domingo, 20 de julho de 2014

PRÁTICAS DAS BRUXAS


As pessoas que se sentiram atraídas pelo culto das bruxas pertenciam principalmente às classes intelectuais, compreendendo artesãos, soldados, mercadores, médicos, marinheiros, fazendeiros e caixeiros. Todos eram pessoas que queriam aventura, os “jovens brilhantes” da época, combinados, é claro, com aqueles que sempre se unem a algo secreto ou estranho ou religioso na esperança de alívio; ou seja, pessoas com algum tipo de desajuste sexual. Havia, claro, as sábias da aldeia com suas curas e maldições, e os moradores dos castelos e grandes casas. Não que essas pessoas “pertencessem” – elas dizem “pertencer”, nunca dizendo a quê -, mas eram as classes do povo que mais assistiam aos sabás dos homens das matas; pelo menos alguns deles eram iniciados nos mistérios.
A perseguição foi dirigida primeiro contra os gentios, depois contra os pagãos e então se voltou para seus associados nas cidades maiores e aldeias. Eram fáceis de reconhecer, por serem principalmente pessoas que estavam melhor que seus vizinhos, comendo melhor e levando vidas mais razoáveis. Se bebessem e batessem nas esposas, estavam livres de suspeita. Quem quer que levasse o que se chama de uma vida razoável, e, além disso, fosse inteligente, era suspeito e o grito de comando era: “Matem-nos a todos; o Senhor conhecerá o que é Dele”. Mas o problema em matar todas as pessoas inteligentes era a perda para a comunidade. Assim, o massacre foi interrompido no fim; mas a maioria dos membros do culto já estava morta e apenas uns poucos haviam sobrado para levá-lo adiante. Eram principalmente os associados que haviam sido iniciados. Em vez dos grandes sabás com cerca de mil ou mais espectadores, aconteciam pequenos encontros em casas particulares, com provavelmente uma dúzia de pessoas, de acordo com o tamanho do quarto. Sendo os números pequenos, eles não eram mais capazes de adquirir poder, de aumentar o estado hiperestático por meio de centenas de dançarinos fogosos sacudindo-se selvagemente; eles tinham que usar outros métodos secretos para induzir a esse estado. Isso era fácil para os descendentes dos homens da floresta, mas não para as pessoas de raça não-céltica. Algum conhecimento e poder sobreviveu, uma vez que muitas das famílias casaram-se entre si, e depois de algum tempo seus poderes cresceram e, aqui e ali, o culto sobreviveu. O fato de serem felizes deu lhes uma razão para lutar. É de fato dessas pessoas que as bruxas sobreviventes provavelmente descendem. Elas sabem que seus pais e avós pertenceram, e contaram a eles de encontros na época de Waterloo, quando era tido como um velho culto, embora tendo existido em todos os tempos. Apesar de a perseguição ter esmorecido, elas perceberam que sua única chance de ser deixadas em paz era permanecer desconhecidas, e isso é tão verdadeiro hoje como era há quinhentos anos. A grande questão que as pessoas fazem é: “Como você sabe que o culto é antigo?”
Seria fácil responder se eu tivesse permissão de publicar os ritos na íntegra. Mas tenho familiaridade com diversas formas de ritual, incluindo a magia cabalística, e todas têm certas coisas em comum e trabalham invocando um espírito ou inteligência e comandando-o à sua vontade. Todos os membros ficavam em um círculo para proteção e eram prevenidos de que se deixassem o círculo antes que o espírito se despedisse eles seriam amaldiçoados. Uma variação é trabalhar num cemitério e tentar levantar um cadáver para tirar informações dele. Há outra escola que acredita que todas as cerimônias mágicas deveriam consistir em um ato junto com um feitiço rítmico. Ou seja, você deve mostrar aos Poderes o que fazer e então amarra-los com um ritmo. Se alguém nos últimos duzentos anos tivesse tentado fazer um rito, teria usado um desses métodos ou algum parecido. O método das bruxas inglesas é totalmente diferente. Elas acreditam que o poder está dentro delas e exsuda de seus corpos. Ele se dissiparia se não fosse pelo círculo, traçado, como já se disse, para manter o poder dentro dele, e não, como os magos usualmente fazem, para manter os espíritos fora. Uma bruxa pode e se move livremente para dentro e para fora do círculo como quer.
