quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A caracterização da Divindade.


A caracterização da divindade
A literatura específica consagrou a Wicca como uma "religião da Deusa". Isso significa que existiria uma divindade arquetípica primordial de caráter feminino, chamada simplesmente de "Deusa" ou, mais raramente, de "Deusa-Mãe". A Deusa gera o Deus-Consorte, que a fecunda e é sacrificado, ao final de cada ciclo, para renascer no início do ciclo seguinte. Tais temas - a hierogamia divina e o sacrifício do deus - são comuns a quase todas as civilizações agrícolas, representando o ciclo anual de plantio e colheita.
Uma figura recorrente encontrada na literatura é, igualmente, a afirmação que "todas as deusas são a Deusa e todos os deuses são o Deus", significando um panteísmo que admite, a princípio, que os inúmeros deuses e deusas dos diversos panteões podem ser encarados como visões particulares da divindade arquetípica, onde determinados atributos são particularizados. Apesar disso, muitos livros sobre o assunto admitem a existência real e individual das divindades, baseando-se principalmente na noção ocultista de "egrégora" ou "formas de pensamento".
A parte do questionário que buscava caracterizar o pensamento da Wicca a respeito da existência e do caráter da divindade, ou das divindades, em que se baseia o culto, constava de seis afirmações, a saber¹:

a) A Wicca é uma religião centrada no culto a uma divindade superior feminina, a Deusa.
b) A Deusa é a divindade criadora de todas as coisas.
c) Embora criado pela Deusa, o Deus-Consorte é equivalente a ela em importância.
d) A Deusa e seu consorte, o Deus, são apenas alegorias ou mitos ligados a fertilidade da natureza.
e) Os diversos deuses e deusas são apenas manifestações da divindade criadora.
f) Os diversos deuses e deusas possuem existência real e independente.

Considerando-se as respostas daqueles que declararam sua religião como sendo a Wicca, nota-se alguma indefinição apenas em relação à afirmação ligada a ideia de criacionismo. Mesmo assim, há uma predominância daqueles que aceitam a ideia de uma divindade criadora, em consonância com a ideia expressa na literatura, mesmo que de forma metafórica. Os itens c e d foram também respondidos de acordo com o esperado, se nos basearmos na literatura sobre o assunto, estabelecendo uma equivalência entre as duas figuras divinas centrais do culto e negando seu caráter alegórico ou arquetípico de representações de fenômenos naturais.
Já a porcentagem de respostas ao item a desvia-se de forma pronunciada ao senso comum em relação à crença da Wicca, negando ser esta uma religião centrada no culto a uma divindade superior feminina. De certa forma, pode-se interpretar esta resposta como complementar àquela que admite a importância equivalente entre Deusa e Deus. Inconsistentes com a literatura são também as respostas aos dois últimos itens. Nega-se a máxima citada anteriormente, que descreve os diversos deuses como aspectos da divindade (ou das divindades) primordial e, ainda, não se reconhece a individualidade dessas divindades.

Cotejando-se esses resultados com aqueles apresentados pelo grupo que se declarou pertencente a outras religiões (incluindo agnósticos e ateus), não se percebe uma diferença marcante entre a auto-concepção dos wiccanos e a imagem que o grupo diversificado faz desta religião. A única exceção digna de nota refere-se, como era de se esperar, ao fato de que este último grupo considera a Wicca uma religião centrada no culto a uma Deusa.
Observa-se, portanto, que a crença da Wicca considera a existência de duas divindades opostas e complementares, equivalentes em importância. Tais divindades não são encaradas como mitos ou alegorias que representam o caráter cíclico das estações mas, de toda maneira, não existe um consenso quanto a existência efetiva de deuses ou deusas, como entidades conscientes ou independentes.
Tanto no grupo dos wiccanos quanto no grupo de controle, esse resultado não é significativamente afetado pela idade dos respondentes, mas nota-se uma tendência a considerar as divindades de forma mais simbólica, conforme aumenta a escolaridade. 

Fundamentação histórico-mitológica da crença 

Como indicamos anteriormente, a principal fundamentação histórica contida na Wicca refere-se a uma pretensa continuidade. Todos os livros sobre o assunto baseiam suas argumentações na inquestionável existência de uma religião pré-cristã matrifocal que seria praticada na Europa Ocidental desde tempos neolíticos, religião esta que seria uma forma ancestral da Wicca. Estes argumentos, logicamente, não encontram nenhum respaldo nos atuais conhecimentos da antropologia ou da história, principalmente por partirem de uma generalização ou uniformização de crenças em um período em que isso seria incabível. Da mesma forma, levando-se em consideração a cristianização da Europa a partir da Idade Média, pode-se quando muito falar em sobrevivências de costumes pagãos na cultura popular ou absorvidos e integrados à crença cristã, mas não de uma sobrevivência do paganismo, muito menos como religião organizada.
É importante ressaltar que nenhum livro sobre o assunto apresenta a figura de Gerald B. Gardner como criador da Wicca, mas quando muito como sistematizador. O próprio Gardner, em suas obras, afirma estar apenas repassando conhecimentos que teria obtido de pessoas que o haviam iniciado nos "antigos segredos".
No entanto, não é do escopo desta pesquisa questionar tais premissas. Qualquer religião possui uma pretensa historicidade, normalmente remontando a períodos muito recuados no tempo, e sobre os quais poucas afirmações seguras podem ser feitas. Buscamos apenas detectar o nível de credibilidade dessa historização entre os praticantes e até que ponto ela pertence ao imaginário dos não-praticantes em relação à Wicca.

