quinta-feira, 16 de abril de 2015

O Princípio Feminino na Tradição Nórdica.


O PRINCÍPIO FEMININO NA TRADIÇÃO NÓRDICA
“Não são menos sagradas as deusas, nem seus poderes são menores do que os dos deuses.”
Prose Edda, Gylfaginning 19

É inegável a importância do antigo culto das deusas nos países escandinavos, bálticos e germânicos. São testemunhos cada vez mais convincentes os achados arqueológicos do último século; as referências encontradas nos mitos, lendas e folclore; a permanência de práticas matrifocais e reverência às deusas dos nativos sami (espalhados pela Noruega, Suécia, Finlândia, Norte da Sibéria) e as inúmeras inscrições a elas de dica das, muitas erguidas em sinal de gratidão por homens (reis, guerreiros, camponeses, navegantes, viajantes).

Na antiga Escandinávia o xamanismo era uma tradição feminina, regida por Freyja, praticada por suas sacerdotisas e que sobreviveu durante a Idade do Bronze e do Ferro, até a chegada do cristianismo. Entre os sami e as tribos siberianas persistem memórias dos poderes mágicos da primeira xamã, a Ancestral chamada “Mãe dos Animais”. As tribos altaicas reverenciam até hoje a Terra como um ser consciente, vivo, animado, que não pode ser ferido, prejudicado ou ofendido. As sim como os rios, as pedras e as árvores também são seres vivos governados pela Mãe das Águas, A Mulher da Floresta, A Mãe do Vento ou a Anciã das Pedras, pois tudo na Natureza tinha sua Mãe e era vivo. Para os antigos nórdicos, a Estrela Polar era um lugar sagrado e mágico, pela qual se podia penetrar no Mundo Superior, representado pela constelação da Ursa Maior, regida pela “Mãe Ursa”, enquanto as tribos árticas acreditavam que a Ursa Maior pertencia à “Mãe-Alce” e a Ursa Menor, à sua filha. As “Mães Ursas” e “Mães-Alce” são personificações da “Mãe Ártica dos Animais”, de suma importância para os povos árticos. As suas estrelas os guiavam nos seus deslocamentos e a “Grande Ursa” era a “Senhora da Ressurreição”, que guardava as almas e lhes devolvia a vida. “O mundo dos mor tos” dessas tribos era alcançado por meio de uma gruta, que levava para dentro de uma montanha ou lago, lugares consagrados à Deusa, conforme atestam inúmeras inscrições rupestres com figuras femininas pintadas em vermelho nas paredes de cavernas e nos rochedos.
Na interpretação não-acadêmica do mito da criação feita pela escritora Monica Sjöo, no início havia somente o grande ventre da deusa Hel, representado pelo abismo Ginnungagap, enquanto a fonte Hvergelmir, que deu origem aos doze rios Elivag, era o seu próprio caldeirão rodopiante. O gigante Ymir era hermafrodita, simbolizando a terra congelada, e a vaca branca Audhumbla era o próprio Sol, que derreteu o gelo e, do seu leite, proporcionou a formação da vida. Hel teria sido a Mãe Ártica, cultuada pelos povos do extremo Norte, enquanto Nerthus era a Mãe Terra, senhora da terra fértil. Hel foi transfigurada pelos historiados, de Mãe ancestral em tenebrosa regente do mundo dos mortos. Porém, a fonte de Urd é ligada ao reino de Hel e são as suas águas que proporcionam o conhecimento e a cura e mantêm a Árvore do Mundo viva. As Nornes pertencem à raça antiga dos gigantes, medem o tempo, preservam a teia da criação e guardam a sabedoria das runas, que são inscritas nas suas unhas e escondidas na Natureza. A própria fonte de Mimir era a representação do soma da Deusa e o seu sangue menstrual, detentor de poder mágico e do conhecimento (roubado depois por Odin, como é descrito no mito de Gunnlud). Para obter a sabedoria, Odin sacrificou-se, ou seja, entregou-se às Nornes imolando-se na Árvore Mãe e passando pela vivência xamânica de “quase-morte”.