O único homem que conheço que pode ter inventado ritos é o saudoso Aleister Crowley. Quando o encontrei, ele estava mais interessado em ouvir que eu era um membro e disse que ingressara ainda muito jovem, mas que não diria se havia reescrito algo ou não. Mas as práticas das bruxas eram inteiramente diferentes em método de qualquer tipo de magia sobre a qual ele tenha escrito – e ele escreveu sobre muitos tipos. Há, porém, certas expressões e certas palavras utilizadas que batem com as de Crowley; possivelmente ele emprestou coisas dos escritos do culto, ou mais provavelmente outra pessoa emprestou alguma coisa dele. O único outro homem de que me lembro que talvez o tenha feito foi Kipling; mas os escritos do culto são tão estranhos a suas idéias e expressões que tenho certeza de que ele não deveria tê-los escrito, embora imagine, a partir de alguns de seus trabalhos, que ele conhecia algo sobre o assunto. Há muita evidência de que em sua forma presente os ritos desenvolveram-se muito antes que Kipling e Crowley nascessem. As pessoas que certamente teriam tido o conhecimento e a habilidade para inventá-los eram as pessoas que formavam a Ordem da Aurora Dourada há cerce de setenta anos, mas, conhecendo seus fins e objetivos, acho que é a última coisa que eles teriam feito. Hargrave Jennings pode ter um dedo nisso, mas seus escritos são tão intrincados que dificilmente posso acreditar que ele pudesse ter inventado algo tão simples e justo. Avôs e avós contaram a pessoas que ainda vivem sobre encontros, que assistiram há cerca de cento e trinta anos, quando se achava que o culto existira em todos os tempos. Barrat do Magus, por volta de 1800, teria tido a habilidade de inventar ou ressuscitar o culto, mas ele estava mais interessado em magia ritual, que eu penso ter mostrado nos rituais. Sir Francis Dashwood, do Hell Fire Club, é outro que poderia ter posto uma mão, mas ele era um demonista livre-pensador e seria o último homem a começar ou inventar uma nova religião; se ele tivesse feito, teria sido algo nas linhas diabólica ou clássica. Também não penso que ela possa ter sido inventada quando a Inglaterra era governada pelo C.A.B.A.L. (o governo de Clifford, Arlington, Buckingham, Ashley e Lauderdale) e os homens estudados eram todos cabalistas; se eles acreditavam e trabalhavam com linhas cabalistas, não teriam inventado algo assim. É bastante possível que as partes principais do culto tenham sido trazidas da Itália na época da Renascença ou mesmo depois, mas, se o foram, teria sido como um culto de bruxas totalmente desenvolvido, que se juntou então aos encontros de bruxas locais.
Imagino que certas práticas, tais como o uso do círculo para segurar o poder, foram invenções locais, derivadas do uso do círculo druídico ou pré-druídico. Houve uma época em que acreditei que todo o culto descendia diretamente da cultura do Norte Europeu na Idade da Pedra, sem quaisquer outras influências; mas agora penso que foi influenciado pelos mistérios gregos e romanos e que devem ter vindo do Egito. Porém, mesmo sendo fascinante pensar que o culto descende diretamente do antigo Egito, devem-se considerar as outras possibilidades.
