terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Bruxaria na Irlanda - Gerald Gardner.

BRUXARIA NA IRLANDA
::Gerald Gardner::

O mais famoso caso de bruxaria irlandesa é o de Lady Alice Kyteler de Kilkenny. O bispo de Ossory a acusou de bruxaria segundo as novas Bulas publicadas pelo Papa João XXII e ela foi julgada em 1324. A corte obviamente acreditou que ela praticava a bruxaria, mas não viu nenhum mal particular nisso. Embora devessem tê-la culpado, soltaram-na bem discretamente e a perdoaram, para o desgosto do bispo; da mesma forma, uma corte de Manx em 1659 considerou a Sra. Jane Caesar não culpada de bruxaria, embora o bispo tenha manobrado para sentenciá-la a “abjurar da bruxaria, no próximo domingo na Igreja Malew” (um curioso caso de “você não é culpada, mas prometa que nunca mais o fará novamente”). A dama foi forçada a abjurar na Igreja e usar palavras que satisfizessem à corte, embora os comentários afirmem: “Seus acusadores estariam muito infelizes, se realmente acreditassem que ela é uma bruxa”. Como nada mais está registrado, presume-se que o caso foi encerrado. Mais tarde, os registros da Igreja mostram que ela morreu e foi enterrada de maneira usual; os Caesars eram pessoas de boa posição.
Mas o bispo de Ossory tinha um temperamento mais severo que os bispos de Manx. Apoiado pela Bula papal, ele atacou de novo, acusando Lady Alice de negar Cristo, ter cerimônias indecentes com um Robin Artison, ou Robin, filho de Art, em encruzilhadas, e uma lista inteira de acusações usuais, incluindo ter uma bengala que ela untava com pomada e galopava frequentemente – presumivelmente uma dança de fertilidade comum. Novamente, ele não pôde obter uma acusação; os nobres a protegeram e ela foi para a Inglaterra. O bispo teve de se contentar com açoitar, torturar e queimar os criados dela, como uma espécie de lei eclesiástica de linchamento. Entre as acusações contra ela, estava a de varrer a poeira para dentro. Na Ilha de Man, é uma superstição comum crer que se deve varrer para dentro, para não varrer para fora a sorte.
No caso de Lady Kyteler, há evidência suficiente para provar a existência de bruxaria e de uma assembléia de 13 bruxas. Mais provavelmente, ela estava em comunicação com um ramo irlandês das Fadas ou do Povo Miúdo, que celebrava ritos similares aos da Inglaterra e àqueles de Dionísio na antiga Roma. A segunda acusação contra ela era de que “tinha o costume de oferecer sacrifícios a demônios, animais vivos que ela e sua companhia rasgavam membro a membro e faziam a oferenda espalhando-os em encruzilhadas para um certo demônio chamado Robin, filho de Artis, ou Robinartson”. Como visto acima, o nome Robin era comum para um espírito, desta vez provavelmente um manhoso e travesso (“artes”). A ação parece uma descrição de algumas bacantes que costumavam rasgar animais em pedaços nos frenesis de Dionísio, pois devorar uma vítima animal simbolizava a encarnação, morte e ressurreição da divindade. Havia outra acusação de sacrificar galos vermelhos a Robin, que é descrito como sendo Aethiopia – em outras palavras, um negro. Seria muito incomum encontrar um negro, com um nome inglês, na Irlanda daquela época, logo presumo que Robin misturava fuligem à sua pomada protetora para não ser reconhecido. Eram provavelmente membros de um culto local que praticavam cerimônias mágicas que lhes trouxessem sorte. Houve treze pessoas acusadas, mas Robin jamais foi preso, de forma que o “espírito zombeteiro” era provavelmente de alto escalão ou membro da Igreja. Logo, devemos presumir que um culto de bruxas que tinha alguma semelhança com o culto de Dionísio estava em pleno impulso naquela data e consistia tanto de membros irlandeses quanto de ingleses.
O Sr. Hughes menciona que os arquivos municipais de Exeter mostram que em 1302 o Grande Júri ponderou que “Dionysia Baldwin recebe frequentemente John e Agnes de Wormhille e
Joan de Cornwale de Taignmouth, que são bruxas; e a dita Dionysia se contorcia com elas”. O nome Dionysia me sugere que seus pais pertenciam a algum culto e que o padre que a batizou não fez objeções, embora muitos concílios da Igreja tenham fulminado cultos de Diana e da Lua. John, Agnes e Joan são nomes de bruxas, de acordo com a Dra. Margaret Murray; Wormhille (“montanha do Dragão”) deve ser acidental, ou pode ter algum significado. Era de se esperar que o bispo local certamente faria uma acusação; mas a corte aparentemente não o faria, pensando: “Por que as bruxas não podem passar bem e praticar suas artes?” Como na Irlanda, eles não faziam objeções ao “trabalho sujo” de Lady Kyteler “nas encruzilhadas”.
Na verdade, naquele tempo, as cortes parecem ter acreditado que não havia nenhum mal na bruxaria. Não havia leis particulares contra ela. O Sites Partidas de Castilha, por volta de 1260, diz que ela deveria ser punida se causasse malefícios, mas que era válida para curar doenças. Os Assizes de Jerusalém, as Instituições de Saint Louis e outros tribunais sustentavam visões similares.
