sábado, 17 de janeiro de 2015

A Fé Pagã - 4° parte do texto.


A FÉ PAGÃ
extraído do livro: Feitiçaria - A Tradição Renovada.

Antes de investigar mais a fundo o assunto, devemos esclarecer um ponto. Existem duas formas de magia. Uma é a magia do ser. A outra é a dos efeitos sobrenaturais, utilizada no decorrer de determinados rituais. A primeira é conseguida por meio da liberação, de maneira controlada, das forças interiores do ser. A outra é manifestação de poder exterior por meio da criação de uma entidade, energia ou força que desafia uma explicação lógica dentro da estrutura desta existência atual. São coisas que não podem ser explicadas de maneira satisfatória nem relegadas ao acaso simplesmente.
A magia do ser não é somente questão de aprender algum grande segredo esotérico, mas, sim, a redescoberta das faculdades adormecidas que são parte da herança genética transmitida a nós no passado remoto. Quais são estas faculdades? Telepatia, precognição, adivinhação, capacidade de reconhecer e interpretar os presságios sob a forma de fenômenos naturais e ser capaz de reconhecer e responder aos instintos que não têm fundamento lógico no pensamento racional.
Os animais que vivem nas encostas de um vulcão ativo mostram sinais de medo e pânico antes de uma erupção. Pássaros e animais selvagens deixam a área em perigo. Os animais domésticos mostram sinais de tensão e medo. Sabem, à sua maneira indistinta e instintiva, que algo terrível está para acontecer. Somente o homem ignora voluntariamente esses presságios naturais, confiando no acesso empírico e na exploração antes de reagir; daí ser constantemente apanhado de surpresa.
Considera, então, um desastre, a "vontade de Deus", e ignora o fato básico de que, dentro da formação do homem, está a faculdade de reconhecer e reagir aos presságios naturais. Os
seres humanos, em seu avanço ao longo da civilização materialista, negligenciaram e deixaram para trás, na inconsciência, esses presentes. Por isso, quando uma pessoa é avisada de um perigo, e esse acontece, a reação é de surpresa. Em uma extensão maior ou menor, todos possuímos esses poderes latentes. Por exemplo: na leitura das cartas do taro, algumas pessoas têm desempenho médio, enquanto outras apresentam leitura que vai muito além das expectativas. No meu caso, uma consulta permitiu-me compreender que eu estava trabalhando em algo que seria bem-sucedido, mas que, no final, eu deveria deixar a taróloga continuar sozinha e nada mais esperar quanto ao assunto. Não que eu quisesse, mas aconteceu exatamente como tinha sido dito, e não houve nada que eu pudesse fazer. A pessoa que fez a leitura foi capaz de ver muito na caída das cartas e de apresentar mais do que uma interpretação mecânica porque tinha a capacidade de prever o futuro e aprimorou essa faculdade através da prática constante.
Na busca da magia do ser, todos os caminhos devem ser explorados. Algumas pessoas descobrirão que são melhores com determinado tipo de adivinhação do que com outro. Por mais que me tenha exercitado, nunca consegui resultado acima da média ao tentar descobrir o número de cartas que receberia no dia seguinte, enquanto conhecidos meus apresentavam aptidão bem acima do esperado. A previsão do número de cartas que será recebido nada mais é do que aprimoramento de uma faculdade natural.
Uma capacidade que desenvolvi é a de "observar de longe". Algumas pessoas dizem que isto não é possível, mas como tenho o dom, eu o utilizo. Ao acender uma vela num ambiente obscurecido e usado como ponto para concentração, crio uma imagem mental do local onde sei que a pessoa que estou "observando" deve estar. Em um determinado ponto, não vejo mais o quadro mental, mas imagem real do que está acontecendo. Se a pessoa não estiver lá, eu saberei, p orque, no caso de um apartamento ou de uma casa, estará vazio. A princípio pensei que fosse difícil fazê-lo e via somente o acontecimento mediante uma série de lampejos. Mas a cooperação de um amigo unida à prática capacitou-me a ver os locais por períodos cada vez mais longos.