Há semelhanças entre as Nornes e as deusas Akkas dos nativos sami, assim como a escrita Hälristningar, precursora das runas, reproduz antigos glifos neolíticos associados à Deusa nas culturas europeias (5000 a.C.), conforme demonstra a antropóloga, arqueóloga e escritora Marija Gimbutas, no livro The Language of the Goddess.
Antes que os barcos se tornassem símbolos das conquistas viking ou servissem como túmulos dos guerreiros (substituindo os troncos de árvores usados antigamente), eles reproduziam nos petróglifos a Deusa como a doadora de vida e luz; o barco simbolizava a sua yoni (vulva) ou o veículo da deusa solar para se deslocar pelo céu, sendo um dos motivos mais freqüentes encontrado em inscrições ou nos túmulos.

Existem mais de mil inscrições em pedras dedicadas às “Matronas” ou “Mães Tríplices” germânicas; no centro dos seus templos sempre existia uma fonte representando a Fonte da Criação. A reverência às fontes remonta ao período Neolítico e em muitas delas foram encontradas, posteriormente, fragmentos de estatuetas femininas, destruídas pelos cristãos. As “Matronas” ou “Mães Tríplices” eram as reminiscências dos arquétipos das Mães Criadoras do passado europeu, personificadas pelas Matriarcas das tribos, enquanto as “Mães e Mulheres das Florestas” permaneceram como Huldre Folk, o povo da deusa nórdica Huldra (ou Holda). “Kalevala”, a grande epopeia finlandesa (transcrita no século XIX por Elias Lönnrot, a partir do enorme trabalho de colecionar canções e poemas antigos) descreve a formação do mundo pela deusa Ilmatar, “Senhora do Ar”, que flutuava no mar e foi fecundada pelo vento. Ajuda da pela “Mãe-Pássaro”, Ilmatar criou a Terra, o Sol, a Lua, as estrelas, aliando dessa forma, no mito, imagens existentes em outras culturas antigas (a Mãe Cósmica pondo o ovo primordial da criação e o arquétipo das “Mães-Pássaro”).
Para as tribos siberianas os poderes procriativos pertenciam à “Mãe Celeste”, depois equiparada com Maria, enquanto o fogo celeste era o domínio da “Mãe, Mulher ou Anciã do Fogo”.
Para os mongóis o “Pai do Fogo” era o ferro; a Mãe, a pedra, e da sua fricção nascia a vida. No entanto, apesar das inúmeras citações e nomes de deusas nos textos escandinavos, bálticos e germânicos e do grande número de crenças e superstições em relação a seres sobrenaturais do sexo feminino, há poucas informações a respeito dos seus cultos, cerimônias e rituais.
Entre pesquisadores, historiadores e escritores existem controvérsias a respeito da existência — ou não — de uma única Mãe Ancestral, cultuada sob diferentes nomes e títulos, ou se existiam diferentes categorias de divindades, dependendo das funções e atividades a elas atribuídas.
A dificuldade para se chegar a um consenso científico, filosófico e metafísico deve-se à escassez de textos antigos e às transcrições e interpretações tendenciosas ou distorcidas feitas por historiadores cristãos, a maioria deles monges. Eles imprimiram seus preconceitos misóginos e puritanos aos textos originais, omitindo tudo o que pudesse ser “nocivo para a alma cristã”, como ritos de fertilidade, rituais femininos, participação de mulheres nos cultos e cerimônias e o domínio que elas tinham das artes oraculares, proféticas e curativas.