Contaram-me de um culto de bruxas na Irlanda que ainda ocorre hoje em dia, mas não consegui contata-las. Diz-se que os membros mantêm seus encontros em uma pedreira desativada onde podem trabalhar sem ser perturbados. Usam longas capas pretas para se protegerem até que cheguem ao local do encontro, onde as removem para revelar um tipo de kilt feito com dois pedaços de couro amarrados dos lados. Diz-se que sacrificam animais à lua, ou ao menos realizam cerimônias de louvor à lua, com danças reguladas por um quadrante da lua. Eu soube que elas têm uma dança muito bonita, a Dança dos Quatro Ventos, que usualmente é feita em volta de um monólito ou de algo que tenha quatro lados; mas não pude obter mais detalhes. Diz-se que parte da cerimônia de iniciação do homem é chamada de Caça de Diana, quando todas as moças solteiras e sem compromisso caçam o iniciado e quem quer que o cace bate nele e o toma sob sua direção, sendo previamente combinado quem deve caçá-lo. Disseram-me que algumas vezes sangue era usado nos ritos e punham-se maldições nas pessoas, mas meu informante nada sabia dos ritos, ou de sua líder, exceto que era uma Grande Sacerdotisa chamada Diana e que eles usavam “uísque”.
O problema de se investigar tal caso é saber se o culto é antigo ou se tem origem recente. Na Irlanda, as pessoas são fortemente católicas romanas ou fortemente protestantes, sendo possível que alguém tenha inventado um culto por diversão, ou em oposição a ambas as religiões. Se ele crescesse, não poderia ser mantido oculto por muito tempo e as Igrejas provavelmente se uniriam para esmagá-lo. Se, por outro lado, fosse uma tradição antiga, deveria ter continuado, pois seus membros teriam percebido a necessidade de segredo. O nome Diana parece invenção moderna; mas a partir da Renascença houve muitos estudiosos clássicos que aplicaram esse nome a uma antiga deusa.
Há uma cidadezinha na Irlanda onde é costume por todo ano um bode na praça do mercado assistido por duas donzelas por três dias e três noites; durante esse tempo a cidade é aberta. Esse evento é conhecido com Puck Fair (Feira da Fada). A polícia fica em sua base, as casas públicas nunca fecham e ninguém dorme, pois esse sempre foi o costume e traria azar mudar. Esse parece algum curioso rito pré-cristão que sobreviveu.
Se no tempo de Lady Alice houve um culto secreto que trazia a sorte para os seus devotos e maldições sobre seus oponentes, não é surpreendente que ele ainda fosse praticado hoje. Na Inglaterra, em sua presente forma, os rituais e declarações não podem ser muito antigos porque foram copiados, em linguagem moderna, de avôs e avós; mas remontam a, pelo menos, 150 anos.
Se eles tivessem sido inventados, teriam sido escritos de forma sentimental, em vez de ir direto ao ponto. Anteriormente a 1800, quando sabemos que o culto funcionava, havia um certo interesse em matérias ocultas, mas isso no tipo cerimonial de magia, ou no tipo do Clube do Fogo do Inferno, o que significaria evocar o Demônio. É possível que alguém tenha iniciado uma nova religião, mas acho que deve ter existido algo antes em que enxertá-la. Penso ser muito curioso que tal tradição possa ter vindo de tempos tão remotos. Mostrei minhas razões em pensar que ela deve remontar aos tempos da primeira Elizabeth, pelo menos. Se foi importada da Itália, então uma relíquia de um culto Dionisíaco que sobrevivesse ali poderia facilmente ter sido mantido na Inglaterra; ou poderia ter sido importada da França pelos normandos muito antes. Não sei se algum dia realmente chegaremos a descobrir.
As pessoas que conheço têm a ordem de nunca usar sangue ou fazer sacrifícios; mas as convenções de bruxas irlandesas o usam, e o Vodu também. Sabendo como os ritos na Inglaterra
funcionam, essas práticas seriam inúteis em todos os que conheço, então presumivelmente há ritos totalmente diferentes sobre os quais minhas amigas nada sabem. A essência da magia usualmente é aumentar o poder e então usa-lo ou controla-lo.
Compreendo que se pense que matar algo possa liberar poder ou força, se a alma é força, mas não entendo como se pode controlar ou usar algo assim. Sangue recém-derramado contém algum poder vital, que exsudaria lentamente, e esse sangue pode aumentar o poder; mas se esse fosse o caso, poderíamos dizer que os funcionários do matadouro municipal estão se tornando magos. Quando eu ouvir essa notícia, acreditarei no poder do sangue. Sei que se diz que as bacantes rasgavam animais vivos em pedaços e os comiam, mas acho que elas eram pessoas que, sem compreender os ensinamentos secretos que receberam, confundiam bebedeira com êxtase divino, fazendo loucuras em seu frenesi. A lei então restringiu esses excessos e reformou-se a seita. Os africanos ocidentais usam sangue, mas penso que eles também não conhecem os verdadeiros segredos.

