domingo, 25 de janeiro de 2015

As Bruxas e os Mistérios - Gerald Gardner

AS BRUXAS E OS MISTÉRIOS
Por: Gerald Gardner

Sempre acreditei que as bruxas pertencessem a uma Idade da Pedra independente, cujos ritos eram uma mistura de superstição e realidade, sem ter conexão com qualquer outro sistema.
Mas durante minha curta estada em New Orleands, embora não tenha conseguido travar contato com o Vodu, percebi algumas semelhanças suspeitas que me fizeram pensar que o Vodu não fosse somente africano na origem, mas tenha sido composto na América, fora da bruxaria européia e da mitologia africana; e quando visitei a Villa dos Mistérios em Pompéia percebi grandes semelhanças no culto. Aparentemente, essas pessoas usavam os processos das bruxas. Eu sei, é claro, que os antigos e modernos escritores concordaram que os mistérios gregos de Dionísio, Zeus, Orfeu, Zagreu e Elêusis eram similares; então, cada mistério tinha diferentes ritos e mitos, mas eram os mesmos, o que deve significar que eles tinham algum segredo interno.
Em seu instruído trabalho A Villa dos Mistérios, o professor Vittorio Macchioro diz o seguinte sobre o assunto: “O mistério é uma forma especial de religião que existia entre todos os povos antigos e, entre os povos primitivos, conserva ainda uma importância muito considerável.
Sua essência é a palingenesia mística, ou seja, uma regeneração trazida pela sugestão. Em seu mais perfeito estágio, a palingenesia é uma verdadeira substituição de personalidade: o homem é investido da personalidade de um deus, um herói ou um ancestral, repetindo e reproduzindo os gestos e ações a ele atribuídos pela tradição”.
Apenas as deidades que, tendo sua própria história mítica, dão à luz em si mesmas os elementos do novo nascimento, Deméter, Dionísio, Ísis, Átis e Adônis, podem conferir a palingenesia, a identificação do si - mesmo com a Divindade, devido à concepção especial que os gregos tinham das relações entre vida e morte. O postulante passava pelo mito divino, revivia a vida do deus e passava, com o deus, do lamento à alegria, da vida à morte. O professor Macchioro dá o seguinte relato:
“Todos os mistérios se operavam da mesma maneira. Consistiam em um drama sagrado e em uma série de atos rituais, que reproduziam os gestos e ações atribuídas à Divindade. Esse é o princípio da eucaristia, comer o pão e beber o vinho para identificar-nos com Seus atos. Não era um drama objetivo, mas subjetivo, sendo a repetição daquilo que, de acordo com a tradição, fora feito por Deus. Era guiado por instruções preliminares, aumentadas em efeito por visões e sugestões extáticas, conduzindo o iniciado, ele próprio um ator, à comunhão com Deus. Os dramas se tornavam um verdadeiro acontecimento na vida do homem, como o sacramento, transformando-o completamente e assegurando-lhe a felicidade após a morte. Antigamente, o mistério era uma cerimônia puramente mágica, mas com o tempo adquiriu conteúdo moral e espiritual. As religiões de mistério tinham enorme influência na consciência grega, habilitando-a a compreender o valor da mensagem cristã.
O orfismo foi a mais importante delas, tendo seu nome derivado de seu alegado fundador. Era uma forma particular da religião orgiástica e extática que originou o culto a Dionísio e consistia em reviver em seu mito. Zagreus, o filho de Zeus e Koré (Perséfone), é assassinado por instigações de Hera com os Titãs, que o cortaram em pedacinhos e o devoraram, exceto seu coração, que Atenas salvou e do qual nasceu, como filho de Zeus e Semelé, o segundo Dionísio. A palingenesia aqui consistia em morrer e nascer de novo em Zagreus. A espécie humana nasceu das cinzas dos Titãs, fulminados pelos raios de Zeus como punição por seu crime. Por isso, todos os homens sustentam a carga do crime dos Titãs; mas como os Titãs haviam devorado Zagreus, o homem tem também dentro de si a natureza de Dionísio. Os teólogos dizem que á da natureza titânica inata no corpo que o homem deve se libertar para se reunir com natureza dionisíaca pela interferência dos mistérios. Dessa forma, o Mistério órfico ganhou um importante significado moral e espiritual e exerceu grande influência em almas eminentes como Heráclito, Píndaro e Platão; quando o cristianismo se difundiu, foi o orfismo que forneceu as bases para a teologia paulina.
O orfismo logo entrou em contato com o culto rural de Elêusis, cujos mistérios eram celebrados sem elementos extáticos e orgiásticos. O contato com o orfismo transformou o culto, adicionando o elemento da redenção; da fusão nasceram os Mistérios de Elêusis, como foram conhecidos na Antiguidade. Estes consistiam de duas partes: o órfico, girando em torno de Zagreus e celebrado em Agrai, um subúrbio de Atenas, e chamado “pequenos Mistérios”; e o eleusiano, girando em torno de Deméter e Koré, celebrado na própria Elêusis e nomeado “grandes Mistérios”.
O primeiro era a preparação necessária para o último; conferia a palingenesia em Zagreus, a nova vida que tornava o iniciado merecedor de ter acesso ao mais alto ensinamento dos grandes mistérios.
Protegidos pelo Estado, glorificados por artistas e poetas, eles eram o centro da vida grega e floresceram ininterruptamente do oitavo século a.c. ao ano 396 d.c., quando Elêusis foi destruída por monges. Os segredos, protegidos por leis, foram respeitados; conhecemos tão pouco dos pequenos Mistérios quanto dos grandes, a visão suprema que coroava a série de cerimônias no último dia. Os estudiosos fazem repetidos esforços para descobrir o que aconteceu até que a Villa dos Mistérios fosse descoberta. Ela fica na Rua das Tumbas, em Pompéia, fora do Portão Estabiano, e é dividida em duas partes separadas por um corredor. A parte nordeste é como uma casa comum de Pompéia; a parte noroeste é peculiarmente arranjada. A porção central é formada por um grande vestíbulo decorado com afrescos e chega-se a ele pelo corredor, passando por duas salinhas, entrando-se pelo vestíbulo por uma pequena porta lateral; o caminho de saída é uma larga porta que se abre para um terraço. Esse grande vestíbulo foi originalmente um triclinium (sala de jantar) e as duas salinhas eram cubiculi (dormitórios); tudo sofreu alterações para adaptá-los a uma proposta diferente daquela a que se destinavam. As pinturas contêm a resposta, pois elas se estendem ao longo de todas as paredes do vestíbulo, sem contar os cantos e aberturas. Contêm 29 figuras, quase em tamanho natural, vestidas no estilo e segundo o costume dos gregos e assemelhando-se a pinturas atiças do século V a.c.
É evidente que é um ato só dividido em vários episódios, contando a história de uma figura velada de mulher que aparece em todos os episódios. A história é uma série de cerimônias litúrgicas pelas quais a mulher é iniciada no Mistério órfico e atinge a comunhão com Zagreus.