Os textos antigos considerados clássicos são as Eddas, sendo que Edda significa bisavó, equivalente de Erda ou Mãe Terra. A criação do mundo é descrita no poema “Völuspa” intitulado “As Profecias — ou a Visão — da Grande Vala (profetisa)”, possivelmente escrito em torno do ano 1000. As Eddas em versos (Older Edda) são baseadas em fontes orais e anônimas provenientes de lendas nórdicas e germânicas, coletadas em torno do ano 700. As Eddas em prosa (Younger Eddas) foram escritas por Snorri Sturluson no século XIII, usando material proveniente do século IX. Porém, mesmo nessas obras existem poucas informações sobre cultos femininos e as descrições das deusas são sucintas. A ênfase recai sobre as figuras e mitos dos deuses e heróis, resultando em uma literatura centrada nos temas da guerra e da conquista, que serviu como base para os poemas e epopéias do período viking e diminuiu consideravelmente o valor e o interesse por temas relacionados ao feminino.
Somente no século XX as contribuições de antropólogas, arqueólogas, historiadoras e escritoras, como as valiosas obras de Marija Gimbutas, os livros de Hilda Davidson, Merlin
Stone e os trabalhos de Freya Aswynn, Jenny Blain, Linda Welch, Monica Sjöo, bem como as práticas de seidhr do grupo Hrafnar, conduzido pela escritora e pesquisadora Diana Paxson e seus inúmeros artigos, lançaram novas luzes sobre a importância dos arquétipos divinos femininos e dos seus cultos, nos antigos países nórdicos.
O culto da Deusa floresceu durante o período Paleolítico e Neolítico nas diversas culturas da área chamada por Marija Gimbutas de “Europa Antiga”, que se estendia dos Pirineus até a Rússia e de Malta e Creta até a Escandinávia. Essas sociedades antigas eram matrifocais, pacíficas e estáveis; reverenciavam as manifestações da Deusa em toda a Natureza (céu, Lua, Sol, estrelas, chuva, neve, terra, mar, águas, montanhas, florestas, plantas, grutas, animais) e honravam suas representantes na Terra, as mulheres. A divinização das forças da Natureza deu origem às divindades Vanir, consideradas “as doadoras das coisas boas” (fertilidade, amor, sexo, vida, sabedoria).
Existem evidências arqueológicas e antropológicas sobre a permanência do culto arcaico das divindades Vanir, das Disir, Matronas e dos Land Vættir, os espíritos da Natureza, semelhantes ao “Povo das Fadas” celta (Little People) durante a Idade do Bronze, até a chega da das tribos nômades e guerreiras vindas das estepes siberianas, no início da Idade do Ferro (400 a.C.). O mundo pacífico dos adoradores dos Vanir foi dominado pela cobiça e violência dos conquistadores indo-europeus, cujo panteão formado por “Senhores do Céu, dos Raios, dos Trovões e das Batalhas” foi se sobrepondo às divindades autóctones que regiam a terra, as forças da Natureza, a fertilidade e a sexualidade. Porém, apesar da concorrência dos deuses celestes, as deusas nativas preservaram seu posto e mantiveram sua autoridade. Diferentemente das deusas gregas — cultuadas principalmente por mulheres —, as nórdicas eram reverenciadas também pelos guerreiros por estarem “presentes” no campo de batalha, enfraquecendo os inimigos e conferindo vitórias aos seus escolhidos, conduzindo exércitos e inspirando os heróis.
Os reis as invocavam para proteger suas dinastias, os poetas e contadores de histórias dedicavam-lhe odes e louvores pedindo sua intervenção e auxílio nos afazeres humanos, no bem-estar das comunidades e na defesa contra inimigos e cataclismos naturais. Foi assim que o arquétipo das deusas permaneceu atuante e poderoso, mesmo no reinado de guerreiros e heróis, além de continuar a ser o centro das súplicas e oferendas dos agricultores, dos caçadores, dos navegantes, dos pescadores, dos comerciantes e principalmente das mulheres.
