domingo, 30 de novembro de 2014

Outras Formas de Magia - Scott Cunningham.

--Scott Cunningham--

Atualmente, existem muitas formas de magia e a magia popular nada mais é do que uma delas. Os dois outros maiores tipos - cerimonial e religiosa - não se enquadram em nossa  definição de Bruxaria. Contudo, por normalmente serem agrupadas com todas as outras práticas ocultas sob este título, uma breve discussão sobre elas pode esclarecer alguns mal-entendidos.

Magia Cerimonial
A magia cerimonial (ou ritual) é um sistema contemporâneo embasado sobre tradições antigas e relativamente recentes. Baseia-se na magia suméria, egípcia, indiana e semita, com influências do pensamento árabe e, posteriormente, cristão. A maçonaria também contribuiu para sua atual estrutura, assim como as sociedades secretas tão populares na Grã-
Bretanha e por toda a Europa nos séculos XVIII e XIX.
Ao contrário do que reza a opinião popular, os magos cerimoniais não têm nada a ver com a destruição de demônios ou o furto de anéis mágicos de espíritos monstruosos com cabeças de mosca. Não possuem tapetes mágicos ou vivem em cavernas, e certamente não encravam espadas nos corpos de vítimas, nem mesmo têm diabretes como companheiros.
Mais importante ainda, eles não têm nenhuma conexão com a Bruxaria, a não ser nas mentes dos leigos. As estruturas rituais, a terminologia e os objetivos dos magos cerimoniais são geralmente - mas não sempre - centrados na união com o divino, com a perfeição e a expansão da consciência. Ou, como descrito normalmente, "a ciência de e a conversa com o anjo da guarda de um mago."
Um objetivo espiritual grandioso, não? E indica uma das diferenças básicas entre a magia cerimonial e a magia popular. Ao contrário desta última, os magos rituais normalmente não se preocupam com os objetivos do mago popular: amor, cura, dinheiro, felicidade e proteção. Quando tais objetivos são acessados através da magia cerimonial (como na criação de um talismã), é geralmente como o meio para um fim - atingir a união acima citada. Por seu lado, os magos populares solucionam problemas em suas vidas com rituais e raramente buscam algo além.
Alguns magos cerimoniais se organizam em grupos conhecidos como lojas ou ordens (como a famosa Golden Dawn - Aurora Dourada, n. do T.), e utilizam elementos da religião egípcia ao criar seus trabalhos mágicos. Muitos dos rituais utilizados por um pequeno grupo dessa loja de magia do final do século passado foram publicados em The Golden Dawn, de Israel Regardie, um dos mais influentes livros mágicos já editados.
Outros magos sintonizam-se com religiões mais ortodoxas. Os livros mágicos da Idade Média e do Renascimento incluem invocações a Jeová, Adonai e Deus, e utilizam extensa terminologia judaico-cristã. Isso não constitui heresia ou farsa, mas o produto de uma diferente interpretação do mito cristão.
Obviamente, isso em nada se assemelha à magia popular, na qual o poder é enviado sem a invocação de uma Deidade. Os magos cerimoniais tendem a ser um tanto individualistas. Muitos praticam sua arte a sós, dedicando longas noites à leitura de antigas escrituras, preparando seus "instrumentos da arte" e aprendendo latim e grego para melhor praticar seus rituais. Estudam a obra de Aleister Crowley, bem como as de William Gray, John Dee, Franz Bardon, Agrippa, Dion Fortune e muitos outros autores. Alguns mergulham na alquimia, geomancia, magia Enoquiana, e noutros assuntos como pontos principais ou secundários de seus estudos.
Os magos cerimoniais são seres humanos simples, que não apenas trabalham com a energia (ou seja, praticam magia) como também buscam algo maior que não foram capazes de encontrar nas religiões ortodoxas. Possuem uma longa e colorida história por trás deles, plena de eventos fantásticos e ritos exóticos.
Mas eles não são Bruxos.

Magia religiosa
A magia religiosa é a praticada em nome de, ou com o auxílio de, uma Deidade. Tem sido praticada por vários povos ao redor do mundo, em todas as épocas da história, e ainda possui um séquito vigoroso. Em períodos mais longínquos, as Deidades que representavam os campos, as montanhas, as nascentes e os bosques eram invocadas durante a magia. A lua e o sol eram considerados Deidades (ou símbolos destas), e eram convocados durante rituais mágicos. Esta era provavelmente a forma mais pura de magia religiosa.

A oração é o exemplo mais completo. Quando um indivíduo ora com fervor por uma cura, por um marido atencioso ou por uma filha estudiosa, esse devoto canaliza seu poder pessoal por meio da oração em direção à Deidade. O envolvimento emocional da pessoa na oração "programa" a energia que é enviada. O resultado desejado é, obviamente, uma manifestação da bênção pedida na oração. A não ser que a pessoa orando seja treinada em magia, ela não terá consciência do funcionamento desse processo.
Mas isso não importa. Orações oferecidas por devotos de qualquer religião são geralmente atendidas. Essas orações surtem efeito porque sua energia pessoal, adequada à sua necessidade mágica, é enviada à Deidade e, fortalecida por essa fonte de energia mais poderosa, se manifesta na Terra. O estado emocional da pessoa e a crença na Deidade determinam a eficácia da oração.
Sacrilégio? Não. Apenas explicação. A magia religiosa não é praticada apenas pelos membros mais baixos de uma religião. Padres, ministros e outros também a praticam, e a magia é parte integral de muitas religiões atuais, inclusive do cristianismo.
De modo geral, o poder divino — o que não possui forma física - é trazido à Terra por meio dos atos de um sacerdote ou ministro e forçado a entrar em um determinado objeto. Essa forma de magia religiosa inclui a criação e a utilização de medalhões religiosos abençoados, crucifixos e folhas de palmas utilizados por alguns católicos visando favores especiais. É também o fundamento da transubstanciação.