1. A liturgia começa com uma donzela que, ajudada por um criado e dois jovens rapazes (um deles segurando um espelho diante dela), e supervisionada por uma sacerdotisa, está preparando seu enxoval de casamento. Ela está envolvida no sindon, um véu ritual que era posto nos neófitos dos mistérios; ela é a noiva mística, a catecúmena, preparando-se para celebrar, sob o símbolo do matrimônio, sua comunhão com Dionísio. Ela é a protagonista de toda a liturgia.

2. Envolvida no sindon, a donzela reverentemente se aproxima de um jovem nu evidenciado como um sacerdote pelas botas dionisíacas que veste. Este embades, sob a terna direção de uma sacerdotisa, está lendo uma declaração ou ritual de um rolo, de forma que a neófita possa conhecer as regras, ou talvez o significado da iniciação.

3. Dessa forma instruída e habilitada para compartilhar do rito, a donzela, ainda envolvida no sindon e agora usando uma coroa de mirto, anda para a direita segurando um prato ritual com alimento em fatias para tomar parte em uma refeição lustral. Diante de uma mesa sacrificial está sentada uma sacerdotisa com dois criados; com sua mão esquerda ela descobre o prato trazido por um dos criados e em sua mão direita ela segura um galho de mirto em que o outro criado, que coloca na cintura dela um rolo ritual, está derramando uma libação por meio de um oenoche. Este é o ágape lustral que deve ser celebrado antes da comunhão, como era o costume na cristandade primitiva.

