sábado, 17 de janeiro de 2015

A Fé Pagã - 5° parte do texto.


A FÉ PAGÃ
extraído do livro: Feitiçaria - A Tradição Renovada.

Existe uma forma de manifestação muito conhecida, mas raramente praticada. É a conjuração de espíritos de vibração inferior, tidos pelos cristãos como demônios. Embora reconheça que isso possa ser realizado, do meu ponto de vista pessoal, considero algo extremamente perigoso de participação. E que, de certa forma, nega todo o objetivo do nosso trabalho. Acredito que os objetivos do meu antigo grupo ainda sejam parcialmente válidos para mim. No passado, tomávamos, enquanto grupo, a decisão consciente de nos afastar dos trabalhos rituais e nos voltar para o lado místico e devocional da fé. Optando pelo caminho da conjuração, a pessoa está buscando o poder não para compreendê-lo, mas somente pelo próprio poder.
Ocasionalmente esse tipo de utilização conduz ao abuso do poder e, inevitavelmente/à auto-ilusão e à autodestruição. Acredito firmemente que não haja espaço para esse tipo de trabalho mágico nesse livro. Quem desejar trilhar esse caminho terá que o descobrir sozinho.
Há outra forma de manifestação espiritual que não foi mencionada nesse capítulo. A razão é que está baseada nos mitos do crânio. Como existe um relacionamento complexo entre a história, a fé e os mitos, é melhor tratar esse assunto em um capítulo à parte. Em algum estágio do desenvolvimento do trabalho de um grupo ocorrerá a maior experiência entre todas — o contato com a Deusa. Ela verdadeiramente coloca sobre nós a sua mão, e, desse momento em diante, a fé em sua existência transforma-se em certeza. A cada reunião o grupo a invocará para vir inspirá-lo.
Raramente essa prece é respondida. Muitas vezes o primeiro sinal físico de Sua presença ocorre durante a consagração do vinho pelo sacerdote e pela sacerdotisa. Quando a faca é imersa no vinho, num ato de união sexual simbólica, parece subir uma luz azul-pálido de dentro da taça. Em alguns segundos, o vinho é transformado em algo mais do que simples vinho, repleto de conhecimento, sabedoria e inspiração do Seu caldeirão. Cada pessoa que toma daquela taça sente sutil mudança dentro de si.
Embora cada um a sinta de modo individual, o conhecimento
comum e partilhado por todos de que houve uma mudança percorrerá todo o grupo.
Por que isto acontece em alguns encontros e em outros não é um dos mistérios da fé. Por que em determinado momento é outra das perguntas sem resposta. Talvez seja a estrutura dos membros trabalhando no ritual naquele dado momento. Talvez isto se manifeste somente para certas pessoas dentro do grupo. Como pode ocorrer em um Sabá ou em um Esbá, não podemos determinar. Tudo o que pode ser dito é que há possibilidade de acontecer e realmente acontece, e, embora afete as pessoas de várias maneiras, o tema comum é que os presentes costumam ter uma pergunta pessoal ou uma dúvida de fé respondida. Algo comum a todos os contatos dessa natureza é a conscientização e a sensação de ter sido tocado por algum poder absoluto e infinito. Mesmo havendo a sensação de amor e compaixão fluindo pelo contato, persiste a aura de distância fria, remota e atemporal da Deusa. Por trás do nosso conceito da Deusa e da maneira que escolhemos vê-la, há outro poder ainda mais remoto, que é a força da vida e o espírito do universo. Um aspecto da Arte amplamente comentado na busca do lado místico da fé é a capacidade de curar e de amaldiçoar.
Unir esses pontos pode parecer estranho a princípio, mas, na verdade, são os dois lados da mesma moeda do conhecimento clássico sobre as ervas. A bruxa pode reivindicar ser descendente da sacerdotisa-curadora do antigo Egito e das culturas orientais.
Como a religião e a medicina tornaram-se cada vez mais orientadas e dominadas pelos homens até que fossem finalmente separadas, o papel da sacerdotisa-curadora foi diminuindo, embora seu conhecimento das ervas continuasse extenso. O tempo e o surgimento da profissão médica exclusivamente masculina, juntamente com o Cristianismo, reduziram essa arte ao nível em que a bruxa-curadora era retratada como a grande anciã má, destilando suas poções para ajudar numa maldição. O fato de a vítima algumas vezes morrer após o esconjuro, certamente, reforçou essa imagem. Mas por trás encontramos um conhecimento mágico e herbáceo que por séculos foi a única forma de auxílio médico disponível para o povo. A mulher que já tinha vários filhos e não queria mais um, consultava a mulher mais velha e mais sábia da aldeia, com seus amuletos, encantamentos e doses de ervas. Encantamento feito, aborto realizado, e a reputação da mulher aumentava.
Atualmente o papel curador da feiticeira praticamente não existe mais. Mas há outra face ou faceta da cura — o poder da cura a distância — que ainda é parte importante dos trabalhos do círculo. Hoje em dia há aceitação dentro da igreja cristã da cura pela fé, da impostação de mãos para curar. Na Arte, o conceito de capacidade de realizar rituais e enviar ondas de poder curador é prática aceita, que funciona da mesma forma que a maldição dirigida. Mais uma vez surge a mesma pergunta sem resposta: "Por que funciona?"
Não sei por que, mas funciona, tanto em nível individual como no de grupo. Em pelo menos duas ocasiões trabalhei individualmente e junto com o coven. Numa das vezes, "peguei" um resfriado no telefone, usando o antigo método de Norfolk de atar a doença num pedaço de fio. O aspecto impróprio deve ser passado adiante. Ao desatar o fio, deixando-o solto, a primeira pessoa a segurá-lo "pega" o resfriado. Quando trabalhei junto com o coven, eu nunca tinha visto a pessoa anteriormente. Tudo que sabia é que iríamos fazer uma cura. Mais tarde, quando conheci a pessoa e ela descreveu a sua cura na autobiografia, foi que compreendi com quem tínhamos trabalhado e qual havia sido o resultado. Devo acrescentar que, em muitos casos, a cura a distância simplesmente não funciona. Há várias teorias para explicar por que a cura acontece ou não, ligadas principalmente à fé, a estados mentais, etc. Como acontece com muitos outros que já refletiram sobre o assunto, tenho minha própria teoria.