Há, é claro, a visão católica romana ortodoxa de que o culto foi inventado pelo Diabo ou por pessoas que odiavam a Igreja católica. Se esse fosse o caso, certamente isso ficaria óbvio nos ritos ou nos ensinamentos; mas todos estes acontecem como se os praticantes jamais tivessem ouvido falar sobre o assunto, o que aponta para uma origem ao menos pré-cristã. Outras pessoas dizem: “Foi um protesto contra a tirania dos nobres e da Igreja”. Se fosse apenas isso, não ficaria evidente, também, nos cultos e ensinamentos? Impostos altos podem induzido um grande número de pessoas a se juntar ao culto em busca de proteção – o que me faz lembrar de uma história da época em que os nativos da Cornualha eram bons pagãos, mas implicavam com a Igreja católica. “Quando eles ouviram falar do protestantismo, organizaram uma grande reunião para decidir qual dos dois aborreceria mais a Igreja, continuar pagãos ou tornar-se protestantes. Decidiram, após muito argumentar, que, como a Igreja não se importava muito por serem pagãos, eles deveriam tornar-se protestantes”. Posso imaginar muito bem que na época do rei John, quando toda a Inglaterra estava sob interdição – quando, como disse o imortal Smith Minor, “o Papa fez uma lei segundo a qual ninguém poderia nascer, casar-se ou morrer, no espaço de dez anos” -, muitos bons cristãos, desprovidos de consolo religioso, poderiam facilmente ter-se voltado para a religião rival. Afinal, o paraíso das bruxas é muito atraente para o homem comum. Causas similares no Continente podem ter levado diversos convertidos para o culto e esses teriam trazido novas idéias. Possivelmente o Grande Deus, o Protetor, o doador de descanso e paz, aos poucos começou a ser visto como o único em sua função de deus da morte e, assim, foi mais ou menos identificado como o Demônio. É difícil saber exatamente o que aconteceu; mas acredito que não seja razoável que um grande influxo de pessoas comuns nos séculos XII, XIII e XIV tenha alterado significativamente as crenças.
A Igreja nunca havia prestado muita atenção à feitiçaria, como se não fosse um rival do calibre da bruxaria; muitos papas e sacerdotes proeminentes eram conhecidos como praticantes. Com a Renascença, o espírito de investigação levou ao livre-pensamento, que por sua vez causou uma volta da magia matemática, da astrologia e da Cabala, de estudos clássicos e do conhecimento dos antigos deuses. A lenda de Fausto foi difundida e circulou a história de que para praticar a magia era preciso vender a alma ao diabo. O tratamento desse tema mais conhecido na literatura inglesa é, obviamente, o Doctor Faustus do “ateu” Marlowe, enquanto que uma longa série de histórias e representações do tema culminou no esplêndido Fausto de Goethe. Era uma crédula e a história foi engolida facilmente: ninguém parece ter considerado se alguém acharia que vale a pena milhões de anos de sofrimento e tortura em troca de alguns anos de prazer. Há exemplos da existência de tais pactos, mas é presumível que eles se baseiam em falsas evidências inventadas para condenar algum pobre coitado ou em atos de livre-pensadores tolos ou loucos. O bispo Wilson relata um caso de Manx em seu diário, datado de Peel, 29 de novembro de 1720, da forma que se segue:
“John Curlitt de Murlough, no distrito de Down, na paróquia de Killough, deu ele mesmo corpo e alma a Satã, o Demônio, que é chamado de Lúcifer, após o termo de nove anos, sob a condição de que ele lhe dê tanto dinheiro durante o período quanto lhe agradasse, um lugar de que ele se compromete a cumprir a troca e promete lutar sob seu estandarte durante o termo citado, que se ele desertar, ele será entregue ao prazer de Satã, e promete ao fim de nove anos ir por si mesmo. Assinado com sangue, selado e entregue ao Demônio. John Curlitt”.
John Curlitt totalmente negou ter escrito isso, dizendo que havia sido forjado contra ele. O bispo afirmava que aquela era sua caligrafia e evidentemente acreditava nisso, mas, curiosamente, não parece ter movido nenhuma ação legal. Esse pode ter sido um caso de falsificação feita por um inimigo, ou possivelmente feita por bravata, já que existiam diversos Clubes do Fogo do Inferno. Mas nessa época acreditava-se firmemente na ideia de se fazerem pactos com o Diabo, e os juristas aceitavam a ideia de que se alguém era tão mau a ponto de vender sua alma por dinheiro ou qualquer outra razão, dava uma prova clara de heresia. E heresia significava morte. Aparentemente, eles não se preocupavam em pensar que, se executassem o criminoso, o Diabo teria sua alma ainda mais depressa.