Texto extraído do Livro: Bruxaria Hoje - Gerald Gardner, capitulo IX, pag 80 a0 83.

domingo, 25 de janeiro de 2015

As Bruxas e os Mistérios - Gerald Gardner

AS BRUXAS E OS MISTÉRIOS
Por: Gerald Gardner

Sempre acreditei que as bruxas pertencessem a uma Idade da Pedra independente, cujos ritos eram uma mistura de superstição e realidade, sem ter conexão com qualquer outro sistema.
Mas durante minha curta estada em New Orleands, embora não tenha conseguido travar contato com o Vodu, percebi algumas semelhanças suspeitas que me fizeram pensar que o Vodu não fosse somente africano na origem, mas tenha sido composto na América, fora da bruxaria européia e da mitologia africana; e quando visitei a Villa dos Mistérios em Pompéia percebi grandes semelhanças no culto. Aparentemente, essas pessoas usavam os processos das bruxas. Eu sei, é claro, que os antigos e modernos escritores concordaram que os mistérios gregos de Dionísio, Zeus, Orfeu, Zagreu e Elêusis eram similares; então, cada mistério tinha diferentes ritos e mitos, mas eram os mesmos, o que deve significar que eles tinham algum segredo interno.
Em seu instruído trabalho A Villa dos Mistérios, o professor Vittorio Macchioro diz o seguinte sobre o assunto: “O mistério é uma forma especial de religião que existia entre todos os povos antigos e, entre os povos primitivos, conserva ainda uma importância muito considerável.
Sua essência é a palingenesia mística, ou seja, uma regeneração trazida pela sugestão. Em seu mais perfeito estágio, a palingenesia é uma verdadeira substituição de personalidade: o homem é investido da personalidade de um deus, um herói ou um ancestral, repetindo e reproduzindo os gestos e ações a ele atribuídos pela tradição”.
Apenas as deidades que, tendo sua própria história mítica, dão à luz em si mesmas os elementos do novo nascimento, Deméter, Dionísio, Ísis, Átis e Adônis, podem conferir a palingenesia, a identificação do si - mesmo com a Divindade, devido à concepção especial que os gregos tinham das relações entre vida e morte. O postulante passava pelo mito divino, revivia a vida do deus e passava, com o deus, do lamento à alegria, da vida à morte. O professor Macchioro dá o seguinte relato:
“Todos os mistérios se operavam da mesma maneira. Consistiam em um drama sagrado e em uma série de atos rituais, que reproduziam os gestos e ações atribuídas à Divindade. Esse é o princípio da eucaristia, comer o pão e beber o vinho para identificar-nos com Seus atos. Não era um drama objetivo, mas subjetivo, sendo a repetição daquilo que, de acordo com a tradição, fora feito por Deus. Era guiado por instruções preliminares, aumentadas em efeito por visões e sugestões extáticas, conduzindo o iniciado, ele próprio um ator, à comunhão com Deus. Os dramas se tornavam um verdadeiro acontecimento na vida do homem, como o sacramento, transformando-o completamente e assegurando-lhe a felicidade após a morte. Antigamente, o mistério era uma cerimônia puramente mágica, mas com o tempo adquiriu conteúdo moral e espiritual. As religiões de mistério tinham enorme influência na consciência grega, habilitando-a a compreender o valor da mensagem cristã.
O orfismo foi a mais importante delas, tendo seu nome derivado de seu alegado fundador. Era uma forma particular da religião orgiástica e extática que originou o culto a Dionísio e consistia em reviver em seu mito. Zagreus, o filho de Zeus e Koré (Perséfone), é assassinado por instigações de Hera com os Titãs, que o cortaram em pedacinhos e o devoraram, exceto seu coração, que Atenas salvou e do qual nasceu, como filho de Zeus e Semelé, o segundo Dionísio. A palingenesia aqui consistia em morrer e nascer de novo em Zagreus. A espécie humana nasceu das cinzas dos Titãs, fulminados pelos raios de Zeus como punição por seu crime. Por isso, todos os homens sustentam a carga do crime dos Titãs; mas como os Titãs haviam devorado Zagreus, o homem tem também dentro de si a natureza de Dionísio. Os teólogos dizem que á da natureza titânica inata no corpo que o homem deve se libertar para se reunir com natureza dionisíaca pela interferência dos mistérios. Dessa forma, o Mistério órfico ganhou um importante significado moral e espiritual e exerceu grande influência em almas eminentes como Heráclito, Píndaro e Platão; quando o cristianismo se difundiu, foi o orfismo que forneceu as bases para a teologia paulina.
O orfismo logo entrou em contato com o culto rural de Elêusis, cujos mistérios eram celebrados sem elementos extáticos e orgiásticos. O contato com o orfismo transformou o culto, adicionando o elemento da redenção; da fusão nasceram os Mistérios de Elêusis, como foram conhecidos na Antiguidade. Estes consistiam de duas partes: o órfico, girando em torno de Zagreus e celebrado em Agrai, um subúrbio de Atenas, e chamado “pequenos Mistérios”; e o eleusiano, girando em torno de Deméter e Koré, celebrado na própria Elêusis e nomeado “grandes Mistérios”.
O primeiro era a preparação necessária para o último; conferia a palingenesia em Zagreus, a nova vida que tornava o iniciado merecedor de ter acesso ao mais alto ensinamento dos grandes mistérios.
Protegidos pelo Estado, glorificados por artistas e poetas, eles eram o centro da vida grega e floresceram ininterruptamente do oitavo século a.c. ao ano 396 d.c., quando Elêusis foi destruída por monges. Os segredos, protegidos por leis, foram respeitados; conhecemos tão pouco dos pequenos Mistérios quanto dos grandes, a visão suprema que coroava a série de cerimônias no último dia. Os estudiosos fazem repetidos esforços para descobrir o que aconteceu até que a Villa dos Mistérios fosse descoberta. Ela fica na Rua das Tumbas, em Pompéia, fora do Portão Estabiano, e é dividida em duas partes separadas por um corredor. A parte nordeste é como uma casa comum de Pompéia; a parte noroeste é peculiarmente arranjada. A porção central é formada por um grande vestíbulo decorado com afrescos e chega-se a ele pelo corredor, passando por duas salinhas, entrando-se pelo vestíbulo por uma pequena porta lateral; o caminho de saída é uma larga porta que se abre para um terraço. Esse grande vestíbulo foi originalmente um triclinium (sala de jantar) e as duas salinhas eram cubiculi (dormitórios); tudo sofreu alterações para adaptá-los a uma proposta diferente daquela a que se destinavam. As pinturas contêm a resposta, pois elas se estendem ao longo de todas as paredes do vestíbulo, sem contar os cantos e aberturas. Contêm 29 figuras, quase em tamanho natural, vestidas no estilo e segundo o costume dos gregos e assemelhando-se a pinturas atiças do século V a.c.
É evidente que é um ato só dividido em vários episódios, contando a história de uma figura velada de mulher que aparece em todos os episódios. A história é uma série de cerimônias litúrgicas pelas quais a mulher é iniciada no Mistério órfico e atinge a comunhão com Zagreus.

1. A liturgia começa com uma donzela que, ajudada por um criado e dois jovens rapazes (um deles segurando um espelho diante dela), e supervisionada por uma sacerdotisa, está preparando seu enxoval de casamento. Ela está envolvida no sindon, um véu ritual que era posto nos neófitos dos mistérios; ela é a noiva mística, a catecúmena, preparando-se para celebrar, sob o símbolo do matrimônio, sua comunhão com Dionísio. Ela é a protagonista de toda a liturgia.

2. Envolvida no sindon, a donzela reverentemente se aproxima de um jovem nu evidenciado como um sacerdote pelas botas dionisíacas que veste. Este embades, sob a terna direção de uma sacerdotisa, está lendo uma declaração ou ritual de um rolo, de forma que a neófita possa conhecer as regras, ou talvez o significado da iniciação.

3. Dessa forma instruída e habilitada para compartilhar do rito, a donzela, ainda envolvida no sindon e agora usando uma coroa de mirto, anda para a direita segurando um prato ritual com alimento em fatias para tomar parte em uma refeição lustral. Diante de uma mesa sacrificial está sentada uma sacerdotisa com dois criados; com sua mão esquerda ela descobre o prato trazido por um dos criados e em sua mão direita ela segura um galho de mirto em que o outro criado, que coloca na cintura dela um rolo ritual, está derramando uma libação por meio de um oenoche. Este é o ágape lustral que deve ser celebrado antes da comunhão, como era o costume na cristandade primitiva.

4. Após a celebração do ágape, a neófita é merecedora de um novo nascimento, representado alegoricamente. Um sátiro e uma sátira estão sentados; um fauno está esticando seu focinho em direção à sátira, que oferece o seio; à esquerda, o velho Sileno entra na cena tocando extaticamente uma lira. No mito, Dionísio criança foi transformado em cabrito para escapar à fúria de Hera. Esse cabrito que é amamentado simboliza a infância de Dionísio, e Sileno está presente por ser o pedagogo de Deus; a cena representa simbolicamente o novo nascimento da neófita. Ela nasceu de novo em Zagreus sob a forma de um cabrito, o que explica por que, nos tabletes de ouro enterrados com um iniciado em Sibaris, está gravada a alma do morto aparecendo diante de Perséfone e dizendo: “Eu nasci novamente.”

