sábado, 17 de janeiro de 2015

A Fé Pagã - Introdução.


A FÉ PAGÃ
extraído do livro: Feitiçaria - A Tradição Renovada.

Quando as pessoas falam sobre a Fé Antiga surge a pergunta sobre o que se está querendo dizer com isso.
Tradicionalmente, a "Fé Antiga" refere-se ao culto à Deusa Mãe em todos os seus aspectos; e, por meio dela, ao Deus Cornudo ou à Criança com Chifres, simbolizados pela estaca, um bastão em forquilha ou chifres. Mas refere-se também às forças da natureza em todas as suas exteriorizações, embora algumas vezes fiquem estas fora de controle; ao antigo ciclo de nascimento, morte e ressurreição inserido na estrutura da sociedade; à aceitação das forças não-compreendidas, chamadas de "magia natural"; e à capacidade de compreender que, além do véu entre os mundos conhecido e desconhecido do natural e do sobrenatural, há poderes que foram um dia patrimônio hereditário da humanidade, posteriormente perdido no chamado avanço da civilização materialista.

Não que exista algo de errado com a civilização materialista, uma vez que naturalmente ocorre um avanço espiritual concomitante. Mas, sendo a natureza humana como é, isto infelizmente não acontece como deveria. No anseio de poder sobre as pessoas, em vez de se tornar espiritualmente um servidor da humanidade, o sacerdote torna-se senhor. Há muito tempo o servidor dos deuses não serve mais à humanidade. Cobrou o dízimo, instituiu taxas e controlou-a. O acesso aos deuses, e mais tarde ao Deus único, só era conseguido por intermédio dos ministros da fé. As bênçãos de Deus eram controladas ou concedidas pela hierarquia.
Deter o poder dessas sanções não era nada mal, contanto que
esse poder fosse usado como controle contra os excessos dos poderes seculares. Mas, quando eram utilizados para reforçar os direitos eclesiásticos e para a imposição de impostos, pondo em risco a alma imortal de um pecador, tomava-se altamente prejudicial. O que era ofertado livremente no passado tinha, agora, que ser pago por medo e submissão.
A ascensão dos deuses patriarcais à primazia no panteão da cidade-estado e, mais tarde, no panteão do estado sempre foi
equilibrada com as deidades femininas correspondentes. Mesmo quando o Cristianismo tornou-se a fé do Império Romano, também a necessidade de um aspecto feminino de Deus elevou Maria, a mãe de Cristo, ao papel de intercessora entre Deus e a humanidade, restaurando parcialmente o conceito da Deusa, mostrando naturalmente que essa ideia ainda existia dentro da estrutura da ortodoxia cristã. De várias maneiras Maria incorporou alguns aspectos da Magna Mater, mais seguramente nos mistérios cristãos do Graal que parecem ter permeado o mito e o folclore britânicos.
Atualmente, quando não ser cristão é até certo ponto aceitável pela sociedade, o conceito da Deusa e do Deus Cornudo ou Criança com Chifres, como deidades dignas de adoração, não precisa mais ser ocultado pelos seus seguidores.

Talvez, infelizmente, muitos aspectos da fé na Deusa se tenham perdido para a humanidade com o advento da fé cristã e todos os seus cismas. Encontramos, na literatura clássica, alusões à Deusa e às suas várias formas, sendo que as mais ligadas à sua veneração são encontradas no baluarte dos seus seguidores — na zona rural. Por ser uma deusa das fazendas, dos campos e das florestas, muitos dos antigos costumes rurais estão relacionados ao seu culto. Como parte da própria natureza, os ciclos trimestrais da terra encontram-se sob sua influência. Refletidas nas estações, descobrimos as fases da vida do homem: juventude, maturidade, velhice e, finalmente, a morte e o renascimento com o plantio da primavera.
Mas não se trata simplesmente de fé rústica e despretensiosa.
Por trás da simplicidade existe fé mais profunda, que necessita de compreensão maior e não somente de cega aceitação. Há um consenso instintivo de que as pessoas, individual e coletivamente, não podem ficar afastadas do seu ambiente; elas são parte intrínseca dele.
Isto é revelado na aceitação gradual de um animal totêmico como espírito guardião da tribo, do grupo ou do clã. A relação entre os seres humanos e a divindade era moldada e governada pelo ambiente. O mundo que habitavam estava povoado de influências ou espíritos, bons e maus, que deviam ser considerados. O espírito do mal ou do perigo devia ser contido ou dirigido pelas forças do bem.
Assim como uma criança é protegida pela mãe, o povo primitivo visualizava o lado benevolente da divindade enquanto figura maternal; severa, porém cuidadosa, que devia ser aplacada mediante determinados atos. Ações erradas contra as suas leis implicariam represália. Seguir suas ordens significava obter sua ajuda. Gradualmente estabeleceu-se um código de comportamento, e, dentro desse código, a sabedoria dos mais velhos era utilizada para auxiliar as gerações seguintes.