A Igreja tomou medidas para obter informações sobre todos os assuntos e dessa forma agir contra todos os atos que desaprovava. Uma vez que o relato de Manx é considerado ficção por muitos, citarei o seguinte trecho, de The dungeons of saint Germains, de David Crain: “O acusador anualmente arranjava tudo para o juramento de seus representantes paroquianos e também convocava a lista dos convidados para a assembléia, que, com os carcereiros, se reunia a cada três ou quatro semanas sob a presidência do vigário ou reitor. Eles eram obrigados por juramento a relatar e apresentar pessoas ditas culpadas por violar o Cânone. Então, cada paróquia tinha seu corpo de nove ou dez homens, os Skeet, cuja tarefa era espionar seus vizinhos.
Na prática, a eficiência do sistema era limitada pelas restrições que governavam a conduta dos indivíduos em uma pequena comunidade, e veio um tempo em que os espiões ficaram mais relutantes em realizar seu ofício. Mas, embora hesitassem em destruir a boa-vontade de seus vizinhos por excessivo zelo durante o ano de exercício, tinham um grande respeito por juramentos, e o resultado foi que a pesquisa exercia uma firme pressão na vida da paróquia, encorajando o ressentimento, a desconfiança e o medo”.
Daí o ódio do moderno Manx pelo informante. Por esses meios a Igreja conseguia conhecer o tipo de pessoas que poderiam ser bruxas. Os espiões bisbilhotavam e procuravam por toda parte, tendo sido provavelmente um deles que pesquisou as crenças de John Curlitt e encontrou, ou fingiu ter encontrado, o pacto com Satã. Eles, sem dúvida, causaram a morte de quase todas as bruxas restantes e de muitos outros, alguns dos quais não pertenciam ao culto, até que houvessem sobrado apenas aqueles cujas famílias eram muito poderosas e possivelmente aqueles que eram tão pobres que não mereciam ser espionados. As bruxas se teriam tornado bons membros da Igreja para evitar a perseguição; afinal, elas tinham autoridade bíblica para inclinar a cabeça a Rimmon, e é possível que algumas destas repudiassem o cristianismo quando de sua iniciação. O novo terror trouxe grandes mudanças e, como se podia confiar apenas nos próprios filhos ou em relações muito próximas, o culto se tornou praticamente uma sociedade familiar secreta, separado de todas as outras convenções de bruxas. Eles mantinham os ritos dentro de casa; muitos tiveram de ser cortados por falta de membros e diversos ritos foram esquecidos. Foi provavelmente nessa época que a prática de as bruxas manterem registros tornou-se comum, já que o sacerdócio regular não mais existia e os ritos eram realizados apenas ocasionalmente.
Em todos os escritos das bruxas havia esta advertência, usualmente na primeira página: “Mantenha um livro em sua própria mão de escrever. Deixe que irmãos e irmãs copiem o que quiserem, mas nunca deixe esse livro fora de sua mão, e nunca guarde os escritos de outro, pois se for encontrado com a sua letra você será apanhada e torturada. Cada um deve zelar por seus próprios escritos e destruí-los quando o perigo ameaçar. Aprenda tanto quanto você puder de cor e quando o perigo passar reescreva seu livro. Por essa razão, se alguém morrer, destrua livro dela se ela não tiver sido capaz de fazê-lo, pois se for encontrada será uma prova clara contra ela. Você não pode ser bruxa sozinha, então todos os seus amigos estão em perigo de tortura, por isso destroem todo o desnecessário. Se o seu livro for encontrado em seu poder, será uma prova clara contra você; você pode ser torturada. Mantenha todos os pensamentos do culto em sua mente. Diga que teve sonhos maus, que um diabo a obrigou a escrever aquilo sem seu conhecimento. Mentalize: Não sei de nada; não me lembro de nada; esqueci tudo. Mantenha isso em mente. Se a tortura for grande demais para suportar, diga: Eu confesso. Não posso suportar esse tormento. O que vocês querem que eu diga? Perguntem a mim e eu o direi. Se eles tentarem fazê-la falar de impossibilidades, tais como voar pelos ares, correspondências com o demônio, sacrifício de crianças ou comer carne humana, diga: Tive sonhos maus. Eu não era eu mesma. Eu estava enlouquecida.