5. A neófita renasceu em Zagreus; começou a viver a vida do deus, mas terríveis provas a esperam. Sileno, sentado em uma coluna, mostra a ela uma caixa de prata hemisférica, na qual um jovem está deitado em êxtase enquanto o seu companheiro segura no alto, atrás dele, uma máscara dionisíaca. Sileno se volta para a neófita, identificada pelo sindon, e mostra aquilo que visivelmente a enche de terror. Ela se encolhe como quem quer fugir e faz o gesto de alguém que quer expulsar de seus olhos a terrível visão. A caixa hemisférica na qual o jovem está deitado extaticamente é um espelho mágico; ele está fascinado e caiu vítima de um monoideísmo alucinatório e, como acontece em cristalomancia, vê no espelho uma série de visões que têm seu ponto inicial na máscara e na vida de Dionísio. Ele vê desenrolar-se no espelho a vida do deus, vê como foi feito em pedaços e devorados pelos Titãs e, em resumo, vê o futuro destino da neófita, que, se nascesse de novo como uma nova criatura, deveria morrer junto com Zagreus. É essa assustadora morte dionísica que ele anuncia à donzela. É uma adivinhação que se está vivenciando e é por meio de Sileno, primeiro o pedagogo e depois o mistagogo de Dionísio, que ela é vivenciada. Além de incluir a anunciação da futura morte da neófita, essa cena envolve outras repetições dos mais importantes gestos atribuídos por mito ao deus: Dionísio, quando criança, observa em um espelho mágico, feito para ele por Hefestos, seu futuro destino. Outra tradição é que os Titãs assassinaram Zagreus mostrando-lhe em um espelho seu próprio rosto desfigurado, distraindo assim sua atenção para poder matá-lo. Como o drama sacramental consistia na repetição das ações do deus para obter, por essa imitação, a comunhão com ele, isso explica por que a neófita, ou o jovem em seu benefício, olha no espelho como Dionísio o fez para se tornar igual a Dionísio e morrer com ele.

6. A neófita, após receber a anunciação, tornar-se-ia a noiva mística de Dionísio; para representar simbolicamente esse casamento ela está prestes a descobrir um imenso phallus que trouxe consigo em um cesto sagrado. Ela o coloca no solo e parece humildemente suplicar o assentimento de uma figura alada seminua, calçada com suas botas dionisíacas, com um rolo ritual na cintura e uma vara na mão. É Talatéia, a filha de Dionísio, a personificação e executora da iniciação.

7. Talatéia mantém seu gesto com a mão e levanta a vara, enquanto a donzela ajoelha atarantada e terrificada, com o rosto escondido na capa de uma sacerdotisa compassiva, para sofrer a flagelação ritual que substitui e simboliza a morte. Fisicamente ela não morre, mas passa simbolicamente pela morte e morre misticamente, assim como os estigmatistas morrem crucificados em Cristo.

8. Morta com Zagreus, ela renasceu agora com ele; ou seja, tornou-se uma bacante e não é mais uma mulher, mas um ser humano divino. Nós a vemos agora nua e dançando freneticamente, ajudada por uma sacerdotisa que segura o tirso, o símbolo da nova vida dionisíaca. O espírito de Dionísio desceu a ela. O Homem se tornou Deus e Dionísio está presente, despercebido, no milagre. Observamo-lo no espaço entre a quinta e a sexta cenas, semi-reclinado na capa de Koré, com um pé descalço de acordo com o rito, contemplando com divina indiferença tudo o que o homem pode sofrer por ele. Assim o mistério é visto.
A Basílica Órfica, o grande salão, era o vestíbulo da iniciação ou stibade e nele se entrava pela pequena entrada após os sacrifícios preparatórios terem sido realizados nas salinhas adjuntas, como provado pelos fragmentos de sacrifícios encontrados ali. Após entrar no stibadium e receber a iniciação, os neófitos passavam pela larga porta do terraço, onde se poderia supor que havia um banquete em uma celebração festiva do evento. Esse arranjo corresponde ao Baccheion órfico descoberto em Atenas. Para formar essa basílica privada, seus organizadores aproveitaram o triclinium e os dois cubicula adjacentes, rearranjando-os e decorando-os com pinturas apropriadas à sua nova proposta, não tendo sido sem razão o fato de sua localização numa villa suburbana. Os Mistérios órficos foram, como sabemos, proibidos pelo Senatus Consultum (De Bacchanalibus) após eles terem dado origem a escândalos; mas o ponto mais curioso é que, de acordo com Livy, esses escândalos aconteceram precisamente na Campânia e as iniciações eram femininas e aconteciam de dia. Nossa liturgia nos mostra a iniciação de uma mulher e a enorme janela prova que a iniciação era feita à luz do dia. Essa Basílica Órfica, em tempos passados o lugar secreto de encontro do iniciado, permite-nos hoje penetrar nos segredos dos Mistérios gregos.”

Investigações mais recentes mostraram que essa vila pertencia a alguém da família imperial; a grande sacerdotisa nos afrescos foi identificada como um retrato da proprietária, embora seu nome ainda não tenha sido averiguado. Mostrei uma foto desses afrescos a uma bruxa inglesa, que a olhou muito atentamente antes de dizer: “Então eles já conheciam o segredo naquele tempo”.
Todos esses antigos mistérios tinham muito em comum. Eram frequentemente os meios pelos quais uma pessoa passava de uma classe para outra; tornavam casadeira uma mulher, por exemplo. A maioria, porém, estava ligada a uma vida futura, mas isso era mantido secretamente.

Imagino que todos os sacerdotes dos tempos antigos foram regenerados, tornados santos de modo semelhante, e por vezes também alguns leigos; se isso fazia deles sacerdotes menores, eu não sei. Em Atenas, sabemos que praticamente toda a população grega era iniciada, incluindo os escravos, e que o Estado pagava as taxas dos pobres; mas nenhum estrangeiro jamais foi iniciado e os segredos eram protegidos por lei, pois achavam que isso era necessário para o bem do Estado. Também sabemos que eles mantinham secretos os nomes dos deuses. Escritores cristãos estavam acostumados a falar desses mistérios como orgias, e Chesterton, falando das Bacantes de Eurípedes, diz: “Hoje em dia, imaginem o primeiro-ministro indo com o arcebispo de Canterbury dançar com belas desconhecidas em Hampstead Heath”. Mas eles o faziam porque os deuses queriam e não apenas por prazer, embora sem dúvidas eles gostavam daquilo.

Hoje em dia as pessoas se chocariam pensando que eles gostavam daquilo, ou mesmo que eles tomavam ar fresco e faziam exercício com a prática, como os judeus ficaram altamente chocados por Cristo violar o Shabbath.
Há uma história de que o padre Lachaise absolveu o rei Luís XIV com as menores penitências por massacres a sangue-frio e coisas do tipo, que ele achava perfeitamente natural praticar; mas ficou extremamente chocado e deu uma penitência pesadíssima porque, após uma batalha, Luís comeu uma torta em uma sexta-feira, sem saber que havia pedacinhos de carne nela.