Hoje em dia, muitas das coisas que os nossos ancestrais usavam para praticar e orar não são importantes para o nosso estilo de vida. Dentro do sistema de vida artificialmente criado, nós, como indivíduos, não temos mais que aplacar a Mãe, sob a representação da Deusa do Milho, a fim de obter o pão. Vamos ao supermercado e o compramos. À primeira vista pode parecer que a Deusa se tomou algo redundante, mas não. Hoje, mais do que nunca, as pessoas necessitam de alguma fé para guiá-las, fé que as conduza e una o esclarecimento espiritual a seu avanço material.
Hoje,mais do que antes, a humanidade precisa reavivar o espírito que assistiu ao nascimento das maiores religiões do mundo.
Para alguns, a resposta está em tentar voltar atrás o relógio do tempo. Entretanto, o fundamentalismo, assim como o sectarismo, não é a resposta. Ao unir fundamentalismo ou sectarismo à tecnologia moderna, vemos que homens morreram às centenas, em nome de sua fé, e ainda morrerão aos milhares. A fé cega pode destruir, e destrói, a mensagem que todas as grandes fés ensinam: compaixão, compreensão e, acima de tudo, humanidade.

Dizer "meu Deus não é o seu Deus" significa depreciar o Espírito Divino, tentando estabelecer um limite na sua infinitude.
Rejeitar a ideia de que existe Algo a ser respondido e que justifica a nossa vida além desta existência é romper as fronteiras de qualquer forma de restrição moral. O homem não está mais limitado por suas obrigações com os outros. Na verdade, elas se tornaram suas presas para usar, manipular e saquear. As leis formuladas pelo homem e administradas em nome de Deus e do Estado eram a única maneira de refreá-los.
Até que o Espírito Divino, que criou este universo, esteja pronto para uma vez mais enviar um mensageiro para mostrar o caminho para o próximo estágio no desenvolvimento e discernimento espirituais da humanidade, devo buscar a salvação à minha própria maneira. Como vários outros, voltei-me para o passado a fim de descobrir a Deusa. Se cometi erros, eles são somente meus; não algo imposto pelos outros. Busco o meu caminho para descobrir o Divino, sabendo que a Divindade, por sua vez, me concederá maior conhecimento do mistério que é a vida.
A oração a seguir me foi dada por Bill Gray, autor da Oração ao Santo Graal, para ser usada nos meus rituais:

''Abençoada Mãe, fonte da minha vida, Vem a mim neste momento com o teu ventre condescendente.
Permite-me viver em amor a tudo o que és, Para que o meu espírito buscador sirva ao Santo Graal.''

O conceito do Santo Graal, embora cristianizado na taça que
contém o vinho da Última Ceia, remonta aos tempos pagãos. A antiga palavra franco-normanda para ele era "San Greal", que também pode ser traduzida como "Sangue Real". Nesta acepção, refere-se ao Sangue Real no sentido de Rei do Divino Sacrifício que morre pelo seu povo. Utilizado neste livro como oração, refere-se à mística linhagem de sangue da sacerdotisa ligada à Arte, porque ela está "no sangue".

Quando alguém me diz: "Minha avó trouxe-me para a Arte e ensinou-me tudo que sei", é como se dissesse: "Já sei muito sobre o assunto". Minha primeira pergunta é: "Certamente, você vai continuar estudando, não é?"
Não estou querendo dizer que os ensinamentos passados pela avó estejam errados. Pelo contrário, todos nós devemos ter uma linha de orientação para poder trabalhar. Pela natureza do tipo de culto e pelos séculos em que esteve perdido e destruído enquanto fé viva, não está limitado a éons de tradição consagrada. Não está contido numa liturgia própria e, particularmente, não se adaptou a pensamento e aspirações modernos.
Antes do advento do Cristianismo, o culto à Deusa em suas diferentes formas atingiu gradualmente o estágio em que a pompa e o cerimonial perderam o significado. Resumindo, fossilizou-se.

Continua>>>>

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