sábado, 30 de agosto de 2014

A Natureza dos Rituais.



A Natureza dos Rituais
No princípio era o caos, e do caos fez-se a ordem. Com a ordem surgiu a vida em todas as suas formas mais variadas. O ponto máximo da vida foi a humanidade. Os seres humanos, pensando, sentindo e evoluindo, rodeados pelas forças pouco compreendidas da natureza, criavam uma prece para cada capricho seu.
Os primeiros seres humanos buscaram um significado para cada coisa que se relacionasse a eles e ao seu ambiente. A princípio, indistintamente, mas crescendo na certeza e na compreensão, entenderam que estavam unidos e em harmonia com as forcas da natureza que lhes pareciam hostis. A divindade da natureza estava ali e foi reconhecida, e na própria humanidade constatou-se uma centelha da mesma divindade.
À medida que a humanidade evoluiu da vida nômade de caçadora para a vida sedentária voltada para a agricultura, as pessoas ficaram ainda mais dependentes das forças da natureza, personificadas como espíritos benevolentes. Enquanto estavam no estágio de caçadores, as pessoas descobriram que, usando o mesmo método de uma caçada bem-sucedida, por meio de uma forma mágica complacente, conseguiam influenciar o grande espírito guardião do veado, do bisão ou de qualquer animal que estivessem caçando, para que ele enviasse alguns desses animais aos caçadores. Gradualmente as pessoas adotaram determinados animais como elos de ligação. Em lugares escuros e secretos, colocavam os ossos dos animais num padrão ritual a título de agradecimento pela boa caçada. Com o tempo, grupos de pessoas começaram a identificar-se cada vez mais com determinado animal, visto, a partir daí, em união com o espírito guardião daquele grupo, clã ou tribo. Realizava-se, assim, uma etapa na conscientização e no desenvolvimento espiritual da humanidade. Contudo, com o estilo de vida mais sedentário devido à ligação com a terra e o crescimento dos grãos, as pessoas descobriram-se ainda mais à mercê dos elementos. A natureza, sob a forma das estações, tinha que ser compreendida, e os espíritos das estações, aplacados. A própria existência dependia da benevolência da natureza. Um ano mau significava fome, um bom ano, a vida. Não havia dúvida de que deviam tentar interpretar e adaptar os rituais ainda lembrados dos tempos das caçadas para satisfazer as necessidades de suas novas circunstâncias.
Aos poucos começaram a ver nas estações imagens da vida humana. Assim como crescia a semente do homem plantada na mulher, da mesma forma a semente plantada na terra brotava, amadurecia e ficava pronta para ser colhida. No período de um ano, do plantio à colheita, os seres humanos podiam ver a própria vida refletida—nascimento, juventude, maturidade, velhice, morte e, finalmente o renascimento por meio do plantio de uma semente, como eles haviam sido uma vez crianças e se tornaram genitores da próxima geração. No caso da fêmea havia um mistério: era quem trazia o futuro. Era a criança, a virgem, a mãe e, às vezes, a mulher estéril que guardava os mistérios da tribo. Como condutoras e liberadoras de vida pela concepção, as pessoas começaram a julgar a natureza e a terra como femininas, a Deusa Mãe. Voltando seus olhos para os céus, observavam o ciclo feminino espelhado nas fases da Lua. O crescer e o minguar da Lua eram como o crescimento e o enfraquecimento do ciclo feminino de fertilidade.
Também podia ser encontrado nas fases da Lua o ciclo da vida da humanidade em geral. Havia a lua crescente, simbolizando o nascimento e a juventude; a cheia era o símbolo da maturidade e da força; a minguante, a época da velhice e do enfraquecimento, e finalmente, quando a lua ficava escura, ninguém sabia onde ela se escondia, embora, após a escuridão, houvesse o renascimento na forma da lua nova. Será que isto simbolizaria a passagem da alma pela vida até a morte e o renascimento? A evidência encontrada nos bens enterrados junto com os corpos em túmulos pré-históricos aponta para alguma crença em uma entidade separada ou a alma sobrevivendo à finalidade da morte e, talvez, necessitando, de alguma forma, desses bens em outra vida.