Logo, quando os antigos escritores que foram iniciados dizem que “todos os mistérios são o mesmo”, certamente isso queria dizer que a essência interna era a mesma. Um pagão, examinando as várias seitas cristãs, católicos, romanos e ortodoxos, presbiterianos, metodistas e Igreja das Igrejas da Inglaterra, diria que no cerne são todas a mesma. Eles todos adoram o Deus Trino, o Pai, o Filho e o Espírito santo, embora alguns prestem mais honras à Virgem e aos Santos que outros. As pessoas que cultuam dessa forma são no geral boas e merecedoras e, obviamente, não cultuariam assim se a religião fosse má; dessa forma vemos que, já que os maiores e melhores homens do mundo antigo pertenciam aos iniciados, podemos estar certos de que os mistérios não eram apenas orgias. Realmente sabemos, como mostrado acima, um pouco sobre o que eles eram. Lewis Spence, em sua Occult Enciclopaedia, diz:

“Pinturas, mosaicos e esculturas mostram as iniciadas nuas, uma carregando milho, outra fogo, algumas, cestas sagradas com serpentes, mulheres, ou deusas, iniciando os homens... estes eram cultos secretos em que algumas pessoas eram admitidas após preparação preliminar... Depois dessa comunicação ou exortação mística (a Declaração), a revelação de certas coisas sagradas, então a comunhão com a Deidade... mas os mistérios parecem girar em torno da representação semi dramática de uma peça de mistério da vida do deus”. Acho que é, ao menos, plausível acreditar que tudo aquilo não era apenas representação, mas que havia uma séria razão por trás. Que eles acreditavam que, enquanto os deuses os quisessem bem, eles não eram todo-poderosos, que eles precisavam da ajuda do homem; que realizando certos ritos o homem lhes dá poder; também que os deuses desejavam que os homens fossem felizes e que os atos que davam prazer aos homens davam aos deuses alegria e poder, que eles poderiam aplicar em uso próprio assim como em benefício do homem. (Os deuses precisavam dos adoradores como os adoradores precisavam dos deuses. Suas energias reprodutivas eram recrutadas, então o homem tinha de sacrificar a eles o que fosse mais másculo no homem.) As danças selvagens mostravam que os deuses queriam que o homem (incluindo o primeiro-ministro e o arcebispo de Chesterton) fosse feliz, e não que fosse puritano. Essa dança extática também produzia poder e visões do futuro, algumas das quais se tornavam verdade. Por essa razão, os ritos eram valorizados pelo Estado e protegidos por lei, de forma que nenhum estrangeiro pudesse vir a conhecê-los. Evidentemente, os sacerdotes e sacerdotisas que podiam prever o futuro, embora de maneira turva, e que poderiam acalmar os mais perigosos políticos e faze-los trabalhar para o Estado em vez de se esforçar para corrompê-lo, eram os mais valiosos. Por outro lado, se a existência desse poder fosse conhecida, o segredo poderia ser descoberto e usado por inimigos, para causar um rompimento político como um senso de pacifismo ou a rendição do inimigo. (Jâmblico, em seus Mistérios, diz: “Se alguém sabe como, pode pôr em movimento forças misteriosas que são capazes de contatar a vontade do outro, direcionando suas emoções como o operador deseja; isso pode ser feito com a palavra falada. Cerimônias propriamente realizadas, ou que procedem de um objeto apropriadamente carregado de poder, são chamadas de mágicas”.)

Novamente repito que não afirmo que eles pudessem de fato faze-lo; estou dizendo que as bruxas acreditam que elas próprias podem e acho que as pessoas em Atenas, em altos postos, tinham crenças similares. Pois pessoas em todo o mundo são capazes de fazer certas coisas e acreditam em determinadas coisas em certas circunstâncias, e, como essas crenças podem ocorrer independentemente, mesmo sendo muito semelhantes, suspeito de uma conexão. Espero que muitas pessoas ataquem essa visão e realmente desejo que o façam. Discussão e crítica são os únicos meios de chegar a uma conclusão satisfatória.

O primeiro e maior argumento contra o meu ponto de vista será, eu acho, a crença de que “para ganhar poder e fazer as pessoas parar de pensar em suas misérias, os sacerdotes e reis encorajaram os maiores excessos”. Na África de hoje em dia, a ação de missionários e do governo, esmagando as grandes danças tribais, são tidos como responsáveis pela intranquilidade política e pelas campanhas de assassinato. E é certo que os mistérios tornaram a população feliz e quieta. É de conhecimento de todos que por vezes havia orgias entre eles; ninguém tenta negar os fatos; mas se eles são ou não mais que boêmios ainda é um ponto controvertido. Algo, usualmente vinho, era bebido, mas creio que por lei deviam ser duas partes de vinho e três partes de água, e não se pode aumentar muito a libertinagem desse modo. Eles dançavam freneticamente e é possível que algum tipo de casamento sagrado se realizasse, mas consistia principalmente em longos serviços religiosos e em prolongadas e cansativas procissões.

Esses não são segredos protegidos por lei, ou proibidos de ser vistos por criminosos ou estrangeiros. Hoje em dia seria diferente. A imprensa se concentraria nas partes quentes; o país se movimentaria em torno disso; todo tipo de união das mulheres, conselhos do país e sociedades de proteção ao Dia do Sabá entrariam em acordo e toda a maquinaria da lei seria movimentada para evitá-lo. Mas naqueles dias ninguém teria pensado em nada disso! Qualquer um podia ter uma orgia na própria casa. Qualquer um tinha liberdade de abrir uma boate em casa, ter quantas belas escravas lhe agradasse para distrair os convidados; não havia absolutamente nenhuma inibição, sendo que o resultado era que cada um, após fazer suas loucuras de mocidade, repousava em uma vida pacífica de casado, tendo à mão muitos lugares onde pudesse liberar a pressão se quisesse. Imagino que não foi por causa de repressões que todo o povo se uniu; e elas não eram motivo para fugir das esposas, pois houve esposas e filhas e avós e sogras e todas guardaram segredo; e isso continuou por cerca de mil anos. Quando os mistérios vieram a Roma, é verdade que criminosos conseguiram infiltrar-se neles e que houve problemas; removendo-os, o culto continuou bem. Infelizmente, os romanos eram grandes glutões e bebedores e bebiam comumente vinho sem diluir, ao contrário da tradição mediterrânea usual. Mas no todo, os mistérios parecem ter produzido um grande efeito, embora não o mesmo que fizeram na Grécia. Provavelmente, a razão era que, devido aos primeiros excessos e à vinda do cristianismo, os verdadeiros segredos fossem comunicados apenas a uns poucos. Ao menos é o que penso, e eu gostaria de ouvir comentários sobre esse assunto. Mas em seu verdadeiro estado acho que os mistérios eram realmente bons. Porfírio, Jâmblico, Sinésio, todos se referiram a eles e a seus objetos e revelações. “De que a doença do espírito consiste, por que causa está entorpecido, como pode ser clarificado, pode ser aprendido a partir de sua filosofia. Pois pelas abluções dos mistérios a alma se torna liberada e passa a uma divina condição de ser, de forma que a disciplina de bom grado suportada se torna de maior utilidade para a purificação”, diz Platão.

