segunda-feira, 16 de março de 2015

A REVOLTA DOS DEUSES CELESTES - Laurie Cabot


A REVOLTA DOS DEUSES CELESTES
Quando lemos mitologias e literatura sacra escritas entre 2500 e 1500 antes da era cristã, notamos uma mudança nas sensibilidades. As fortes Deusas que dominaram o pensamento e o sentimento durante centenas de milhares de anos são lentamente substituídas pelos poderosos Deuses do Céu. O Filho/Caçador/Amante, que como filho e consorte da Grande Mãe ocupou sempre uma posição subordinada, torna-se agora a divindade primacial. Surgem novos nomes: Marduk. Indra. Apoio, Zeus, Thor, Júpiter, Jove, Jeová -Deuses Celestes reinando com o poder do sol, desafiando as mais antigas Deusa
da Terra e da Lua: Ceres, Cibele, Atena, Diana, Ártemis, Tiamat, Anat, ísis, Ishtar, Astartéia, Minerva, Dana. Os Deuses solares tornaram-se os heróis e as Deusas da Terra e da Lua passaram a ser as vilãs, e muitas das velhas histórias foram reescritas e revistas para refletir essa mudança de consciência. Em muitas delas a Deusa -- ou o poder feminino — é identificada cpm uma serpente ou um dragão, representando ambos os poderes primevos da Terra e das regiões alagadiças sujeitas à influência lunar. Nas novas religiões patriarcais, essas serpentes e esses dragões são sempre representados como malignos. Marduk trucida Tiamat, Indra mata Danu e seu filho Vrta, Apoio aniquila a serpente Píton de Gaia, Perseu decapita a Medusa, com seus cabelos cheios de serpentes. Essas histórias persistiram mesmo em tempos cristãos, onde encontramos São Jorge matando o dragão na Inglaterra e São Patrício expulsando as serpentes da Irlanda.
A mitologia sacra começou refletindo um dualismo que era provavelmente desconhecido em tempos neolíticos ou que estava certamente relegado para um papel secundário no esquema das coisas. Sol e Céu opostos à Terra e à Lua, a Luz oposta às Trevas, a Vida oposta à Morte, o Masculino oposto ao Feminino. Antes, todas as coisas eram parte da Grande Mãe, incluindo o poder de destruir, o mistério da morte e a escuridão da noite. As polaridades não eram vistas em termos morais. Não era uma questão de Bem contra o Mal. Cada coisa tinha aspectos positivos e negativos, todos eles ingredientes necessários na Grande Roda da Vida Criada. A Morte, por exemplo, embora suscite sempre um certo medo do desconhecido, era uma parte vital da criação. Não era "as ondas de pecado" ou uma maldição por desobediência. Os índios norte-americanos retiveram essa saudável noção de morte como parte do Grande Círculo da Vida mesmo em nossos tempos atuais, conforme se expressa no adágio, "Hoje é um bom dia para morrer." Essa atitude frustrou totalmente os missionários patriarcais e a Cavalaria dos Estados Unidos.
A par do aniquilamento do poder animal consagrado à Deusa, as revisões também proclamaram que a criação original tinha sido obra de um Deus Pai solitário e não de uma Mãe Divina. Ao passo que as mais antigas histórias da criação falavam de nascimentos virginais, nascimentos partenogenéticos e nascimentos causados por seres andróginos ou bissexuais, os novos mitos falaram primordialmente da criação proveniente de uma fonte masculina. Vemos Deusas brotando das cabeças e coxas de Deuses masculinos!
Entre as muitas revisões contava-se a da antiga história assíria de Adão e Eva, reescrita de modo que Eva nasce de uma costela de Adão e não o inverso, como ocorre na versão mais antiga. Numa velha lenda mesopotâmica, Eva gera um macho, Adão, e faz dele seu cônjuge, de acordo com o usual mito Deusa/Filho. Na versão do Gênese, Deus faz Adão de barro com suas "mãos" e depois Eva de uma costela de Adão. Parece que os escritores bíblicos quiseram distanciar Deus o mais possível do ato de nascimento, fazendo questão de enfatizar fortemente que a criação não é uma atividade feminina e nada tem a ver com úteros, sangue e dar à luz.
Em alguns dos livros das Escrituras judaico-cristãs que foram arbitrariamente rejeitadas do cânone oficial, Adão admite que Eva lhe é superior: "Ela ensinou-me a palavra do saber." Num texto gnóstico, Eva é a Mãe de Todos os Vi-ventes e foi quem criou realmente Jeová. Lê-se: "Ele desconhecia até sua própria Mãe... Por ser tolo e ignorante de sua Mãe é que ele disse: 'Eu sou Deus; não existe nenhum outro além de Mim." Em algumas versões, Eva repreende e pune Deus por Seu cruel tratamento dos seres humanos. Barbara Walker, autora de The Woman 's Encyclopedia of Myths and Secrets, diz: "Um dos segredos mais bem guardados do cristianismo era que a Mãe de Todos os Viventes foi a Criadora que puniu Deus." As Bruxas consideram interessante que o nome Jeová é formado pelas quatro letras hebraicas Yod-He-Vau-He. A primeira, Yod, significa "eu", as três seguintes significam "vida" e "mulher". A versão latina dessas três letras é E-V-E. Por outras palavras, o nome de Jeová é feminino e significa: 'Eu sou mulher; eu sou vida." Hoje, um cântico popular entre Bruxas baseia-se nessas letras antigas: "Io! Evohe!"