É importante lembrar a divisão de atribuições entre homens e mulheres nas sociedades nórdicas, para compreender como o culto das deusas permaneceu até mesmo após a cristianização, que foi mais tardia na Escandinávia do que no resto da Europa. Até os séculos X–XII, a Islândia, a Noruega e a Suécia mantiveram-se “pagãs” e seus camponeses e mulheres preservaram as antigas práticas e tradições até o século XIX.
As mulheres nórdicas assumiam todas as atividades que lhes permitiam permanecer próximas das crianças e da casa, incluindo o cuidado com os animais e as lavouras, o artesanato (fiagem, tecelagem, cerâmica, couro), a cura dos doentes, a coleta de ervas medicinais, os ritos de passagem femininos (menarca, gravidez, parto, menopausa), os cuidados com os velhos e os moribundos, bem como os ritos funerários e o culto dos ancestrais. Essas atividades em conjunto criavam laços entre as mulheres, que juntas faziam os rituais, as oferendas e cerimônias, fosse com objetivos exclusivamente ligados à sua condição feminina, fosse em benefício de toda a comunidade (para melhorar as condições do tempo, favorecer a colheita, fortalecer os guerreiros, vencer os inimigos, defender suas casas e famílias, cuidar dos feridos, conduzir a alma dos mortos para o reino de Hel). Fazia parte do cotidiano mágico feminino a arte de “tecer” encantamentos e atributos de poder, força, coragem e proteção na tessitura das roupas dos guerreiros, nos estandartes das tribos, bem como realizar a magia dos nós e das tranças de fios para unir casais, curar doentes e proteger crianças. Era conhecida a habilidade das mulheres escandinavas para curar feridas com ervas e encantamentos, curar com a imposição de mãos e usar “pedras de cura” nos partos e nas doenças. Os homens participavam de certos rituais (como na celebração das colheitas ou nos ritos funerários) e em outras oportunidades eles reverenciavam individualmente as deusas, visando benefícios pessoais (sucesso na caça e na pesca, nas batalhas, nas vinganças, nos objetivos políticos, em viagens, no mar, na cura das doenças, para defesa e proteção) ou buscavam orientação e ajuda consultando videntes, profetisas, xamãs, curandeiras.
O culto às deusas também tinha uma importância política, pois seus poderes eram invocados para garantir a permanência e a popularidade dos reis. Existem registros detalhados da devoção de certos reis, que dedicavam templos, estátuas e homenagens às suas “madrinhas” e protetoras. Posteriormente, o lugar dessas deusas responsáveis pelas dinastias reais e as vitórias nos combates foi outorgado a Odin, Frey, Thor e Tyr. Além de buscar o apoio divino para seu domínio, os reis precisavam garantir a fertilidade da terra para não correrem o risco de serem depostos ou sacrificados, caso as colheitas fossem minguadas ou perdidas. Para isso eles participavam do “casamento sagrado”, um rito de fertilidade presente em várias culturas antigas, no qual a sacerdotisa representando a Deusa da Terra se unia ao rei, para lhe transmitir o dom da prosperidade, a soberania e o poder de governar bem o seu povo.
Uma classificação interessante dos papéis atribuídos às deusas nórdicas é descrita por Hilda Davidson, no seu livro Roles of the Northern Goddesses. Como as funções das deusas muitas vezes se sobrepunham, pelo fato de não serem arquétipos “especializados”, regentes apenas de um setor da vida humana, essa classificação facilita a compreensão da multiplicidade de nomes e títulos divinos, e os apresenta de modo ordenado, segundo as áreas da sua atuação. São elas:
1. “A Senhora dos Animais”, cuja regência estendeu-se depois para o gado, os animais domésticos, as florestas, as árvores, os caçadores, os lenhadores e os viajantes.
2. “A Senhora dos Grãos”, título que inclui as deusas regentes da fertilidade das mulheres, os seus “ciclos de sangue”, o casamento, a procriação, o par to, o cuidado com as crianças e a terra (arar, semear, colher, preservar, evitar pragas, seca e granizo). Desse grupo faziam parte as “Matronas” ou “Mães”.