Em determinado plano todas as pessoas possuem estoque de poder ou energia latente à espera de ser acionado. Com o treinamento, tornam-se capazes de, ao observar alguém, ver, com a mente, quadro ou cor da área com problema. Ao trazer a energia contida no seu interior para fora sob a forma de ondas, conseguem alterar a cor da área afetada para matiz mais saudável e mais brilhante. No meu caso, sou capaz de identificar uma área doente, que, para mim, apresenta aura verde. Vejo a cura sob a forma de uma luz dourada e morna. Visualizo essa luz diluindo gradualmente a área verde até que essa não mais exista. Não significa que, com esse método, posso curar tudo e qualquer coisa. Não posso e nem gostaria de fazê-lo. Utilizar essa força ou poder de maneira prolífica somente a enfraqueceria e a dispersaria.
Como todos os poderes individuais, primeiro deve ser descoberto, desenvolvido e, então, usado com parcimônia. O dom está em não os utilizar aleatoriamente, mas saber que existem e podem ser usados. Como acontece com todas as coisas ligadas à Arte, há um preço para usá-los. Um dia você descobrirá tentando curar algo, que deveria ser deixado para a medicina ortodoxa tratar, e falhará.
Em outro plano, um ritual de cura de um grupo ou coven é um apelo direto à Deusa para que intervenha em uma doença. Em geral é realizado para um amigo, alguém muito estimado ou membro do grupo. Como deve ser realizado é decisão dos diferentes grupos. Alguns gostam de ter a fotografia da pessoa em questão, outros preferem algo mais pessoal, como cabelo, pedaço de unha ou objeto íntimo e querido emprestado para a ocasião.
Alguns grupos descobrem que trabalham bem sem objetos, preferindo usar algum elo mental em vez de físico. Como ocorre com todas as coisas dessa natureza, a hora do trabalho é importante. Sendo um seguidor da Deusa da Noite, vejo nas fases lunares uma manifestação física da Senhora em todos os seus aspectos. Na lua crescente a Senhora é a Jovem Virgem. A lua cheia representa a Magna Mater. A lua minguante é a fase da velha Feiticeira, ou a Destruidora. A escuridão da Lua é seu lado escondido, época de trabalhos negros. Não tento mais fazer cura durante a fase escura da lua, como também não farei maldição durante a época da Lua cheia. Em ambos os casos estarei trabalhando na ocasião errada.
Para a cura, o momento correto é quando a Lua está na fase crescente para cheia. É o aspecto da Deusa como Jovem Virgem, crescendo consciente do desenvolvimento dos seus poderes que conduzem à sabedoria, compaixão e compreensão encontradas na figura materna madura, bela e adorável. É para esse aspecto da Deusa que nos voltamos quando buscamos ajuda, compreensão e, acima de tudo, compaixão. No círculo, quando a Dança do Moinho é realizada, todos focalizam a mente naquilo que está sendo pedido. A princípio parece que nada está acontecendo. Então, ocorre uma sensação sutil de mudança na temperatura e de estar sendo observado por uma barreira escura, macia e impenetrável que, de repente, se desfaz. Onda após onda de poder flui para o grupo, através do grupo e para fora do círculo. Daquele momento em diante todos no círculo sabem que o ritual agiu, que a Deusa atendeu ao apelo. Tudo o que fica é a sensação de retirada de energia, de cansaço, vazio e esgotamento. Por semanas seguidas após esse tipo de trabalho permanece a sensação de que algo foi retirado do grupo. Muitas pessoas sentem-se fechadas e fora de contato. É um momento de repouso, quando as baterias psíquicas precisam de um tempo para se recarregar.

Continua>>>>

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