Para assegurar a fertilidade da mulher havia também a necessidade da participação masculina. Mas, quem seria o consorte adequado para a Lua, a senhora da noite? O homem tinha o seu símbolo no Sol. Como ele, no início da vida há a promessa da força. Ao meio-dia, ou na metade da vida, o Sol fica forte e mais quente. À medida que o dia avançava, ele enfraquecia, até que, com o pôr-do-sol, partia, deixando, então, que a senhora da noite mostrasse sua face para o povo.
Durante o ano, nas mudanças sazonais, o homem via sua vida num espelho. A primavera era o tempo da juventude; o verão, da maturidade; o inverno, o enfraquecimento da velhice, para renascer na primavera, com a força renovada. Havia harmonia e equilíbrio, a mãe, o pai e a criança. Havia o velho rei, e o jovem rei, que tomava o seu lugar para também ser substituído pelo rei recém-nascido no renascimento da primavera. Naturalmente esta explicação é simplista para o que, na realidade, é um aspecto complexo e de muitas faces do crescimento da conscientização e do envolvimento espiritual da humanidade. Igualmente variados são os nomes e os aspectos da Deusa, do seu consorte e do filho. São conhecidos por muitos nomes. Tanto no rito de Adonis, do Osiris egípcio, como no mito europeu da Divindade com Chifres, o sacrifício do Rei Divino permanece tema central; não somente como tema central em relação ao conceito, mas também na evolução para o sacrifício ritual da representação humana daquele rei como tributo anual à Grande Mãe.
O tempo e a nova maneira de pensar reduziram ou modificaram o aspecto do assassinato ritualístico da Antiga Fé, onde o sacrifício se tornou uma exceção mais do que regra, sendo encontrado somente em algumas danças folclóricas. Como exemplo temos A Morte de Jack, nos jardins do castelo de Hastings. O dançarino que representa Jack está vestido como um arbusto verde. Ele dança pela cidade, incitando a liberação do espírito do verão ou a morte do antigo Deus-Rei, para que o mais novo possa reinar.
Os tempos mudam, e com eles, a natureza das práticas religiosas. Com o passar do tempo, as novas deidades formalizadas tornaram-se os deuses e as deusas tutelares de novas cidades e novos estados. Conforme isto acontecia, a antiga simplicidade e o envolvimento do ato de adoração perdiam-se na congregação. A intercessão junto aos deuses pode ser buscada somente por intermédio de um sacerdote. A fé simples foi formalizada em rituais vazios, nos quais a pompa e a ostentação são a ordem do dia.
Finalmente, com o estabelecimento da relativamente recente fé cristã como religião oficial do Império Romano, no ano de 330, aos poucos os templos dos deuses foram abandonados ou ocupados. Com isto não quero dizer que o Cristianismo, como o conhecemos, se tenha tornado, da noite para o dia, o principal esteio do império. O imperador romano Constantino e seus sucessores ainda mantiveram a máxima fundamental da lei romana em que o cuidado com a religião era dever dos magistrados. Por meio do Édito de Milão, em 313, do Conselho de Nicéia, em 325, onde o Credo de Nicéia f oi ratificado, e, posteriormente, em 484, do Conselho de Constantinopla, os sinos dobraram pelas igrejas cismáticas do Cristianismo. Por decreto imperial estabeleceu-se a ortodoxia ao longo de todo o Império Romano, e seitas, como as dos donatistas e dos arianos, foram declaradas heréticas. Com esse ato foi lançada a base para as futuras perseguições de todos que ousassem pensar em termos ortodoxos. Mesmo assim, o paganismo em suas várias facetas era defendido ou, onde os costumes e usos eram muito fortes, absorvido. Um elemento poderoso do culto à Deusa Mãe era levado para lugares secretos da Antiga Fé. A Mãe ainda tinha seguidores devotos, embora isolados entre si. O fato de os rituais terem que ser praticados em segredo significou que os aspectos mais sangrentos da fé tinham que ser abandonados. Em vez de o sacrifício ser realizado a céu aberto, era feito em clareiras secretas, de maneira simbólica, na libação da bebida derramada em nome da Deusa.