Ele continua: “Entrando no interior do templo, imoto e guardado pelos ritos sagrados, eles genuinamente recebem em seu âmago a divina iluminação e, despidos seus trajes, participam da natureza divina”. O mesmo método aparece nas especulações de Tales (ver Proclus na teologia de Platão, vol. I, e Ede anima ae daemona, Stoboeus, traduzido pelo Dr. Warbarton): “A mente é afetada e agitada na morte, da mesma forma que na iniciação aos mistérios, e palavra responde a palavra, assim como coisa a coisa: pois para morrer, para ser iniciado, é o mesmo; com hinos, danças e conhecimento sublime e sagrado, coroados e triunfantes eles andam nas regiões do abençoado”.

Mas também se disse: “Os ritos não são igualmente bons para todos; há mais seguradores de tirso que almas báquicas. Muitos têm o fogo realmente, sem o poder de o descobrir”; ou seja, “nem todos são verdadeiros iniciados”. “Quem pode questionar o extraordinário poder da mulher sobre o homem? Por mais que seja questionado ou considerado, esse permanece o irresistível fator da vida. Esse poder é um dom divino; induz mais do que simplesmente atração sexual. Com qualquer mulher, jovem. Bela e vivaz, sua influência para o bem ou para o mal é devastadora. Quando movida por altos princípios e propósitos, a espécie feminina pode elevar e enobrecer o homem”. (A Suggestive Inquiry, etc., por A. J. Attwood). Não apenas nos sacrifícios aos deuses geradores, mas na adoração de todo deus em cerimônias religiosas dos gregos e de todos os povos antigos, havia festas alegres e envolventes, danças em honra dos deuses e regozijo geral, com a exceção dos judeus recentes e possivelmente dos egípcios: muitos dos festivais egípcios eram alegres mas alguns não o eram, porque eles tinham muitos e diversos deuses. É altamente provável que os primeiros ritos judeus fossem festivos também, embora os reformadores constantemente se esforcem por abolir toda menção ao assunto, e não há dúvida de que a Bíblia foi alterada indevidamente com esse fim.

Texto extraído do Livro: A Bruxaria Hoje - Gerald Gardner. Capítulo VII, pag 65 ao 74.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Lenda da Descida da Deusa.

A Lenda da Descida da Deusa
Extraído do Livro: Wicca - A Bruxaria Saindo das Sombras.

Nos tempos antigos, nosso Senhor, o Cornífero, era (e ainda é) o Consolador, o Confortador. Mas os homens o conheciam como o terrível Senhor das Sombras, solitário, inflexível e justo. Mas nossa Senhora, a Deusa, resolveria todos os mistérios, até mesmo o mistério da morte; e assim ela viajou até o mundo Subterrâneo. O Guardião dos portais a desafiou: “Tira tuas vestes, põe de lado tuas jóias, pois nada tu podes trazer contigo ao interior desta nossa terra.”
Assim, ela se despojou de suas vestes e de suas jóias, e foi amarrada, como todos os vivos que buscam ingressar nos domínios da morte, a Poderosa, têm que ser. Tal era a beleza dela que a própria Morte se ajoelhou e depositou sua espada e sua coroa aos seus pés...
... e beijou seus pés, dizendo: “Abençoados sejam teus pés, que te trouxeram por estes caminhos. Permanece comigo, mas deixa que eu ponha minhas mãos frias em teu coração.”
E ela respondeu: “Eu não te amo. Por que fazes todas as coisas que amo e nas quais me delicio venham a fenecer e morrer?”

“Senhora” – respondeu a Morte – “trata-se da idade e da fatalidade, contra as quais sou impotente. A idade, o envelhecimento, leva todas as coisas a definharem; mas, quando os homens morrem ao desfecho de seu tempo, concedo-lhes repouso, paz e força para que possam retornar. Mas tu, tu és linda. Não retornes, permanece comigo.” Mas ela respondeu: “Eu não te amo.”
E então disse a Morte: “Se não recebes minhas mãos sobre teu coração, tens que te curvar ao açoite da Morte.” “É a fatalidade, melhor assim...” – ela disse e se ajoelhou. E a Morte a açoitou brandamente.
E ela bradou: “Eu conheço as aflições do amor.”
E a morte se ergueu e disse: “Sejas abençoada.” E lhe deu o beijo quíntuplo, dizendo: “Assim apenas pode atingir a alegria e o conhecimento.”
Então a Morte desamarra os seus pulsos, depositando o cordel no chão. E ele a ela ensina todos os seus mistérios e lhe dá o colar que é o circulo do renascimento.
A Deusa, então, toma a coroa e a recoloca na cabeça do Senhor do Mundo Subterrâneo. E ela ensina a ele o mistério da taça sagrada, que é o caldeirão do renascimento. A Deusa toma o cálice em ambas as mãos, eles se entreolham, e ele coloca ambas as mãos nas mãos dela. Eles amarram e tornam um, pois há três grandes mistérios na vida do homem, e a magia controla todos. Para realizar o amor tens que retornar novamente no mesmo tempo e no mesmo lugar daqueles que são os amados; e tens que encontrá-los, conhecê-los, lembrá-los e amarrá-los de novo.
O Senhor do Mundo Subterrâneo solta as mãos da Deusa e esta recoloca o cálice em seu lugar. Ele toma o açoite em sua mão esquerda e a espada na sua mão direita e fica na posição do Deus, antebraços cruzados sobre o peito, espada e açoite apontados pra cima. Ela fica na posição de Deusa, pernas escarranchadas e braços estendidos formando o pentagrama.
Mas para renascer tens que morrer e ser preparado para um novo corpo. E para morrer tens que nascer, e sem amor não podes nascer. E nossa Deusa sempre se inclina para o amor, e o júbilo, e a aventura; e ela protege e acaricia suas crianças ocultas na vida, e na morte ministra o caminho da comunhão com ela; e mesmo neste mundo ela lhes ensina o mistério do Círculo Mágico, que é disposto entre os mundos dos homens e dos Deuses. E assim nós somos ensinados a cada começo da Roda do Ano em que o Senhor e a Senhora compartilham o comando do ano, cada um oferecendo e compartilhando de equilíbrio para com o outro, que são as bases do compartilhamento.


                                          Extraído do Livro: Wicca - A Bruxaria Saindo das Sombras, pag 92, 94.
                                                    Escrito por: MillenniuM.'. - Direitos Reservados ao Autor.

sábado, 17 de janeiro de 2015

A Fé Pagã - Final


A FÉ PAGÃ
extraído do livro: Feitiçaria - A Tradição Renovada.