3. “A Senhora do Fuso e do Tear”, que regia as atividades domésticas e artesanais, bem como o destino e o desenvolvimento da vida (como as Nornes e as Disir). Fiar e tecer eram considerados atos mágicos, usados não somente para fins utilitários, mas também para criar, amarrar e entrelaçar na tessitura ou na trama dos fios e nós, encantamentos e poderes mágicos das runas.
4. “A Senhora do Lar e da Lareira” representava as Guardiãs: do fogo (comum e sagrado), da preparação da comida, da alimentação e nutrição, da proteção das crianças e mulheres (durante e depois do parto), da cura e da educação. Com o passar do tempo, algumas dessas deusas foram transformadas nos espíritos guardiães das pessoas e das casas (chamados nissen) e nas “fadas madrinhas”.
5. “A Senhora da Vida e da Morte”, que inspirava temor e reverência, pois não era apenas a “Doadora”, mas também a “Ceifadora” da vida. Além de reger a saúde e as ervas de cura, ela também cuidava dos moribundos, orientava as almas na sua passagem e era responsável pelos ritos funerários e pelo mundo dos mortos. Por ter o poder sobre o nascimento, a vida, a cura e a morte, o seu culto não era restrito às mulheres, mas extensivo aos homens, que também precisavam de sua proteção e auxílio.
Não existem descrições de talhadas sobre a forma pela qual se cultuavam as deusas. Sabe-se apenas que não havia um culto organizado, nem templos faustosos. As cerimônias eram simples, realizadas quando necessário, no âmbito familiar ou coletivo, por sacerdotes e sacerdotisas, nos plantios e nas colheitas; antes de caçadas, viagens ou guerras; e durante os períodos de seca, inundação, tempestades ou epidemias. As deusas muitas vezes eram reverenciadas em conjunto (como Matronas, Disir, Valquírias), além das homenagens e oferendas feitas para deusas específicas ou padroeiras locais. Havia rituais secretos para os pontos de transição na vida das mulheres, os chamados “Mistérios de Sangue”, para os quais se realizavam “ritos de passagem”. O equivalente masculino era a iniciação dos rapazes no mundo dos adultos ou sua consagração como guerreiros. Prevaleciam os ritos e rituais femininos em relação aos masculinos, por ser o universo das mulheres muito mais complexo, amplo e diversificado.
Como nas línguas escandinavas, bálticas e germânicas a Lua é do gênero masculino e regida por um deus auxiliado por uma mortal divinizada, não há relatos sobre cultos e rituais lunares, como existiam nas tradições dos povos mediterrâneos. Porém, existia um culto bem definido ao Sol, regido não por um Deus, mas por uma Deusa, pois a sobreviência da vegetação e a própria vida humana dependiam da energia calorosa, generosa e nutriz de uma fonte divina feminina. Numerosas estatuetas femininas com símbolos solares foram encontradas nas escavações de residências e de pequenos altares, comprovando a existência de um culto solar doméstico e diário, realizado sempre por mulheres. Os povos nórdicos consideravam as mulheres como detentoras de poderes mágicos e de habilidades espirituais especiais, que lhes permitiam atuar como intermediárias entre os homens e as divindades.
Uma característica marcante das deusas nórdicas é sua função de “guardiãs dos limites e transições”, existentes na Natureza, na vida das mulheres e entre os mundos. Eram elas os pilares que sustentavam e protegiam a vida e o crescimento (vegetal, animal, humano), que incentivavam e zelavam pela sexualidade, fertilidade, união, procriação, nascimento e morte.
Elas assistiam à inevitável passagem de cada geração e zelavam pelo legado deixado aos descendentes, bem como eram responsáveis pela trajetória da alma entre uma vida e outra, elo culto dos antepassados e pelos ritos funerários.