Outras seitas cristãs menos ritualísticas utilizam a oração e a música para ativar o poder pessoal para que se sintonize com o divino. Os operadores de encontros e os sacerdotes cristãos carismáticos conhecem bem esses segredos, e os utilizam com sucesso para elevar a consciência de seus seguidores a um estado espiritual mais alto. Mas alguns crentes individuais - até mesmo cristãos - há muito trouxeram elementos da magia popular para suas religiões e criaram uma nova forma, que incorpora o simbolismo religioso às práticas da magia popular.

Isso teve início tão logo o cristianismo se estabeleceu por toda a Europa. Se essa nova magia religiosa foi uma tentativa de evitar a perseguição ou a morte por meio da aparente conversão à nova fé, ou se foi o resultado da conversão real de seus praticantes, é um campo aberto para a especulação. Mas através da Idade Média e da Renascença, uma forma de magia completamente nova foi praticada tanto pelos mais poderosos como pelos mais simples. Esse período assinalou também o abandono temporário da magia popular. A um certo tempo, uma mulher que desejasse preparar um encantamento herbal para proteger seu filho, colheria ervas enquanto entoava antigas palavras, chamando pelas deusas da cura e pedindo à planta que aceitasse esse sacrifício pelo bem da criança. Ela colocaria essas ervas num saquinho de pano e o amarraria ao redor do pescoço da criança.

Após a ascensão ao poder do cristianismo, as ervas passaram a ser colhidas com preces à Jesus, à Deus ou à Virgem Maria. Santos eram comumente invocados (pelo menos pelos católicos). O saquinho de pano poderia ser bordado com uma cruz, símbolo da nova religião, geralmente associado a poderes mágicos (lembre-se de seus supostos poderes sobre vampiros). Por fim, o talismã era levado a uma igreja para que fosse abençoado.
Um exemplo extremo da crença das pessoas nos poderes da Igreja é a prática medieval comum de se roubar hóstias de igrejas católicas para utilizá-las em encantamentos de proteção, rituais de cura e afins. Isso não era praticado por Bruxos, mas por pessoas que haviam se esquecido da magia popular e haviam se voltado para a nova fé. Os Bruxos possuíam sua própria magia.

Tal prática, que causava horror àqueles que detinham o poder religioso, não era uma distorção do cristianismo ou do catolicismo. Pelo contrário, era o reconhecimento do poder da religião e de seus sacerdotes, pois somente um verdadeiro cristão poderia ver poder numa hóstia ou pedaço de pão consagrado.
Muitas formas de magia religiosa ainda existem. Acender uma vela para uma Deidade pedindo por um favor é uma forma de magia religiosa como qualquer outra praticada com súplicas ou invocações a poderes mais elevados, como na moderna magia Wiccana.
Naturalmente, a magia religiosa é desdenhada pelos oficiais religiosos; muitos consideram impróprio que humanos pratiquem magia. Isso é visto como um ato dos fiéis para ultrapassar os representantes humanos de Deus e ir direto à origem.
O Vaticano não pode estar satisfeito com o fato de muitos mexicanos-americanos usarem medalhas mostrando os santos para finalidades mágicas, mas isso não interrompeu a prática. Rituais envolvendo antigas Deidades africanas são praticados nos degraus de igrejas do Taiti, Detroit e Nova Orleans. imagens de santos são colocadas lado a lado com as de Xangô ou Iemanjá em dezenas de milhares de lares nos Estados Unidos e na América Latina.
Esse tipo de magia religiosa é muito comum nos Estados Unidos: a Bíblia é utilizada para prever o futuro; cruzes são vistas como amuletos de proteção; os salmos são recitados para atrair amor, saúde e felicidade; imagens de Jesus, Maria e São Cristóvão adornam os painéis de automóveis. Mil e um encantamentos desse tipo são diariamente utilizados por pessoas de fé ortodoxa.
Qualquer forma de magia pode ser praticada por magos cerimoniais ou dentro de contextos religiosos. Quando isso é feito assim, deixa de ser magia popular. Lembre-se que as práticas descritas neste capítulo não são utilizadas por magos ou Bruxos. Eles não utilizam símbolos cristãos em seus rituais porque milhares de outros estão disponíveis. Eles não roubam de igrejas porque eles não creem naquelas doutrinas. Eles também, de modo geral, não oram para deusas egípcias ou deuses gregos. Apesar de poderem estar cientes da natureza espiritual da energia empregada na magia popular, eles normalmente não praticam cultos em uma forma ritual estruturada. Os Wiccanos certamente o fazem, mas não os magos populares.
Os magos populares trabalham os poderes da natureza para melhorar suas vidas e as dos amigos e amados. Os religiosos reverenciam essas energias, e a oração é geralmente o único ritual mágico que praticam.

Texto extraído do Livro: A Verdade sobre a Bruxaria Moderna de Scott Cunningham - 1998 - pags 55 ao 60.

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