Como muitas coisas na Arte, os poderes de cura são equilibrados pelos poderes de maldição. Na verdade, o poder invocado em ambos os casos é um só e o mesmo, diferindo no resultado. Em vez de transmitir o poder do bem por intermédio da cura, transmite o poder do mal por meio do ódio. A técnica usada é exatamente a mesma, e, se a Deusa concordar com a maldição, há aquela sensação sutil de uma barreira se afastando e das ondas frias e escuras do ódio pulsando no grupo e para além dele. Novamente, há o momento certo para realizar esse tipo de.
trabalho e, mais uma vez, esse momento é governado pela fase lunar. Como foi dito, a época para amaldiçoar ocorre durante a fase escura da Lua. Essa fase significa o lado escuro da Deusa, sob a forma da Velha Bruxa ou do Anjo da Morte. Com essa aparência é aquela que cobre a sua ninhada com os ossos dos poetas, a figura de Sheela-na-Gig com os órgãos sexuais que devoram. Do seu ventre parte toda a vida — e com a vida vem a morte. Nesse aspecto é a Deusa da Vingança.
Para invocar esse aspecto da Deusa, qualquer grupo ou coven deve ter certeza de que existe uma causa que justifique esse tipo de trabalho e essa súplica por justiça. Uma vez invocado e colocado em movimento esse lado da Deusa, muito será exigido do grupo. Por meses, ele se sentirá achatado e vazio. É rompida a conformidade e a harmonia que devem fazer parte da psique do grupo ou do coven, e, em alguns casos, pede-se um ano inteiro de trabalho. Somente o tempo pode curar. E, se o trabalho tiver sido de natureza particularmente pesada, deve-se realizar um ritual completo de purificação a fim de deixar para trás todas as influências negativas geradas pelo rito da maldição.
Vocês não lerão nestas páginas nenhum ritual de maldição, porque eles são nosso e para nosso uso exclusivo. Quem desejar amaldiçoar terá que os descobrir de outra maneira. Mostrarei posteriormente o ritual de purificação. Ele poderá ser usado não somente após algum trabalho particularmente pesado, mas também para ajudar membros ou amigos que estão totalmente desanimados, sentindo-se como se estivessem sob alguma influência maligna. Um simples fato de o ritual estar sendo realizado muitas vezes gera impulso psicológico que ajuda a superar as más sensações.
Sei que um dos possíveis comentários é que o conceito de trabalhar ligado às fases lunares e aos diferentes aspectos da Deusa está ultrapassado e pode ser considerado um tanto primitivo.
Concordo que seja primitivo, mas esses conceitos resistiram ao teste do tempo. Assim como a natureza e a vida são ciclos de eras e estações, da mesma maneira é a Deusa. Em cada uma das fases, Ela representa uma faceta da vida: juventude, maturidade, velhice, morte e o tempo escondido antes do renascimento. Ao trabalhar para determinados fins dentro da estrutura desses aspectos do Seu ciclo, experimenta-se a sensação de continuidade, compreensão e envolvimento instintivo. Uma das características da Arte é o conhecimento de quando trabalhar, de por que trabalhar em determinada época e das razões por que certa duração de tempo é a conveniente.
Pode-se discutir, teorizar, entrar em todos os tipos de razões e explicações intelectuais, mas existe um fato que ninguém p ode deixar de considerar ou ignorar: os instintos e o coração falam mais alto e mais verdadeiramente do que qualquer teoria intelectual. Os conceitos e os trabalhos estabeleceram-se, no passado, porque funcionaram, e o próprio tempo não invalidou a verdade neles contida.

***Fim***

Texto extraído do livro: Feitiçaria - A Tradição Renovada. pag 23 ao 47. Na íntegra.

A Fé Pagã - 5° parte do texto.


A FÉ PAGÃ
extraído do livro: Feitiçaria - A Tradição Renovada.