À medida que as mitologias se distanciavam cada vez mais da concepção religiosa original da Grande Deusa, o dualismo que passou a dominar uma tão grande parte do pensamento ocidental fortaleceu-se cada vez mais. A vida foi vista primacialmente como uma luta entre as forças do Bem e as forças do Mal, em vez de uma dança dinâmica de todas as coisas atuando juntas para o Bem. A vida na Terra tornou-se menos importante do que a vida por vir. Tudo o que está associado a essa vida presente — terra, o corpo, sexo, mulher — tornou-se suspeito, quando não abertamente maléfico. O dito popular, "A pureza é vizinha da devoção", resumia isso muito bem: a mundanidade será rejeitada como conceito religioso; é suja e impura. A mulher será rejeitada como líder espiritual que reflete a imagem do Feminino divino. Ela é suja e impura. Uma coisa curiosa aconteceu aos deuses masculinos quando consolidaram seu domínio sobre a imaginação humana. Eles perderam o poder metamórfico que todas as deidades possuíam outrora. Foram perdendo gradualmente suas formas animais, embora por algum tempo encontremos ainda vários deuses que retiveram as cabeças de animais e pássaros, como Anúbis, o Deus do Egito com cabeça de chacal, e o gênio com cabeça de águia esculpido num palácio do século IX na Mesopotâmia. Nas tradições judaica, cristã e muçulmana, o Deus masculino também perdeu todo e qualquer indício de androginia. Com o tempo, Deus tornou-se completamente humano e completamente masculino. Como veremos no capítulo sobre Feitiçaria como ciência, essa incapacidade para a transformação contraria a natureza da realidade. A habilidade para transformar energia em matéria e vice-versa é o modo como o universo opera. No nível espiritual, significa que um Deus como Deus pode tornar-se outros seres, até criar seres, porque Deus é uno com a criação. Mas as novas versões dos velhos mitos estavam determinadas na separação e distanciamento entre o criador e a criação. E conseguiram-no.
O Deus solitário e "cioso" tornou-se o padrão nas culturas judaica, cristã e muçulmana. Num dado momento, historiadores da religião que interpretaram o passado à luz de seus próprios valores patriarcais argumentaram que a evolução do politeísmo para o monoteísmo era uma marca do avanço da civilização.
Disseram ser um sinal de desenvolvimento humano deixar de crer em muitos deuses e deusas, a favor de um único deus do sexo masculino. Contudo, eles estavam errados em dois aspectos. Em primeiro lugar, como provou o antropólogo Paul Radin no início deste século, a crença em muitos deuses não impede a crença num Ser Supremo. De lato, a maioria das culturas que reverenciam mais de um deus conserva uma forte e inabalável crença num Grande Espírito ou um Todo-Pai ou um Todo-Mãe ou um poder ou força divina que se sobrepõe a tudo, inclusive aos deuses secundários. Por outras palavras, a história do pensamento religioso não progride de alguma crença ingênua em muitos deuses para uma crença "melhor" em apenas uma divindade masculina e onipotente.
Em segundo lugar, é sumamente discutível que o advento do pensamento monoteístico — em sua forma rígida e inflexível — fosse um sinal de progresso da civilização. Com a chegada do Deus Pai deu-se a degradação da Terra, da mulher, do corpo, do sexo e das tarefas mais naturais em que os povos primitivos encontravam alegria e felicidade e que passaram então a chamar-se "trabalho": coletar e preparar alimentos, construir abrigos, fabricar ferramentas e artefatos úteis, etc. Além disso, as culturas que se desenvolveram em torno da noção de um Deus Pai autoritário oprimem inevitavelmente aqueles que não se enquadram na imagem do homem adulto e todo-poderoso: as crianças, os homossexuais e as comunidades não-humanas de vida animal, vegetal e mineral com quem convivemos e compartilhamos o nosso planeta. No rígido pensamento patriarcal, tudo isso só tem valor na medida em que sirva às instituições dominadas pelo macho.
Quais eram os originais propósitos patriarcais? Em que teia de eventos se originou o patriarcado? As culturas da Deusa floresceram e prosperaram em climas temperados, onde a vida animal e vegetal é abundante. Todos tinham um acesso relativamente igual aos recursos vitais e não havia necessidade de criar instituições de poder ou de impor a submissão a tais instituições para garantir a sobrevivência. A história européia em seus primórdios conta que essas culturas da Deusa foram invadidas por povos de pele mais clara e cabelos louros, provenientes dos climas mais frios e mais ásperos do norte. Esses invasores arianos cultuavam Deuses Celestes ou Deuses do Trovão, que residiam usualmente no topo das montanhas, afastados da terra inóspita, como os invasores a viam. Os historiadores descreveram numerosas ondas dessas invasões arianas na índia, no Oriente Médio, Egito, Grécia e Creta. A maior parte delas ocorreu entre 2500 e 1500 antes da era cristã, o mesmo período em que os mitos sagrados estavam sendo revistos.
