terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Bruxaria na Irlanda - Gerald Gardner.

BRUXARIA NA IRLANDA
::Gerald Gardner::

O mais famoso caso de bruxaria irlandesa é o de Lady Alice Kyteler de Kilkenny. O bispo de Ossory a acusou de bruxaria segundo as novas Bulas publicadas pelo Papa João XXII e ela foi julgada em 1324. A corte obviamente acreditou que ela praticava a bruxaria, mas não viu nenhum mal particular nisso. Embora devessem tê-la culpado, soltaram-na bem discretamente e a perdoaram, para o desgosto do bispo; da mesma forma, uma corte de Manx em 1659 considerou a Sra. Jane Caesar não culpada de bruxaria, embora o bispo tenha manobrado para sentenciá-la a “abjurar da bruxaria, no próximo domingo na Igreja Malew” (um curioso caso de “você não é culpada, mas prometa que nunca mais o fará novamente”). A dama foi forçada a abjurar na Igreja e usar palavras que satisfizessem à corte, embora os comentários afirmem: “Seus acusadores estariam muito infelizes, se realmente acreditassem que ela é uma bruxa”. Como nada mais está registrado, presume-se que o caso foi encerrado. Mais tarde, os registros da Igreja mostram que ela morreu e foi enterrada de maneira usual; os Caesars eram pessoas de boa posição.
Mas o bispo de Ossory tinha um temperamento mais severo que os bispos de Manx. Apoiado pela Bula papal, ele atacou de novo, acusando Lady Alice de negar Cristo, ter cerimônias indecentes com um Robin Artison, ou Robin, filho de Art, em encruzilhadas, e uma lista inteira de acusações usuais, incluindo ter uma bengala que ela untava com pomada e galopava frequentemente – presumivelmente uma dança de fertilidade comum. Novamente, ele não pôde obter uma acusação; os nobres a protegeram e ela foi para a Inglaterra. O bispo teve de se contentar com açoitar, torturar e queimar os criados dela, como uma espécie de lei eclesiástica de linchamento. Entre as acusações contra ela, estava a de varrer a poeira para dentro. Na Ilha de Man, é uma superstição comum crer que se deve varrer para dentro, para não varrer para fora a sorte.
No caso de Lady Kyteler, há evidência suficiente para provar a existência de bruxaria e de uma assembléia de 13 bruxas. Mais provavelmente, ela estava em comunicação com um ramo irlandês das Fadas ou do Povo Miúdo, que celebrava ritos similares aos da Inglaterra e àqueles de Dionísio na antiga Roma. A segunda acusação contra ela era de que “tinha o costume de oferecer sacrifícios a demônios, animais vivos que ela e sua companhia rasgavam membro a membro e faziam a oferenda espalhando-os em encruzilhadas para um certo demônio chamado Robin, filho de Artis, ou Robinartson”. Como visto acima, o nome Robin era comum para um espírito, desta vez provavelmente um manhoso e travesso (“artes”). A ação parece uma descrição de algumas bacantes que costumavam rasgar animais em pedaços nos frenesis de Dionísio, pois devorar uma vítima animal simbolizava a encarnação, morte e ressurreição da divindade. Havia outra acusação de sacrificar galos vermelhos a Robin, que é descrito como sendo Aethiopia – em outras palavras, um negro. Seria muito incomum encontrar um negro, com um nome inglês, na Irlanda daquela época, logo presumo que Robin misturava fuligem à sua pomada protetora para não ser reconhecido. Eram provavelmente membros de um culto local que praticavam cerimônias mágicas que lhes trouxessem sorte. Houve treze pessoas acusadas, mas Robin jamais foi preso, de forma que o “espírito zombeteiro” era provavelmente de alto escalão ou membro da Igreja. Logo, devemos presumir que um culto de bruxas que tinha alguma semelhança com o culto de Dionísio estava em pleno impulso naquela data e consistia tanto de membros irlandeses quanto de ingleses.
O Sr. Hughes menciona que os arquivos municipais de Exeter mostram que em 1302 o Grande Júri ponderou que “Dionysia Baldwin recebe frequentemente John e Agnes de Wormhille e
Joan de Cornwale de Taignmouth, que são bruxas; e a dita Dionysia se contorcia com elas”. O nome Dionysia me sugere que seus pais pertenciam a algum culto e que o padre que a batizou não fez objeções, embora muitos concílios da Igreja tenham fulminado cultos de Diana e da Lua. John, Agnes e Joan são nomes de bruxas, de acordo com a Dra. Margaret Murray; Wormhille (“montanha do Dragão”) deve ser acidental, ou pode ter algum significado. Era de se esperar que o bispo local certamente faria uma acusação; mas a corte aparentemente não o faria, pensando: “Por que as bruxas não podem passar bem e praticar suas artes?” Como na Irlanda, eles não faziam objeções ao “trabalho sujo” de Lady Kyteler “nas encruzilhadas”.
Na verdade, naquele tempo, as cortes parecem ter acreditado que não havia nenhum mal na bruxaria. Não havia leis particulares contra ela. O Sites Partidas de Castilha, por volta de 1260, diz que ela deveria ser punida se causasse malefícios, mas que era válida para curar doenças. Os Assizes de Jerusalém, as Instituições de Saint Louis e outros tribunais sustentavam visões similares.