Com o aspecto secreto da adoração restaurou-se o lado místico da Antiga Fé. Não houve mais uma linha de sacerdotes e sacerdotisas poderosos controlando os rituais e interpretando a vontade dos deuses. Era um punhado de mortais inferiores praticando rituais quase esquecidos dos seus ancestrais, que, com isso, se afastavam de um ritual estabelecido em direção ao envolvimento simples da adoração à Deusa e, por seu intermédio, ao Deus Cornudo das clareiras das matas, o Rex Nemorenses. As perseguições posteriores prejudicaram ainda mais esses costumes. Depreciada e mal utilizada, a Antiga Fé degenerou em pequenos grupos, em geral de mulheres idosas e maliciosas lançando encantos malignos sobre o gado dos vizinhos ou impedindo cavalos de andar até que se pagasse uma taxa e coisas do gênero. Mas, escondida no ciclo da natureza, encontrava-se a Deusa. Seu culto estava proibido, Sua congregação, impedida de se reunir, mas, mesmo assim, ela estava lá, pois Seu espírito é o espírito da própria terra. Danificado, fragmentado, mas nunca extirpado, o conhecimento da Grande Senhora ainda resistia. Seus rituais eram observados por um grupo de adoradores que crescia. Para muitos, as fés ortodoxas perderam o ímpeto de adoração por estar imersas na liturgia e não conseguir satisfazer as necessidades da época. Assim como a Igreja Católica Romana com seus próprios atos fez surgir o movimento protestante, que por sua vez, quando se estabeleceu, levou ao surgimento de movimentos na não-conformistas, a adoração à Deusa e a tudo que envolve o Seu culto está atraindo novos seguidores. Lentamente, mais e mais pessoas estão ouvindo Seu chamado, porque, para alguns, Ela significa alternativa para as fés ortodoxas atuais. Seguir Seus caminhos é harmonizar-se com o ritmo da natureza, penetrar e tentar entender as forças interiores e, também, ser capaz de responder às forças externas que são parte do cosmo místico, e redescobrir os sentidos quase perdidos que eram os presentes dos deuses para a humanidade: o poder de ser capaz de ver o futuro em todas as suas formas, a capacidade de prever os resultados de qualquer palavra, ato ou ação e profetizar sua conseqüência, ser capaz de voltar ao passado e ver o tempo presente como parte desse passado, conseguir reconhecer e saber que a existência é como uma espiral, e que serão necessárias muitas vidas para percorrê-la, e, finalmente, descobrir a verdade que está por trás das várias fés.
Ao seguir os caminhos da Grande Senhora, do seu consorte, o jovem Rei Cornudo, estamos voltando para o lado instintivo de nossa herança. Como faz parte do próprio ciclo da vida, também fazemos parte dele. Do momento do nascimento ao momento da morte, estamos envolvido nele. Parte da magia da Antiga Fé é o conhecimento e a aceitação deste fato: admitir a vida, em alguns casos ser instrumento do destino dentro da própria vida e, às vezes, tentar mudar de alguma maneira o ritmo dessa vida. Para mudar uma vida teremos que mudar a nós mesmos, o que por sua vez levará a compreensão e envolvimento maiores. Somente mediante busca, compreensão e envolvimento, a Antiga Fé revelará seus segredos de inspiração, compreensão e envolvimento a uma pessoa e a um grupo escolhido. É dando que se recebe, e, desta forma mantém-se o equilíbrio.

Fonte: Livro - Feitiçaria: A Tradição Renovada. De Doreen Valiente. 1992.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...