Por que vieram eles? Em climas menos acolhedores havia maior incentivo para adquirir e armazenar alimentos e recursos. A sobrevivência dependia disso. Os grupos em que as necessidades da vida escasseavam assaltavam outras povoações mais afortunadas e tomavam-lhes pela força o que precisavam. Com o tempo, isso deu origem a uma classe guerreira e a guerra tornou-se uma instituição essencial à sobrevivência e ao crescimento de um modo que era desconhecido nas culturas mais temperadas do sul.
É interessante assinalar que as incursões patriarcais vindas do norte coincidiram com importantes desenvolvimentos na metalurgia. Embora datas exatas não sejam conhecidas, os historiadores conjeturam que, por volta de 2500 antes da era cristã, os hititas patriarcais desenvolveram a tecnologia necessária para fundir o ferro. Da Idade da Pedra à Idade do Bronze, as armas eram simples e rudimentares — machados, clavas, fundas -- objetos pessoais acessíveis a todos. Ninguém tinha o monopólio dos meios de guerra. As culturas matriarcais eram relativamente pacíficas; quando a violência ocorria, consistia em escaramuças pessoais e esporádicas. Mas com a capacidade de fabricar armas mais sólidas e mais potentes, a natureza da guerra mudou. Era necessário treinamento para aprender como usar as mais recentes armas. Vigor físico e destreza — e o tempo para desenvolver esses requisitos -- passaram a ser de suprema importância. Os grupos incursores converteram-se em grêmios masculinos, uma vez que o homem, que está livre da gravidez e da criação dos filhos, tinha tempo de sobra para tornar-se guerreiro "profissional" e podia permitir-se ficar afastado de seus acampamentos ou povoados por longos períodos de tempo. Os historiadores depreendem que os novos desenvolvimentos na metalurgia transformaram-se numa indústria masculina orientada para a guerra. As mais antigas indústrias do estanho, ouro e prata, administradas primordialmente por mulheres, tinham produzido jóias, ornamentos e objetos de uso doméstico.
As invasões patriarcais ocorreram ao longo de muitos séculos. Nem todas foram bem-sucedidas e sofreram numerosos reveses, mas em alguns lugares as duas culturas coexistiram bastante bem e misturaram suas respectivas crenças religiosas. As culturas matriarcais não desapareceram de um dia para o outro, mas foram lentamente erodidas pela própria natureza da nova guerra. A guerra organizada tinha por objetivo a obtenção de despojos. E entre os despojes de guerra estavam as mulheres e crianças. Os guerreiros podiam violentar e raptar mulheres, roubar crianças e escravizar prisioneiros. Com o tempo, o status das mulheres nivelou-se com o dos escravos e das crianças, e os costumes sociais mudaram para refletir as novas estruturas da sociedade. Famílias patriarcais tornaram-se a norma. A mulher tornou-se subserviente a seu marido, que era legalmente o proprietário dela, de todos os bens dela, e de seus filhos. Os homens passaram a um plano social, econômica e politicamente dominante e, finalmente, instituições, leis, valores e costumes sociais refletiram o mito da superioridade masculina. As sociedades patriarcais organizadas em torno da guerra basearam-se em valores violentos, militaristas, e a ética masculina, guerreira -- e o modo de vida -- foram legitimados pelos pronunciamentos de um Deus Pai belicoso e ciumento.
Autoritarismo, disciplina, competição, noções de que "o poder faz o direito", "ao vencedor pertencem os despojos", e numerosas punições para o comportamento desviante. tornaram-se os sustentáculos da ética masculina. A partir da Idade do Bronze, esses valores caracterizaram a política, religião, economia, educação e vida familiar ocidentais. Ironicamente, como a revolução patriarcal da Idade do Bronze coincidiu com o início da história escrita, criou-se a impressão de ser esse o modo como as coisas sempre tinham sido. Mas o patriarcado é um desenvolvimento bastante recente nos últimos quatro mil anos. É ainda uma experiência nova quando comparada com as centenas de milhares de anos em que os seres humanos viveram em sociedades matriarcais. É uma simples gota num balde em comparação com os 3,5 bilhões de anos em que outras formas de vida existiram no planeta.

Texto extraído do Livro: O poder da Bruxa - Laurie Cabot, pag 57 à 64.

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