Agora, com freqüência, quando estou sentado sem fazer nada em particular, começo a "captar" acontecimentos ligados a pessoas de minhas relações. Parte de qualquer avanço individual é a compreensão de que, dentro de cada ser, estão submersos instintos ou faculdades em estado latente. Após compreender e aceitar isto, o passo seguinte é traze-los à superfície, explorá-los e começar a utilizá-los como parte de uma herança mística que é direito inato de todo indivíduo. Um ponto a ser lembrado é que essas faculdades não devem nunca ser o único objetivo a ser trabalhado interiormente. São parte de você enquanto pessoa. A capacidade de entendê-las e de usá-las como um estágio na abertura e compreensão do ser deverá ser o principal objetivo ao desenvolvê-las. Elas criam dentro da pessoa a extensão e as limitações que podem ser atingidas na realização do seu próprio potencial.
Outra forma de magia, a do círculo, é completamente diferente da magia do ser. Não é somente diferente; lembra a fabulosa Espada de Dámocles. Em filmes de terror, vemos o arquétipo do mago negro que, no final, é destruído por suas próprias artes negras. O mesmo pode ocorrer com a magia do círculo. A natureza inerente ao círculo mágico é a de um poder natural, potencialmente perigoso, embora neutro, que no caso de mau uso constante pode repercutir e repercute no praticante. A compreensão de que existe poder ou força que pode ser liberado, utilizado e manipulado por um grupo de trabalho ou por um mago solitário conduz, muitas vezes, à pretensão de que, em virtude de os resultados passados terem sido bons, o grupo ou a pessoa em questão possui algum direito divino de usar esse poder quando achar necessário. Não é bem assim. Qualquer mago é, até certo ponto, servidor daquele poder, mesmo quando, exteriormente, parece dominá-lo. A lição a ser aprendida no exercício de qualquer forma de poder mágico não é saber que se o pode executar, mas que aquele poder está ali para ser exercitado com responsabilidade, respeito e, acima de tudo, com restrições. Pensar de outra forma é o primeiro passo no caminho da auto-ilusão e possível autodestruição.
Então, o que é esse poder? Na essência, poder mágico é uma manifestação física da Divindade que se decide revelar à
congregação por meio de determinados rituais e cerimônias, e de várias maneiras. De certa forma, é um contato espontâneo com a Deusa em nível mais elevado. De outra, é um contato espontâneo com os espíritos mais elementais ou com os aspectos dos deuses e deusas do mesmo tempo e local. De outra, ainda, o poder pode surgir dentro do círculo a fim de ser deliberadamente direcionado e manipulado para determinado fim, em geral como força do bem ou do mal, para ajudar ou prejudicar. Esse é o poder em sua forma mais perigosa, havendo a necessidade da presença de uma pessoa ou de um grupo conhecedor da manipulação e do direcionamento, além de ligado a esse tipo de magia. Provavelmente a primeira exposição a um círculo mágico que o recém-chegado à fé experimenta será sob a forma de contato espontâneo que pode ter vários aspectos e estar relacionado a um indivíduo, ao grupo ou a coven como um todo. Pode ocorrer sob a forma de intensa sensação interior, ou expressar-se como manifestação física de alguma forma espiritual reconhecível. Como já vimos, num sentido de grupo, o ritual de trabalho é uma expressão da adoração e devoção à Deusa, embora em determinadas ocasiões toda a sua natureza e sensação possam mudar. Em todos os trabalhos existe uma consciência do mundo exterior, a sensação de que, embora estejamos no círculo, o tempo e o mundo ainda mantêm ligação com o grupo. De repente, toda a natureza do trabalho se altera. O círculo se fecha, dando a sensação de uma barreira definitiva entre os dois mundos. No mundo do círculo, o tempo parece parar. As emoções ficam exacerbadas. O fogo sagrado parece ficar mais brilhante, e a luz que dele emana apresenta uma claridade mais penetrante. Pensamentos, idéias e emoções aprofundam-se e ficam mais reais, e, então, surge aquela onda de poder exterior. Daquele momento em diante, o ritual está nas mãos da Deusa.