Nem todos os magistrados são maus. Se houver uma desculpa, eles podem ser piedosos. Se você confessou algo, negue-o mais tarde; diga que você balbuciou sob tortura e não sabia o que fazia ou dizia. Se você for condenada, não tema, a Irmandade é poderosa, eles podem ajudá-la a escapar, se você for decidida. Se você trair de algum modo... NÃO HAVERÁ AJUDA PARA VOCÊ NESTA VIDA OU NA QUE VIRÁ. SE LEALMENTE VOCÊ CAMINHA ATÉ A PIRA, AS DROGAS CHEGARÃO A VOCÊ e você se sentirá aniquilada, mas irá para a morte e para o que está além, o Êxtase da Deusa.
O mesmo com as ferramentas de trabalho. Que elas sejam como coisas comuns que qualquer um tenha em casa. Que os pantáculos sejam de cera para que possam ser derretidos ou quebrados rapidamente. Não possua espada, a não ser que seu posto permita que você tenha uma. Não possua nomes ou signos sobre nada, escreva os nomes e signos com tinta antes de consagrá-los e lave-os imediatamente depois. Nunca se gabe, nunca ameace, nunca diga que quer o mal para ninguém. “Se alguém falar do seu trabalho, diga: Não me fale disso, pois me assusta, traz má sorte falar disso”.
Isso diz muito. Deve datar do tempo da perseguição ferrenha no Continente e deve ter sido traduzida grosseiramente para o inglês. O problema de tratar desses documentos é a lei das bruxas: todos podem copiar o que quiserem de outros; mas antigos escritos não podem ser guardados. Como todos são passíveis de alterar levemente as coisas, modernizar a linguagem e fazer outras mudanças, é impossível fixas a data em que isso se tornou corrente. Obviamente, não foi escrito na Inglaterra. Embora bispos possam ter queimado bruxas por vezes, o enforcamento era a única sentença de morte legal. Poderia ter sido escrito na Escócia, mas os escoceses teriam escolhido palavras mais claras, acho. Isso mostra uma coisa: que a corporação era poderosa. Podia subornar carcereiros para que aplicassem drogas nas pobres coitadas. Isso explica, em minha opinião, a queixa da Inquisição de que as bruxas dormiam mesmo sob tortura. A declaração, além disso, deve datar de um tempo em que as pessoas se tornavam letradas. A queima das bruxas no Continente era uma espécie de lei de linchamento; os bispos faziam o que gostavam, dizendo que a Igreja estava acima da lei da Terra.
As pessoas me fazem perguntas sobre as bruxas porque ouviram muitos contos sobre elas. Elas vão ao sabá? É verdade que usam uma pomada voadora? Por que as bruxas se besuntam? Elas voam pelos ares em vassouras, quando vão aos seus encontros? Nos tempos antigos, geralmente elas andavam carregando bastões ou varas, que eram úteis como armas. Algumas vezes faziam uma espécie de salto com vara sobre os obstáculos, úteis para encontrar o caminho e evitar obstáculos no escuro. Nos tempos da perseguição, pelo menos, elas deveriam colocá-los entre as pernas e correr com eles até o local do encontro; ou, se desafiadas, como sinal de que pertenciam ao culto. Um erro poderia significar uma flecha entre as costelas e a flecha teria sido untada com alguma variedade de sangue de porco ou heléboro. Por fim, elas montavam nesses bastões durante a dança da fertilidade; mas, a montá-los, era preciso que houvesse alguma graxa e fuligem neles, e um bastão tão manchado poderia ser usado como evidência contra elas; assim, frequentemente apanhavam um galho ou um cabo de vassoura, que são normalmente sujos, e os usavam para reconhecimento, para pular ou para a dança da fertilidade. Se o lugar do encontro fosse distante, elas montavam cavalos. Nunca voaram em vassouras. Hoje em dia, como pessoas comuns, elas andam ou tomam o ônibus, ou o que lhes seja mais conveniente.
