomórfica. Como a deusa egípcia Nut, ela é a unidade harmoniosa das águas celestes primordiais.

Posteriormente, como a deusa Ariadne (a Mui Sagrada Deusa), de Creta, e a deusa grega Afrodite,ela surge do mar.14 De fato, esta imagem ainda é tão poderosa na Europa cristã que chegou a inspirar a famosa Vênus de Botticelli erguendo-se do mar.
Embora raramente estes fatos sejam incluídos no que aprendemos sobre nossa evolução cultural, muito do que surgiu nos milênios de história neolítica ainda se encontra hoje entre nós. Como escreveu Mellaart, "ela formou a base sobre a qual todas as culturas e civilizações posteriores se formaram".15 Ou como expõe Gimbutas, mesmo após a destruição do mundo que representavam, as imagens míticas de nossos antepassados neolíticos adoradores da Deusa "permaneceram na essência que nutriu o desenvolvimento posterior da cultura européia", enriquecendo em muito a psique desse continente. De fato, se analisarmos com atenção a arte neolítica, é verdadeiramente surpreendente quanto deste imaginário da Deusa sobreviveu -e não terem essas obras comuns da história da religião ressaltado este fato fascinante. Assim como a Deusa neolítica grávida era descendente direta das "Vênus" paleolíticas de ventres protuberantes, esta mesma imagem sobrevive na Maria grávida da iconografia cristã medieval. A imagem neolítica da jovem Deusa ou Virgem ainda é adorada no aspecto de Maria como a Virgem Santa. E naturalmente a figura neolítica da Deusa- Mãe levando seu filho divino nos braços ainda é dramaticamente mostrada em toda parte como a Madona cristã e seu filho. Imagens tradicionalmente associadas à Deusa, tais como as do touro e do bucrânio, ou chifres de touro como símbolos do poder da natureza, também sobreviveram nos períodos clássico e posteriormente cristão. Apossaram-se do touro como um símbolo central da mitologia patriarcal "pagã" que surgiu posteriormente. Mais tarde ainda, o Deus com chifres de touro foi convertido na iconografia cristã de símbolo de poder masculino a símbolo de Satã ou do demônio. Mas, no período neolítico, os chifres de touro que hoje associamos rotineiramente ao demônio possuíam significado diferente. Imagens de chifres de touro foram encontradas em escavações de casas e
santuários em Çatal Hüyük, onde por vezes chifres de consagração formavam filas ou altares sob representações da Deusa. E o próprio touro ainda é aqui uma manifestação do poder máximo da Deusa. Ele é um símbolo do princípio masculino, mas, como todo o resto, descende de um útero divino provedor – como representado graficamente em um santuário em Çatal Hüyük onde a Deusa é mostrada dando à luz um jovem touro. Mesmo o imaginário neolítico da Deusa em duas formas simultâneas - tais como as deusas gêmeas encontradas em Çatal Hüyük – sobreviveu a tempos históricos, como nas imagens clássicas de Ceres e Perséfone representando dois aspectos da Deusa: Mãe e Virgem, como símbolos da regeneração cíclica da natureza.18 Realmente, os filhos da Deusa são todos ligados aos temas do nascimento, morte e ressurreição. Sua filha sobreviveu no período grego como
Perséfone, ou Core. E seu filho-amante/marido, da mesma maneira, sobreviveu aos tempos históricos sob nomes tão diversos quanto Adônis, Tammutz, Átis – e por fim Jesus Cristo.

Esta aparentemente notável continuidade de simbolismo religioso toma-se mais
compreensível se considerarmos que tanto no neolítico-calcolítico da Europa antiga quanto na posterior civilização da idade do bronze minóica-micênica a religião da Grande Deusa parece ter sido a única característica importante e manifesta da vida. No sítio de Çatal Hüyük, em Anatólia, o culto à Deusa parece permear todos os aspectos da vida. Por exemplo, dos 139 compartimentos escavados entre 1961 e 1963, mais de quarenta parecem ter servido como santuários.
Este mesmo modelo prevalece na Europa neolítica e calcolítica. Além de todos os
santuários dedicados a vários aspectos da Deusa, as casas possuíam recantos sagrados com fomos, altares (bancos) e locais de oferenda. E o mesmo se aplica à civilização posterior de Creta, onde, como escreve Gimbutas, "santuários de um tipo ou outro são tão numerosos que há motivo para crer que não apenas todo palácio mas toda casa particular tinha tal uso. (...) A julgar pela freqüência de santuários, chifres de consagração e o símbolo do machado de dois gumes, todo o
palácio de Cnossos devia assemelhar-se a um santuário. Para onde quer que nos voltemos, pilares e símbolos fazem lembrar a presença da Grande Deusa". Dizer que o povo adorador da Deusa era profundamente religioso seria eufemismo. Pois
ali não havia distinção entre o secular e o sagrado. Como apontam os historiadores religiosos, na pré-história e, em grande parte, nos tempos históricos, a religião era vida, e vida era religião.

Um motivo por que esta questão é pouco conhecida é o fato de no passado os estudiosos se referirem rotineiramente ao culto à Deusa não como religião, mas como um "culto à fertilidade", e a Deusa como uma "mãe-terra". Contudo, embora a fecundidade das mulheres e da terra fosse, e ainda seja, um requisito para a sobrevivência das espécies, esta caracterização é muito simplista. Seria comparável, por exemplo, a caracterizar o cristianismo apenas como um culto à morte porque a imagem central em sua arte é a Crucificação.

Trecho extraído do Livro, O Cálice e a Espada de Riane Eisler.
Capítulo 02 - Mensagens do Passado: O MUNDO DA DEUSA

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