Como acontece com todos os contatos espontâneos dessa natureza, todos os presentes sentem esse poder dentro de si mesmos. Pode ser uma sensação de calma e paz, ou de confiança e excitação. Mas a conscientização de que algo exterior está agindo sobre o grupo ou sobre o coven, levando-o a reagir de determinada forma, será sentida por todos.
Dentro dessa sensação generalizada de contato com a Deusa, uma pessoa poderá receber mais do que outras; foi selecionada, de maneira profética, como canal da Deusa. Para mim, isto deve ser tratado com certa cautela, pois algumas vezes as pessoas podem ser tomadas de uma excitação maior pelo encontro e começar a colocar suas idéias em palavras, atribuindo-as à Deusa. Quando alguém entra em estado de transe, é mais recomendável que um dos oficiantes questione, na hora, o que está sendo visto do que o grupo examinar posteriormente tudo que foi dito.
Como em todas as experiências com o oculto, há sempre uma
dúvida subjacente quanto à inteireza da ocorrência. Geralmente as pessoas vêem aquilo que querem ver e ouvem o que querem ouvir; portanto, qualquer contato espontâneo deve ser tratado com certa precaução. Muitas vezes a linha divisória entre a ilusão e a verdade é muito tênue. Realmente, boa parte do trabalho mágico é uma ilusão que se torna realidade. Uma das habilidades da Arte é reconhecer a ilusão e torná-la real dentro do círculo mágico.
A manifestação física é mais difícil de ser definida, por mais estranho que possa parecer. Quando vista por mais de uma pessoa, podemos ficar seguros de que aconteceu alguma coisa. As perguntas são o quê? e por quê? e não são fáceis de serem respondidas. Num ritual que presenciei, em determinado ponto houve a manifestação de uma cabeça. Nenhuma mensagem, somente a cabeça. Passado muito tempo, foi esclarecido o motivo desse aparecimento e o seu personagem. O que eu tinha visto era o Deus dos Ventos soprando sobre as fundações do nosso grupo. Sabia que tinha algum significado; eu podia senti-lo, mas, somente mais tarde, quando os acontecimentos começaram a surgir e o grupo se desintegrou, compreendi que aquela manifestação tinha significado o fim da nossa união. Embora tenha sido uma manifestação espontânea de dimensões definidas, significando determinado fim, houve outra forma melhor de manifestação por intermédio de um membro americano do clã, que a chamou de Companhia Oculta. Nesse caso, a Companhia Oculta a que se referia era mais sentida do que vista, e apenas parcialmente vista: as formas nebulosas pareciam ser parte do trabalho, mas estavam fora da linha de demarcação do círculo. Esse fenômeno significa algo que não acontecerá imediatamente, mas, sim, durante o período do ano subseqüente. É como se esses espíritos tivessem aceito gradualmente os trabalhos do grupo ou do coven como alguma coisa que os unisse à vida ou a caminhos passados. Até que ponto se sentem atraídos pelo grupo ou se o grupo os atrai é dessas perguntas sem resposta. Tudo o que pode ser dito é que eles estão lá e são parte reconhecível dos trabalhos e serviços de veneração da congregação. Em determinado sentido, embora o destino e a direção do coven estejam nas mãos dos membros ativos, há uma sensação distinta de que, até certo ponto, o grupo é dirigido pela Companhia Oculta, nada muito óbvio, mas uma atmosfera de influência sutil trazida para os membros. Em grupos já estabelecidos, freqüentemente os novos membros são submetidos a votação para serem aceitos. No caso de alguém inconveniente, há um sentido definido de hostilidade e rejeição dessa pessoa pela Companhia Oculta. Ignorar essa orientação levará ao enfraquecimento do contato entre os dois mundos, e, se a desarmonia continuar dentro do grupo, o contato será definitivamente rompido. Uma coisa que deve ficar bem clara quanto a essa forma de contato é que não se trata de algo pessoal por intermédio de um membro. Embora possa parecer nebuloso e pouco definido, a presença da Companhia Oculta é sentida por todos e por todos reconhecida. Neste sentido, Ela talvez seja o espírito guardião do coven.

Continua>>>>

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