sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Ritos e práticas


Ritos e práticas
Como exposto na metodologia desse trabalho, ao abordar o tema ritos e práticas da Wicca, não nos prendemos àqueles conceitos ligados unicamente aos ritos sazonais que fazem parte de um calendário de celebrações wiccanianas, visto estes terem um caráter mais operacional do que propriamente ligado ao sistema de crenças, objetivo último dessa pesquisa. Todavia, interessa-nos as questões relativas à origem desses ritos, por estarem relacionadas com o arcabouço histórico-mitológico da crença.
De uma forma geral, a literatura específica sobre o assunto, seguindo a idéia de continuidade de tradições européias pré-cristãs descreve o calendário de celebrações wiccanianas como sendo originário das celebrações sazonais dos celtas. Ou seja, a literatura aponta as atuais celebrações como reproduções de ritos celtas, apesar de toda a incerteza que a arqueologia e a história possam ter sobre a maior parte desses ritos. Além disso, tais celebrações recebem o nome de sabás, numa alusão direta a denominação medievo-moderna das reuniões de bruxas, consagrada pela Inquisição. Outro aspecto preponderante na literatura wiccaniana é a magia, sendo poucos os livros que não consagram capítulos inteiros ao tema e havendo diversos que dedicam-se exclusivamente a ele. A leitura de tais livros leva a crer, na verdade, que pelo menos algum tipo de "pensamento mágico" é indissociável da prática da Wicca. A crença na efetividade da magia, baseada na eficácia de determinadas substâncias, de certos objetos e do "poder pessoal" do praticante, surge como atributo distintivo do bruxo moderno. Há, todavia, um afastamento sistemático dos conceitos explorados pela Magia Cerimonial, tradicionalmente ligada aos conceitos cristãos da possibilidade de manipulação de seres angélicos ou demoníacos.
Nesse item, duas afirmações referiam-se à historicidade dos rituais da Wicca, e três outras à prática da magia. Eram elas³:

a) Os rituais da Wicca reproduzem os antigos rituais celtas.
b) Os rituais da Wicca são frutos da mistura de técnicas de magia cerimonial e ritos sazonais, muitos dos quais presentes em várias outras religiões, inclusive o cristianismo.
c) A prática da Wicca é indissociável da prática da magia.
d) A magia funciona pela ação conjunta do poder do praticante, da interferência das divindades e/ou elementais e dos objetos utilizados (ervas, velas, incensos, etc.).
e) A magia é uma forma de sugestão, apenas, do praticante ou de terceiros.

Em relação às afirmações que se referem aos rituais da Wicca, as respostas indicam novamente uma aproximação do conhecimento histórico e, consequentemente, um repúdio ao que é consagrado pela literatura específica. Em proporções praticamente idênticas, tanto wiccanos quanto praticantes de outras religiões admitem que a celebração de ritos sazonais, diretamente ligados ao ciclo de plantio e colheita, como é o caso dos rituais da Wicca, são basicamente universais, e não característicos ou exclusivos de um determinado povo. Como era esperado, esta tendência acentua-se entre praticantes e não-praticantes de maior nível de escolaridade. Por outro lado, as afirmações relativas à magia constituíram-se nas maiores
unanimidades da pesquisa, independentemente de idade, escolaridade ou crença.
Porcentagens sempre maiores do que 65% e por vezes superiores a 90%, dependendo da faixa enfocada, rejeitaram a ideia de magia como uma forma de sugestão ou auto sugestão, e a atribuíram à ação conjunta de objetos, seres sobrenaturais e do praticante.
Depreende-se deste resultado uma crença generalizada na existência e eficácia da magia como realidade que transcende os limites psicológicos do ser humano, assentando-se numa supranormalidade que extrapola as explicações científicas. Sintomático, ainda, é verificar que a associação entre prática da Wicca e prática da magia foi veementemente rejeitada, exceto entre os respondentes mais velhos e com maior nível de escolaridade. Tal resultado, por si só surpreendente, carece de uma análise mais profunda, que não pode ser convenientemente embasada pelos dados obtidos nessa pesquisa. Apenas a título de conjectura, no entanto, poderíamos arriscar a hipótese de que, entre pessoas mais velhas e com maior acesso à informação, os desafios característicos da sociedade contemporânea levam à busca de religiosidades alternativas que ofereçam algo de "mágico", como uma válvula de escape às pressões do cotidiano4.

Princípios éticos e morais
A existência de princípios éticos e princípios morais que regulam o comportamento dos fiéis é uma característica presente na maior parte das religiões, sendo preponderante no cristianismo, judaísmo e islamismo e desempenhando um importante papel em várias religiões orientais. Na Wicca, tais preceitos reguladores de conduta estão praticamente ausentes. Na verdade, as maiores preocupações nesse sentido encontradas na literatura específica dizem respeito à observação de uma "ética mágica", intrinsecamente ligada à crença na possibilidade e na efetividade da magia.
Pode-se dizer, portanto, que os únicos preceitos wiccanos que se referem diretamente à regras de comportamento ético ou moral reduzem-se a dois. Um deles, geralmente conhecido como wiccan rede - conselho wiccano - traduz-se pela sentença "faz o que tu queres, desde que a ninguém prejudiques". O outro, conhecido como Lei Tríplice, ou Lei do Triplo Retorno, afirma que "tudo que fizeres a alguém voltará a ti triplicado". A primeira afirmativa é, obviamente, uma adaptação da máxima ocultista enunciada por Alesteir Crowley, "faz o que tu queres é o todo da lei", presente nos seus "Livros Sagrados" que datam do início do século XX (CROWLEY, 1998). A outra não difere de diversas leis de retorno dos atos praticados, encontradas em quase todas as religiões.
As afirmativas utilizadas na pesquisa, portanto, reproduzem essas duas máximas. Foram elas:

a) Todos os praticantes da Wicca devem seguir a máxima "faz o que tu queres, sem a ninguém prejudicar".
b) A Lei Tríplice, que diz que tudo que uma pessoa fizer voltará à ela triplicado, é algo a que todos os praticantes da Wicca estão sujeitos.

Os resultados, nesse item, foram concludentes. Em média, 81,6% dos wiccanos assinalaram tais afirmativas como verdadeiras, e novamente observou-se um aumento dessa porcentagem nos grupos de respondentes com mais idade ou maior escolaridade, chegando a um máximo de 92,3% nesse último. No grupo dos praticantes de outras religiões, houve também uma acentuada tendência de considerar verdadeiras as afirmativas acima.

Considerações finais
Pelos resultados colhidos na presente pesquisa, cremos ser seguro afirmar que a Wicca, no Brasil, é uma religião em desenvolvimento, que começa a estabelecer (ou a reformular) as suas bases doutrinárias a partir da própria opinião dos seus praticantes, deixando paulatinamente de lado conceitos expressos nos livros de autores consagrados, porém leigos, e acomodando-se a conceitos que a adequam à pesquisa histórica. Essa conclusão parece ser válida principalmente a partir de um progressivo, mas ainda indefinido, abandono de idéias romantizadas sobre a "Antiga Religião" pré-cristã e sobre a ligação da bruxaria medieval com a moderna, bem como o abandono da excessiva ênfase nas mitologias europeias. Parece estar surgindo entre os praticantes a ideia de que seus ritos e crenças podem conter elementos, e mesmo resgatar elementos, do paganismo típico dos povos agrícolas, mas não são uma expressão preservada através dos tempos desses ritos e crenças.
Na questão da divindade, a crença wiccana ainda surge nebulosa. Não parece haver entre os praticantes (e na verdade nem entre os autores) um consenso sobre o que representam, efetivamente, a figura da Deusa e do Deus-Consorte. A tendência é atribuir-lhes uma transcendência ou mesmo uma concepção figurativa, mas ainda rejeita-se a idéia de retratá-los como simples representações dos ciclos naturais. A noção da existência concreta da divindade, e mesmo de sua intervenção direta e particular na vida humana, típica da cultura judaico-cristã, está ainda fortemente presente nesse ponto particular.
Por fim, a questão da magia surge como preponderante. Ela é não apenas uma crença generalizada como, ainda, está relacionada diretamente aos princípios éticos e morais aceitos como norteadores de conduta, na religião. Seria, talvez, o caso de considerar a Wicca quase como uma "religião da magia", o que acabaria por diferenciá-la notadamente do cristianismo, e em especial do catolicismo, que vem deixando cada vez mais de lado seus aspectos místicos ou misteriosos. Dessa forma, talvez possamos encontrar aqui um dos atrativos principais dessa nova religião, uma vez que nossos resultados apontam para uma crença disseminada na magia, independentemente da religião.

Disseminada através da Internet, de inúmeros títulos nas livrarias e mesmo de publicações populares nas bancas de jornais, trazendo no conjunto das suas crenças uma reaproximação com a natureza e com as formas mais instintivas da religiosidade e, além disso, demonstrando a capacidade de se reavaliar e de adaptar sua doutrina a novos tempos e novos pensamentos, a Wicca vem ganhando um sólido espaço entre as múltiplas religiões presentes no Brasil. Embora ainda carente de algumas definições e bastante associada ao esoterismo, ela constitui para o pesquisador uma rara oportunidade: assistir o nascimento e o desenvolvimento de uma religião.

Escrito por: Jan Duarte.


NOTAS:
4-Pesquisas recentes apontam que pessoas com um maior nível de escolarização estão mais sujeitas à depressão, vinculada a uma desilusão com os ideais perseguidos face a valorização alcançada. 

Bibliografia:
BOURNE, Lois. Autobiografia de uma feiticeira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.
CABOT, Laurie. O poder da bruxa. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
CROWLEY, Aleister. Os livros sagrados da Thelema. São Paulo: Madras, 1998.
DUARTE, Janluis. As bruxas da Internet. In: www.mitoemagia.com.br, 2003.
ELIADE, Mircea. História das Crenças e Idéias Religiosas. Rio de Janeiro. Zahar, 1978.
FARRAR, Janet e Stewart. Oito sabás para bruxas. São Paulo: Anúbis, 1999.
GARDNER, Gerald B. A bruxaria hoje. São Paulo: Madras, 2003.
_______. O significado da bruxaria. São Paulo: Madras, 2004.
MURRAY, Margareth A. O culto das bruxas na Europa Ocidental. São Paulo: Madras, 2003.

NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Nascimento da Bruxaria. São Paulo: Imaginário, 1995.

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