4. Após a celebração do ágape, a neófita é merecedora de um novo nascimento, representado alegoricamente. Um sátiro e uma sátira estão sentados; um fauno está esticando seu focinho em direção à sátira, que oferece o seio; à esquerda, o velho Sileno entra na cena tocando extaticamente uma lira. No mito, Dionísio criança foi transformado em cabrito para escapar à fúria de Hera. Esse cabrito que é amamentado simboliza a infância de Dionísio, e Sileno está presente por ser o pedagogo de Deus; a cena representa simbolicamente o novo nascimento da neófita. Ela nasceu de novo em Zagreus sob a forma de um cabrito, o que explica por que, nos tabletes de ouro enterrados com um iniciado em Sibaris, está gravada a alma do morto aparecendo diante de Perséfone e dizendo: “Eu nasci novamente.”

5. A neófita renasceu em Zagreus; começou a viver a vida do deus, mas terríveis provas a esperam. Sileno, sentado em uma coluna, mostra a ela uma caixa de prata hemisférica, na qual um jovem está deitado em êxtase enquanto o seu companheiro segura no alto, atrás dele, uma máscara dionisíaca. Sileno se volta para a neófita, identificada pelo sindon, e mostra aquilo que visivelmente a enche de terror. Ela se encolhe como quem quer fugir e faz o gesto de alguém que quer expulsar de seus olhos a terrível visão. A caixa hemisférica na qual o jovem está deitado extaticamente é um espelho mágico; ele está fascinado e caiu vítima de um monoideísmo alucinatório e, como acontece em cristalomancia, vê no espelho uma série de visões que têm seu ponto inicial na máscara e na vida de Dionísio. Ele vê desenrolar-se no espelho a vida do deus, vê como foi feito em pedaços e devorados pelos Titãs e, em resumo, vê o futuro destino da neófita, que, se nascesse de novo como uma nova criatura, deveria morrer junto com Zagreus. É essa assustadora morte dionísica que ele anuncia à donzela. É uma adivinhação que se está vivenciando e é por meio de Sileno, primeiro o pedagogo e depois o mistagogo de Dionísio, que ela é vivenciada. Além de incluir a anunciação da futura morte da neófita, essa cena envolve outras repetições dos mais importantes gestos atribuídos por mito ao deus: Dionísio, quando criança, observa em um espelho mágico, feito para ele por Hefestos, seu futuro destino. Outra tradição é que os Titãs assassinaram Zagreus mostrando-lhe em um espelho seu próprio rosto desfigurado, distraindo assim sua atenção para poder matá-lo. Como o drama sacramental consistia na repetição das ações do deus para obter, por essa imitação, a comunhão com ele, isso explica por que a neófita, ou o jovem em seu benefício, olha no espelho como Dionísio o fez para se tornar igual a Dionísio e morrer com ele.

6. A neófita, após receber a anunciação, tornar-se-ia a noiva mística de Dionísio; para representar simbolicamente esse casamento ela está prestes a descobrir um imenso phallus que trouxe consigo em um cesto sagrado. Ela o coloca no solo e parece humildemente suplicar o assentimento de uma figura alada seminua, calçada com suas botas dionisíacas, com um rolo ritual na cintura e uma vara na mão. É Talatéia, a filha de Dionísio, a personificação e executora da iniciação.

7. Talatéia mantém seu gesto com a mão e levanta a vara, enquanto a donzela ajoelha atarantada e terrificada, com o rosto escondido na capa de uma sacerdotisa compassiva, para sofrer a flagelação ritual que substitui e simboliza a morte. Fisicamente ela não morre, mas passa simbolicamente pela morte e morre misticamente, assim como os estigmatistas morrem crucificados em Cristo.