Nunca conheci bruxas que se besuntassem inteiras, mas já me mostraram uma receita de óleo para ungir. Consistia de verbena ou menta amassada e empapada em azeite ou banha, mantida durante toda a noite, então coada em um pano para remover as folhas. Então se adicionavam folhas frescas e a operação se repetia por três ou quatro vezes até que o óleo estivesse fortemente aromatizado e pronto para o uso. Dizem que se elas vivessem em uma localidade em que não seriam vistas tiravam as roupas, passavam o óleo no corpo e iam nuas ao sabá. O óleo as manteria quentes até começar a dança. Por vezes, elas misturavam ferrugem ao óleo para não ser vistas à noite. Uma das acusações contra as bruxas é que se tornavam invisíveis à noite e, deve-se notar, a verbena era tida como capaz de conferir a invisibilidade. Elas possuem um óleo aromático muito poderoso, chamado hoje em dia de óleo de unção. É usado apenas pelas damas, que o passam nos ombros, atrás das orelhas, etc., como um perfume comum. Quando elas se aquecem com a dança, vapores muito fortes são exalados e diversos deles produzem um efeito muito curioso. Como esse óleo é produzido é um grande segredo; foi usado sem esse ingrediente durante a guerra e por algum tempo depois, porém mais tarde os suprimentos chegaram. Elas iam nuas aos encontros porque, se fossem atacadas, não haveria tempo para se vestirem e assim acabariam deixando roupas incriminadoras para trás. Outra razão é que elas acreditavam que um soldado deixaria uma moça nua partir, mas levaria prisioneira uma moça vestida. Os escorregadios corpos untados também as tornavam difíceis de ser apanhadas. No inverno, elas arranjavam um lugar coberto, uma caverna ou ruína, onde pudessem acender o fogo e se aquecer. Vestiam roupas na ida e na volta desses lugares. A “busca” local, que indagava sobre acontecimentos anormais, certamente ficava em casa no inverno. Elas me disseram também que na maioria das aldeias as bruxas arranjavam para que a primeira e a últimas casas fossem ocupadas por um membro do culto, “e uma bruxa estrangeira, em viagem ou de passagem”, poderia ir para onde estivesse segura de ter ajuda e proteção. Nas aldeias, os membros do culto iam vestidos para essa casa e se untavam lá. Os ocupantes da casa nunca assistiam ao sabá, mas logo que a última bruxa saía, eles arrumavam uma desculpa para ser vistos. Pelo maior número possível de habitantes da aldeia, pois se alguém descobrisse que houvera um sabá nas vizinhanças eles estariam livres de suspeita.
Há muitas histórias sobre pessoas saindo por janelas e mesmo por chaminés quando haviam
pessoas que não eram membros do culto na casa. A maioria das pessoas, naquele tempo, acreditava em duendes e diabos e tinha medo do escuro; então, se as bruxas estivessem a algumas jardas da aldeia, estariam a salvo de larápios. Claro que as bruxas faziam todo o possível para estimular esses temores. Elas eram grandes anedotistas e piadas bem-sucedidas salvaram suas vidas muitas vezes; mas seus contos de advertência sobre o escuro não eram inteiramente infundados. Os homens da floresta sempre usaram setas envenenadas. Após ter escrito isso, recebi uma carta datada de 29 de setembro de 1952, informando-me de um encontro realizado em um bosque no sul da Inglaterra, cerca de dois meses antes na nudez tradicional (felizmente o tempo estava quente). Elas formaram o círculo com o Athame, fizeram a dança da fertilidade em cabos de vassoura, realizaram o próprio da estação, assim como outros ritos, e dançaram algumas das danças antigas. A carta mencionava também três encontros internos nos últimos meses, quando tudo acontecera de maneira satisfatória e os feitiços realizados funcionaram!
O que me interessa aqui é o fato de que muitas pessoas se encontram todo ano e realizam ritos de bruxas porque acreditam neles. Um crítico me sugeriu: “Essas pessoas não são bruxas; elas apenas fazem ritos de bruxas porque isso lhes dá prazer e porque são supersticiosas”. Se esse fosse um critério, uma superstição não é uma crença? Um cristão que acredita em sua religião, e que, além disso, obtém prazer e conforto realizando seus ritos religiosos, deixaria de ser um cristão? Também se diz, não sei com que razão, que os Wee Frees (membros da Igreja Presbiteriana Livre) apenas acreditam em religiões que tornam você miserável. Nem as bruxas nem eu próprio concordamos com os Wee Frees a esse respeito.

Fonte: Bruxaria Hoje - Gerald Gardner.

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