Contaram-me de um culto de bruxas na Irlanda que ainda ocorre hoje em dia, mas não consegui contata-las. Diz-se que os membros mantêm seus encontros em uma pedreira desativada onde podem trabalhar sem ser perturbados. Usam longas capas pretas para se protegerem até que cheguem ao local do encontro, onde as removem para revelar um tipo de kilt feito com dois pedaços de couro amarrados dos lados. Diz-se que sacrificam animais à lua, ou ao menos realizam cerimônias de louvor à lua, com danças reguladas por um quadrante da lua. Eu soube que elas têm uma dança muito bonita, a Dança dos Quatro Ventos, que usualmente é feita em volta de um monólito ou de algo que tenha quatro lados; mas não pude obter mais detalhes. Diz-se que parte da cerimônia de iniciação do homem é chamada de Caça de Diana, quando todas as moças solteiras e sem compromisso caçam o iniciado e quem quer que o cace bate nele e o toma sob sua direção, sendo previamente combinado quem deve caçá-lo. Disseram-me que algumas vezes sangue era usado nos ritos e punham-se maldições nas pessoas, mas meu informante nada sabia dos ritos, ou de sua líder, exceto que era uma Grande Sacerdotisa chamada Diana e que eles usavam “uísque”.
O problema de se investigar tal caso é saber se o culto é antigo ou se tem origem recente. Na Irlanda, as pessoas são fortemente católicas romanas ou fortemente protestantes, sendo possível que alguém tenha inventado um culto por diversão, ou em oposição a ambas as religiões. Se ele crescesse, não poderia ser mantido oculto por muito tempo e as Igrejas provavelmente se uniriam para esmagá-lo. Se, por outro lado, fosse uma tradição antiga, deveria ter continuado, pois seus membros teriam percebido a necessidade de segredo. O nome Diana parece invenção moderna; mas a partir da Renascença houve muitos estudiosos clássicos que aplicaram esse nome a uma antiga deusa.
Há uma cidadezinha na Irlanda onde é costume por todo ano um bode na praça do mercado assistido por duas donzelas por três dias e três noites; durante esse tempo a cidade é aberta. Esse evento é conhecido com Puck Fair (Feira da Fada). A polícia fica em sua base, as casas públicas nunca fecham e ninguém dorme, pois esse sempre foi o costume e traria azar mudar. Esse parece algum curioso rito pré-cristão que sobreviveu.
Se no tempo de Lady Alice houve um culto secreto que trazia a sorte para os seus devotos e maldições sobre seus oponentes, não é surpreendente que ele ainda fosse praticado hoje. Na Inglaterra, em sua presente forma, os rituais e declarações não podem ser muito antigos porque foram copiados, em linguagem moderna, de avôs e avós; mas remontam a, pelo menos, 150 anos.
Se eles tivessem sido inventados, teriam sido escritos de forma sentimental, em vez de ir direto ao ponto. Anteriormente a 1800, quando sabemos que o culto funcionava, havia um certo interesse em matérias ocultas, mas isso no tipo cerimonial de magia, ou no tipo do Clube do Fogo do Inferno, o que significaria evocar o Demônio. É possível que alguém tenha iniciado uma nova religião, mas acho que deve ter existido algo antes em que enxertá-la. Penso ser muito curioso que tal tradição possa ter vindo de tempos tão remotos. Mostrei minhas razões em pensar que ela deve remontar aos tempos da primeira Elizabeth, pelo menos. Se foi importada da Itália, então uma relíquia de um culto Dionisíaco que sobrevivesse ali poderia facilmente ter sido mantido na Inglaterra; ou poderia ter sido importada da França pelos normandos muito antes. Não sei se algum dia realmente chegaremos a descobrir.
As pessoas que conheço têm a ordem de nunca usar sangue ou fazer sacrifícios; mas as convenções de bruxas irlandesas o usam, e o Vodu também. Sabendo como os ritos na Inglaterra
funcionam, essas práticas seriam inúteis em todos os que conheço, então presumivelmente há ritos totalmente diferentes sobre os quais minhas amigas nada sabem. A essência da magia usualmente é aumentar o poder e então usa-lo ou controla-lo.
Compreendo que se pense que matar algo possa liberar poder ou força, se a alma é força, mas não entendo como se pode controlar ou usar algo assim. Sangue recém-derramado contém algum poder vital, que exsudaria lentamente, e esse sangue pode aumentar o poder; mas se esse fosse o caso, poderíamos dizer que os funcionários do matadouro municipal estão se tornando magos. Quando eu ouvir essa notícia, acreditarei no poder do sangue. Sei que se diz que as bacantes rasgavam animais vivos em pedaços e os comiam, mas acho que elas eram pessoas que, sem compreender os ensinamentos secretos que receberam, confundiam bebedeira com êxtase divino, fazendo loucuras em seu frenesi. A lei então restringiu esses excessos e reformou-se a seita. Os africanos ocidentais usam sangue, mas penso que eles também não conhecem os verdadeiros segredos.

Texto extraído do Livro: Bruxaria Hoje - Gerald Gardner, capitulo IX, pag 80 a0 83.

Um comentário:

  1. Tantos anos se passaram e a metalidade Hipocrita continua a mesma....destes verm VERMES MALDITOS....... no Brasil existe um monte que dizem adorar a DEUS e não respeitam nem as suas próprias leis.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...