8. Morta com Zagreus, ela renasceu agora com ele; ou seja, tornou-se uma bacante e não é mais uma mulher, mas um ser humano divino. Nós a vemos agora nua e dançando freneticamente, ajudada por uma sacerdotisa que segura o tirso, o símbolo da nova vida dionisíaca. O espírito de Dionísio desceu a ela. O Homem se tornou Deus e Dionísio está presente, despercebido, no milagre. Observamo-lo no espaço entre a quinta e a sexta cenas, semi-reclinado na capa de Koré, com um pé descalço de acordo com o rito, contemplando com divina indiferença tudo o que o homem pode sofrer por ele. Assim o mistério é visto.
A Basílica Órfica, o grande salão, era o vestíbulo da iniciação ou stibade e nele se entrava pela pequena entrada após os sacrifícios preparatórios terem sido realizados nas salinhas adjuntas, como provado pelos fragmentos de sacrifícios encontrados ali. Após entrar no stibadium e receber a iniciação, os neófitos passavam pela larga porta do terraço, onde se poderia supor que havia um banquete em uma celebração festiva do evento. Esse arranjo corresponde ao Baccheion órfico descoberto em Atenas. Para formar essa basílica privada, seus organizadores aproveitaram o triclinium e os dois cubicula adjacentes, rearranjando-os e decorando-os com pinturas apropriadas à sua nova proposta, não tendo sido sem razão o fato de sua localização numa villa suburbana. Os Mistérios órficos foram, como sabemos, proibidos pelo Senatus Consultum (De Bacchanalibus) após eles terem dado origem a escândalos; mas o ponto mais curioso é que, de acordo com Livy, esses escândalos aconteceram precisamente na Campânia e as iniciações eram femininas e aconteciam de dia. Nossa liturgia nos mostra a iniciação de uma mulher e a enorme janela prova que a iniciação era feita à luz do dia. Essa Basílica Órfica, em tempos passados o lugar secreto de encontro do iniciado, permite-nos hoje penetrar nos segredos dos Mistérios gregos.”

Investigações mais recentes mostraram que essa vila pertencia a alguém da família imperial; a grande sacerdotisa nos afrescos foi identificada como um retrato da proprietária, embora seu nome ainda não tenha sido averiguado. Mostrei uma foto desses afrescos a uma bruxa inglesa, que a olhou muito atentamente antes de dizer: “Então eles já conheciam o segredo naquele tempo”.
Todos esses antigos mistérios tinham muito em comum. Eram frequentemente os meios pelos quais uma pessoa passava de uma classe para outra; tornavam casadeira uma mulher, por exemplo. A maioria, porém, estava ligada a uma vida futura, mas isso era mantido secretamente.

Imagino que todos os sacerdotes dos tempos antigos foram regenerados, tornados santos de modo semelhante, e por vezes também alguns leigos; se isso fazia deles sacerdotes menores, eu não sei. Em Atenas, sabemos que praticamente toda a população grega era iniciada, incluindo os escravos, e que o Estado pagava as taxas dos pobres; mas nenhum estrangeiro jamais foi iniciado e os segredos eram protegidos por lei, pois achavam que isso era necessário para o bem do Estado. Também sabemos que eles mantinham secretos os nomes dos deuses. Escritores cristãos estavam acostumados a falar desses mistérios como orgias, e Chesterton, falando das Bacantes de Eurípedes, diz: “Hoje em dia, imaginem o primeiro-ministro indo com o arcebispo de Canterbury dançar com belas desconhecidas em Hampstead Heath”. Mas eles o faziam porque os deuses queriam e não apenas por prazer, embora sem dúvidas eles gostavam daquilo.

Hoje em dia as pessoas se chocariam pensando que eles gostavam daquilo, ou mesmo que eles tomavam ar fresco e faziam exercício com a prática, como os judeus ficaram altamente chocados por Cristo violar o Shabbath.
Há uma história de que o padre Lachaise absolveu o rei Luís XIV com as menores penitências por massacres a sangue-frio e coisas do tipo, que ele achava perfeitamente natural praticar; mas ficou extremamente chocado e deu uma penitência pesadíssima porque, após uma batalha, Luís comeu uma torta em uma sexta-feira, sem saber que havia pedacinhos de carne nela.

Logo, quando os antigos escritores que foram iniciados dizem que “todos os mistérios são o mesmo”, certamente isso queria dizer que a essência interna era a mesma. Um pagão, examinando as várias seitas cristãs, católicos, romanos e ortodoxos, presbiterianos, metodistas e Igreja das Igrejas da Inglaterra, diria que no cerne são todas a mesma. Eles todos adoram o Deus Trino, o Pai, o Filho e o Espírito santo, embora alguns prestem mais honras à Virgem e aos Santos que outros. As pessoas que cultuam dessa forma são no geral boas e merecedoras e, obviamente, não cultuariam assim se a religião fosse má; dessa forma vemos que, já que os maiores e melhores homens do mundo antigo pertenciam aos iniciados, podemos estar certos de que os mistérios não eram apenas orgias. Realmente sabemos, como mostrado acima, um pouco sobre o que eles eram. Lewis Spence, em sua Occult Enciclopaedia, diz:

“Pinturas, mosaicos e esculturas mostram as iniciadas nuas, uma carregando milho, outra fogo, algumas, cestas sagradas com serpentes, mulheres, ou deusas, iniciando os homens... estes eram cultos secretos em que algumas pessoas eram admitidas após preparação preliminar... Depois dessa comunicação ou exortação mística (a Declaração), a revelação de certas coisas sagradas, então a comunhão com a Deidade... mas os mistérios parecem girar em torno da representação semi dramática de uma peça de mistério da vida do deus”. Acho que é, ao menos, plausível acreditar que tudo aquilo não era apenas representação, mas que havia uma séria razão por trás. Que eles acreditavam que, enquanto os deuses os quisessem bem, eles não eram todo-poderosos, que eles precisavam da ajuda do homem; que realizando certos ritos o homem lhes dá poder; também que os deuses desejavam que os homens fossem felizes e que os atos que davam prazer aos homens davam aos deuses alegria e poder, que eles poderiam aplicar em uso próprio assim como em benefício do homem. (Os deuses precisavam dos adoradores como os adoradores precisavam dos deuses. Suas energias reprodutivas eram recrutadas, então o homem tinha de sacrificar a eles o que fosse mais másculo no homem.) As danças selvagens mostravam que os deuses queriam que o homem (incluindo o primeiro-ministro e o arcebispo de Chesterton) fosse feliz, e não que fosse puritano. Essa dança extática também produzia poder e visões do futuro, algumas das quais se tornavam verdade. Por essa razão, os ritos eram valorizados pelo Estado e protegidos por lei, de forma que nenhum estrangeiro pudesse vir a conhecê-los. Evidentemente, os sacerdotes e sacerdotisas que podiam prever o futuro, embora de maneira turva, e que poderiam acalmar os mais perigosos políticos e faze-los trabalhar para o Estado em vez de se esforçar para corrompê-lo, eram os mais valiosos. Por outro lado, se a existência desse poder fosse conhecida, o segredo poderia ser descoberto e usado por inimigos, para causar um rompimento político como um senso de pacifismo ou a rendição do inimigo. (Jâmblico, em seus Mistérios, diz: “Se alguém sabe como, pode pôr em movimento forças misteriosas que são capazes de contatar a vontade do outro, direcionando suas emoções como o operador deseja; isso pode ser feito com a palavra falada. Cerimônias propriamente realizadas, ou que procedem de um objeto apropriadamente carregado de poder, são chamadas de mágicas”.)

Novamente repito que não afirmo que eles pudessem de fato faze-lo; estou dizendo que as bruxas acreditam que elas próprias podem e acho que as pessoas em Atenas, em altos postos, tinham crenças similares. Pois pessoas em todo o mundo são capazes de fazer certas coisas e acreditam em determinadas coisas em certas circunstâncias, e, como essas crenças podem ocorrer independentemente, mesmo sendo muito semelhantes, suspeito de uma conexão. Espero que muitas pessoas ataquem essa visão e realmente desejo que o façam. Discussão e crítica são os únicos meios de chegar a uma conclusão satisfatória.

O primeiro e maior argumento contra o meu ponto de vista será, eu acho, a crença de que “para ganhar poder e fazer as pessoas parar de pensar em suas misérias, os sacerdotes e reis encorajaram os maiores excessos”. Na África de hoje em dia, a ação de missionários e do governo, esmagando as grandes danças tribais, são tidos como responsáveis pela intranquilidade política e pelas campanhas de assassinato. E é certo que os mistérios tornaram a população feliz e quieta. É de conhecimento de todos que por vezes havia orgias entre eles; ninguém tenta negar os fatos; mas se eles são ou não mais que boêmios ainda é um ponto controvertido. Algo, usualmente vinho, era bebido, mas creio que por lei deviam ser duas partes de vinho e três partes de água, e não se pode aumentar muito a libertinagem desse modo. Eles dançavam freneticamente e é possível que algum tipo de casamento sagrado se realizasse, mas consistia principalmente em longos serviços religiosos e em prolongadas e cansativas procissões.