As afirmações referentes à fundamentação histórica foram as seguintes²:

a) A Wicca é a "Velha Religião" que já era praticada na Europa Ocidental pré cristã.
b) A Wicca foi criada na década de 1950 por Gerald B. Gardner.
c) As pessoas mortas pela Inquisição, entre os séculos XV e XVII, eram praticantes da "Antiga Religião" resgatada pela Wicca.
d) As bruxas atuais são herdeiras espirituais daquelas bruxas mortas pela Inquisição.

A característica principal que se nota ao examinar as respostas é a indefinição, com resultados oscilando cerca de 3 pontos percentuais acima ou abaixo da média. Dessa maneira, pode-se dizer que não há um consenso sobre os temas tratados, embora a tendência geral tenha sido acompanhar aquilo que é preconizado pela história e pela antropologia e descartar a ideia de continuidade contida nos livros sobre o assunto. Vale dizer que esse resultado mostra uma significativa mudança em relação a uma pesquisa semelhante realizada por nós há dois anos, quando a grande maioria dos respondentes tendia a considerar a Wicca uma continuidade de antigas tradições e a aceitar a ideia de que a perseguição à bruxaria européia estava relacionada a uma tentativa da Igreja Católica de combater a persistência de uma religião organizada do paganismo (DUARTE, 2003). De forma até certo ponto surpreendente, a afirmativa ''d'' foi a mais rejeitada (74,8%), justamente a que relaciona diretamente os atuais praticantes da Wicca às pessoas mortas pela Inquisição.

Ao mesmo tempo foi igualmente rejeitada, embora com menor ênfase, a ideia de que a Wicca tenha sido criada na década de 1950 por Gardner. Aparentemente esses resultados mostram uma conscientização dos praticantes da Wicca a respeito das origens de suas crenças, provavelmente devido à multiplicação dos debates sobre o assunto nos últimos anos, muito embora ainda persista a noção de sobrevivência ou resgate de crenças pagãs, negando-se a contemporaneidade do surgimento da religião.
Deve-se ainda levar em consideração que apenas entre os praticantes mais velhos surge a predominância da ideia que a Wicca é a "Velha Religião" (52,2%), e que apenas entre os mais jovens predomina a ideia de que as pessoas mortas pela Inquisição seriam antigos praticantes da Wicca (54,3%). Embora, como já apontado, as diferenças percentuais não sejam concludentes, essas pequenas variações parecem apontar uma ligeira tendência ao conservadorismo entre os mais velhos e a adesão à idéias "românticas" entre os mais jovens, o que seria de se esperar.
Não há divergência nos resultados do grupo de controle, formado por praticantes de outras religiões, embora neste grupo as diferenças percentuais sejam mais expressivas. Isso parece indicar que há uma progressiva aproximação entre as crenças da Wicca e aquilo que é comumente aceito sobre elas.

NOTAS:
1 Com exceção da afirmativa das demais foram extraídas textualmente ou adaptadas de livros sobre o assunto.
2 Com exceção da afirmativa b, as demais foram retiradas textualmente da literatura sobre o assunto.

Extraído do livro: A Wicca - uma religião do novo milênio de Jan Duarte

Um comentário:

  1. muito interesssante por ser um resultado de pequisa e não "achismo"...eu gostaria de lembrar que as informações mais recentes sobre o papel das mulheres no cristianismo mostra que Jesus buscou elevar seu papel que era colocada bem em segundo plano...não se contavam mulheres e crianças nessa época por serem consideradas cidadãos de segunda classe...o Evangelho apócrifo de Maria madalena e toda a especulaçao que foi feita no tocante a relação entre ela e Jesus mosta que de qualquer forma Madalena foi uma discipula e mestra aós a passagem de Jesus...tudo indica que nem todos os discipulos conseguiam ter a mesma visão de Jesus no tocante as mulheres...e é bom lembrar que como rezava a tradiçao judaica da época quem ensinou Jesus a ler e a compreender as Escrituras foi Maria, sua mãe...então contrariamente ao que se pensa no fundamento do cristianismo ha uma valorização da mulher...e numa versão do Pai Nosso em aramaico, supostamente comoo era rezado por Jesus a palavra Pai na verdade deveria ser mais apropariadamente traduziada como Pai-Mãe porque ela junta os dois aspectos em uma palavra só...grata pelo texto!

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