Existe uma forma de manifestação muito conhecida, mas raramente praticada. É a conjuração de espíritos de vibração inferior, tidos pelos cristãos como demônios. Embora reconheça que isso possa ser realizado, do meu ponto de vista pessoal, considero algo extremamente perigoso de participação. E que, de certa forma, nega todo o objetivo do nosso trabalho. Acredito que os objetivos do meu antigo grupo ainda sejam parcialmente válidos para mim. No passado, tomávamos, enquanto grupo, a decisão consciente de nos afastar dos trabalhos rituais e nos voltar para o lado místico e devocional da fé. Optando pelo caminho da conjuração, a pessoa está buscando o poder não para compreendê-lo, mas somente pelo próprio poder.
Ocasionalmente esse tipo de utilização conduz ao abuso do poder e, inevitavelmente/à auto-ilusão e à autodestruição. Acredito firmemente que não haja espaço para esse tipo de trabalho mágico nesse livro. Quem desejar trilhar esse caminho terá que o descobrir sozinho.
Há outra forma de manifestação espiritual que não foi mencionada nesse capítulo. A razão é que está baseada nos mitos do crânio. Como existe um relacionamento complexo entre a história, a fé e os mitos, é melhor tratar esse assunto em um capítulo à parte. Em algum estágio do desenvolvimento do trabalho de um grupo ocorrerá a maior experiência entre todas — o contato com a Deusa. Ela verdadeiramente coloca sobre nós a sua mão, e, desse momento em diante, a fé em sua existência transforma-se em certeza. A cada reunião o grupo a invocará para vir inspirá-lo.
Raramente essa prece é respondida. Muitas vezes o primeiro sinal físico de Sua presença ocorre durante a consagração do vinho pelo sacerdote e pela sacerdotisa. Quando a faca é imersa no vinho, num ato de união sexual simbólica, parece subir uma luz azul-pálido de dentro da taça. Em alguns segundos, o vinho é transformado em algo mais do que simples vinho, repleto de conhecimento, sabedoria e inspiração do Seu caldeirão. Cada pessoa que toma daquela taça sente sutil mudança dentro de si.
Embora cada um a sinta de modo individual, o conhecimento
comum e partilhado por todos de que houve uma mudança percorrerá todo o grupo.
Por que isto acontece em alguns encontros e em outros não é um dos mistérios da fé. Por que em determinado momento é outra das perguntas sem resposta. Talvez seja a estrutura dos membros trabalhando no ritual naquele dado momento. Talvez isto se manifeste somente para certas pessoas dentro do grupo. Como pode ocorrer em um Sabá ou em um Esbá, não podemos determinar. Tudo o que pode ser dito é que há possibilidade de acontecer e realmente acontece, e, embora afete as pessoas de várias maneiras, o tema comum é que os presentes costumam ter uma pergunta pessoal ou uma dúvida de fé respondida. Algo comum a todos os contatos dessa natureza é a conscientização e a sensação de ter sido tocado por algum poder absoluto e infinito. Mesmo havendo a sensação de amor e compaixão fluindo pelo contato, persiste a aura de distância fria, remota e atemporal da Deusa. Por trás do nosso conceito da Deusa e da maneira que escolhemos vê-la, há outro poder ainda mais remoto, que é a força da vida e o espírito do universo. Um aspecto da Arte amplamente comentado na busca do lado místico da fé é a capacidade de curar e de amaldiçoar.
Unir esses pontos pode parecer estranho a princípio, mas, na verdade, são os dois lados da mesma moeda do conhecimento clássico sobre as ervas. A bruxa pode reivindicar ser descendente da sacerdotisa-curadora do antigo Egito e das culturas orientais.
Como a religião e a medicina tornaram-se cada vez mais orientadas e dominadas pelos homens até que fossem finalmente separadas, o papel da sacerdotisa-curadora foi diminuindo, embora seu conhecimento das ervas continuasse extenso. O tempo e o surgimento da profissão médica exclusivamente masculina, juntamente com o Cristianismo, reduziram essa arte ao nível em que a bruxa-curadora era retratada como a grande anciã má, destilando suas poções para ajudar numa maldição. O fato de a vítima algumas vezes morrer após o esconjuro, certamente, reforçou essa imagem. Mas por trás encontramos um conhecimento mágico e herbáceo que por séculos foi a única forma de auxílio médico disponível para o povo. A mulher que já tinha vários filhos e não queria mais um, consultava a mulher mais velha e mais sábia da aldeia, com seus amuletos, encantamentos e doses de ervas. Encantamento feito, aborto realizado, e a reputação da mulher aumentava.
Atualmente o papel curador da feiticeira praticamente não existe mais. Mas há outra face ou faceta da cura — o poder da cura a distância — que ainda é parte importante dos trabalhos do círculo. Hoje em dia há aceitação dentro da igreja cristã da cura pela fé, da impostação de mãos para curar. Na Arte, o conceito de capacidade de realizar rituais e enviar ondas de poder curador é prática aceita, que funciona da mesma forma que a maldição dirigida. Mais uma vez surge a mesma pergunta sem resposta: "Por que funciona?"
Não sei por que, mas funciona, tanto em nível individual como no de grupo. Em pelo menos duas ocasiões trabalhei individualmente e junto com o coven. Numa das vezes, "peguei" um resfriado no telefone, usando o antigo método de Norfolk de atar a doença num pedaço de fio. O aspecto impróprio deve ser passado adiante. Ao desatar o fio, deixando-o solto, a primeira pessoa a segurá-lo "pega" o resfriado. Quando trabalhei junto com o coven, eu nunca tinha visto a pessoa anteriormente. Tudo que sabia é que iríamos fazer uma cura. Mais tarde, quando conheci a pessoa e ela descreveu a sua cura na autobiografia, foi que compreendi com quem tínhamos trabalhado e qual havia sido o resultado. Devo acrescentar que, em muitos casos, a cura a distância simplesmente não funciona. Há várias teorias para explicar por que a cura acontece ou não, ligadas principalmente à fé, a estados mentais, etc. Como acontece com muitos outros que já refletiram sobre o assunto, tenho minha própria teoria.

Em determinado plano todas as pessoas possuem estoque de poder ou energia latente à espera de ser acionado. Com o treinamento, tornam-se capazes de, ao observar alguém, ver, com a mente, quadro ou cor da área com problema. Ao trazer a energia contida no seu interior para fora sob a forma de ondas, conseguem alterar a cor da área afetada para matiz mais saudável e mais brilhante. No meu caso, sou capaz de identificar uma área doente, que, para mim, apresenta aura verde. Vejo a cura sob a forma de uma luz dourada e morna. Visualizo essa luz diluindo gradualmente a área verde até que essa não mais exista. Não significa que, com esse método, posso curar tudo e qualquer coisa. Não posso e nem gostaria de fazê-lo. Utilizar essa força ou poder de maneira prolífica somente a enfraqueceria e a dispersaria.
Como todos os poderes individuais, primeiro deve ser descoberto, desenvolvido e, então, usado com parcimônia. O dom está em não os utilizar aleatoriamente, mas saber que existem e podem ser usados. Como acontece com todas as coisas ligadas à Arte, há um preço para usá-los. Um dia você descobrirá tentando curar algo, que deveria ser deixado para a medicina ortodoxa tratar, e falhará.
Em outro plano, um ritual de cura de um grupo ou coven é um apelo direto à Deusa para que intervenha em uma doença. Em geral é realizado para um amigo, alguém muito estimado ou membro do grupo. Como deve ser realizado é decisão dos diferentes grupos. Alguns gostam de ter a fotografia da pessoa em questão, outros preferem algo mais pessoal, como cabelo, pedaço de unha ou objeto íntimo e querido emprestado para a ocasião.
Alguns grupos descobrem que trabalham bem sem objetos, preferindo usar algum elo mental em vez de físico. Como ocorre com todas as coisas dessa natureza, a hora do trabalho é importante. Sendo um seguidor da Deusa da Noite, vejo nas fases lunares uma manifestação física da Senhora em todos os seus aspectos. Na lua crescente a Senhora é a Jovem Virgem. A lua cheia representa a Magna Mater. A lua minguante é a fase da velha Feiticeira, ou a Destruidora. A escuridão da Lua é seu lado escondido, época de trabalhos negros. Não tento mais fazer cura durante a fase escura da lua, como também não farei maldição durante a época da Lua cheia. Em ambos os casos estarei trabalhando na ocasião errada.
Para a cura, o momento correto é quando a Lua está na fase crescente para cheia. É o aspecto da Deusa como Jovem Virgem, crescendo consciente do desenvolvimento dos seus poderes que conduzem à sabedoria, compaixão e compreensão encontradas na figura materna madura, bela e adorável. É para esse aspecto da Deusa que nos voltamos quando buscamos ajuda, compreensão e, acima de tudo, compaixão. No círculo, quando a Dança do Moinho é realizada, todos focalizam a mente naquilo que está sendo pedido. A princípio parece que nada está acontecendo. Então, ocorre uma sensação sutil de mudança na temperatura e de estar sendo observado por uma barreira escura, macia e impenetrável que, de repente, se desfaz. Onda após onda de poder flui para o grupo, através do grupo e para fora do círculo. Daquele momento em diante todos no círculo sabem que o ritual agiu, que a Deusa atendeu ao apelo. Tudo o que fica é a sensação de retirada de energia, de cansaço, vazio e esgotamento. Por semanas seguidas após esse tipo de trabalho permanece a sensação de que algo foi retirado do grupo. Muitas pessoas sentem-se fechadas e fora de contato. É um momento de repouso, quando as baterias psíquicas precisam de um tempo para se recarregar.

Continua>>>>

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