Para as mulheres, elas eram patronas, guardiãs e conselheiras em todos os acontecimentos significativos ao longo da vida e nos relacionamentos com os homens, com as crianças e com outras mulheres. Não somente as mulheres as reverenciavam e a elas recorriam em busca de auxílio, mas se tornavam suas representantes na transmissão de orientações e profecias, e na realização de rituais, encantamentos e curas (como völva, gythia, seidhkona, spækona, xamã, parteira ou curandeira).
O culto das deusas nórdicas levava em consideração todas as suas faces, como Nutridoras e Destruidoras, simbolizando as próprias manifestações da Natureza, as intempéries e os aspectos sombrios do ser humano. Eram “senhoras” das montanhas, dos lagos, dos rios e das fontes, mas também da neve, das tempestades e dos naufrágios. Essas características as definem como divindades Vanir, apesar de algumas delas serem descritas como pertencendo aos Æsir, o que confirma a combinação do panteão das tribos conquistadoras como dos povos nativos, cuja tradição era centrada na reverência à terra e às forças da Natureza.
Com o passar do tempo, passou-se a dar ênfase cada vez maior ao culto e às oferendas para divindades masculinas, bem como aos valores guerreiros das tradições; porém, foram preservados os nomes e os mitos das deusas, mesmo que fragmentados ou minimizados.
O advento do cristianismo levou a uma perseguição intensa do princípio sagrado feminino. O seu papel na criação e manutenção da vida é omitido ou fragmentado nos mitos e nas sagas, fato que permitiu ao clero reduzir as antigas deusas a entidades menores ou seres da Natureza. Após a perseguição durante a Inquisição e a conseqüente proibição do seu culto, elas foram, aos poucos, relegadas ao esquecimento, permanecendo apenas no inconsciente coletivo, na memória ancestral, no folclore e nos contos de fadas.
Por ser a Tradição Nórdica eminentemente oral, o legado milenar foi se perdendo e sendo esquecido à medida que o povo foi convertido — à força — à nova fé e proibido de continuar suas antigas práticas e costumes. As mulheres foram desprovidas de modelos divinos femininos e obrigadas a aceitar a hierarquia masculina: espiritual, religiosa e social. Atualmente, as práticas milenares e a sabedoria ancestral dos povos nórdicos estão sendo resgatadas e revitalizadas pelas pesquisadoras e divulgadoras da antiga fé. Mesmo que ainda prevaleça o sexo masculino na literatura, na formação e na condução dos grupos Odinistas e Asatrú, há um aumento gradativo no número de mulheres participantes ou estudiosas.
Há muito que fazer, pesquisar, escrever, praticar e divulgar, para que o atual renascimento da Tradição Nórdica seja fiel aos antigos valores de equilíbrio das polaridades e dos princípios divinos e humanos. Existem desafios a vencer dada a complexidade dos mitos, simbolismos, nomenclaturas e características; mas, se as mulheres atraídas pelos mistérios e poderes mágicos do tesouro nórdico despertarem sua Valquíria interior, com certeza poderão atravessar a Ponte do Arco-Íris e alcançar a morada das deusas.
Guiadas pela fé e a intuição, independentemente de sua origem ou herança cultural, mas sintonizadas com a riqueza natural, mitológica e mágica das terras nórdicas, cada vez mais mulheres contemporâneas vão poder abrir a mente e o espírito, invocar as Guardiãs e Matriarcas da Tradição e despertar as memórias dos antigos cultos e cerimônias da sacralidade feminina.
Quando divindades outrora poderosas não mais são reverenciadas ou homenageadas, sua essência não desaparece, mas se retrai e permanece oculta no inconsciente coletivo e no folclore. Ao serem novamente cultuadas e lembradas, elas voltam e atendem àqueles que as conhecem e invocam.

“All that was lost will be found again,
In a new man ner, in a new way.”
[Tudo o que foi perdido será resgatado,
de uma no va for ma e ma nei ra de ser.]

Texto extraído na íntegra do livro: Mistérios Nórdicos da Mirella Faur - pag 425 - 431.

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