Esses não são segredos protegidos por lei, ou proibidos de ser vistos por criminosos ou estrangeiros. Hoje em dia seria diferente. A imprensa se concentraria nas partes quentes; o país se movimentaria em torno disso; todo tipo de união das mulheres, conselhos do país e sociedades de proteção ao Dia do Sabá entrariam em acordo e toda a maquinaria da lei seria movimentada para evitá-lo. Mas naqueles dias ninguém teria pensado em nada disso! Qualquer um podia ter uma orgia na própria casa. Qualquer um tinha liberdade de abrir uma boate em casa, ter quantas belas escravas lhe agradasse para distrair os convidados; não havia absolutamente nenhuma inibição, sendo que o resultado era que cada um, após fazer suas loucuras de mocidade, repousava em uma vida pacífica de casado, tendo à mão muitos lugares onde pudesse liberar a pressão se quisesse. Imagino que não foi por causa de repressões que todo o povo se uniu; e elas não eram motivo para fugir das esposas, pois houve esposas e filhas e avós e sogras e todas guardaram segredo; e isso continuou por cerca de mil anos. Quando os mistérios vieram a Roma, é verdade que criminosos conseguiram infiltrar-se neles e que houve problemas; removendo-os, o culto continuou bem. Infelizmente, os romanos eram grandes glutões e bebedores e bebiam comumente vinho sem diluir, ao contrário da tradição mediterrânea usual. Mas no todo, os mistérios parecem ter produzido um grande efeito, embora não o mesmo que fizeram na Grécia. Provavelmente, a razão era que, devido aos primeiros excessos e à vinda do cristianismo, os verdadeiros segredos fossem comunicados apenas a uns poucos. Ao menos é o que penso, e eu gostaria de ouvir comentários sobre esse assunto. Mas em seu verdadeiro estado acho que os mistérios eram realmente bons. Porfírio, Jâmblico, Sinésio, todos se referiram a eles e a seus objetos e revelações. “De que a doença do espírito consiste, por que causa está entorpecido, como pode ser clarificado, pode ser aprendido a partir de sua filosofia. Pois pelas abluções dos mistérios a alma se torna liberada e passa a uma divina condição de ser, de forma que a disciplina de bom grado suportada se torna de maior utilidade para a purificação”, diz Platão.

Ele continua: “Entrando no interior do templo, imoto e guardado pelos ritos sagrados, eles genuinamente recebem em seu âmago a divina iluminação e, despidos seus trajes, participam da natureza divina”. O mesmo método aparece nas especulações de Tales (ver Proclus na teologia de Platão, vol. I, e Ede anima ae daemona, Stoboeus, traduzido pelo Dr. Warbarton): “A mente é afetada e agitada na morte, da mesma forma que na iniciação aos mistérios, e palavra responde a palavra, assim como coisa a coisa: pois para morrer, para ser iniciado, é o mesmo; com hinos, danças e conhecimento sublime e sagrado, coroados e triunfantes eles andam nas regiões do abençoado”.

Mas também se disse: “Os ritos não são igualmente bons para todos; há mais seguradores de tirso que almas báquicas. Muitos têm o fogo realmente, sem o poder de o descobrir”; ou seja, “nem todos são verdadeiros iniciados”. “Quem pode questionar o extraordinário poder da mulher sobre o homem? Por mais que seja questionado ou considerado, esse permanece o irresistível fator da vida. Esse poder é um dom divino; induz mais do que simplesmente atração sexual. Com qualquer mulher, jovem. Bela e vivaz, sua influência para o bem ou para o mal é devastadora. Quando movida por altos princípios e propósitos, a espécie feminina pode elevar e enobrecer o homem”. (A Suggestive Inquiry, etc., por A. J. Attwood). Não apenas nos sacrifícios aos deuses geradores, mas na adoração de todo deus em cerimônias religiosas dos gregos e de todos os povos antigos, havia festas alegres e envolventes, danças em honra dos deuses e regozijo geral, com a exceção dos judeus recentes e possivelmente dos egípcios: muitos dos festivais egípcios eram alegres mas alguns não o eram, porque eles tinham muitos e diversos deuses. É altamente provável que os primeiros ritos judeus fossem festivos também, embora os reformadores constantemente se esforcem por abolir toda menção ao assunto, e não há dúvida de que a Bíblia foi alterada indevidamente com esse fim.

Texto extraído do Livro: A Bruxaria Hoje - Gerald Gardner. Capítulo VII, pag 65 ao 74.

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