terça-feira, 13 de outubro de 2015

Wicca - uma religião do novo milênio

Por: Jan Duarte
As formas de religiosidade alternativas tornaram-se um tema recorrente no estudo da religião, nos últimos anos. Diversas crenças têm conquistado um espaço cada vez maior na sociedade, criando um amplo campo para pesquisas e um problema potencial para os educadores que precisam lidar com a perspectiva de um ensino religioso multifacetado e includente.
Temos concentrado nossos esforços na pesquisa de uma vertente específica dessas novas formas religiosas, agrupadas sobre a denominação genérica de neopaganismo. No Brasil, em especial, essa vertente possui todas as características de uma religião da modernidade, por tentar romper com conceitos estabelecidos da religiosidade ocidental, basicamente cristã, por ter crescido de forma notável nos últimos dez anos e, ainda, por ter a Internet como uma de suas principais vias de propagação.

O neopaganismo surgiu, na realidade, na virada do século XIX para o século XX, na Europa. Em voga entre setores da aristocracia inglesa, em especial com um caráter hedonista, transformou-se, ao longo das primeiras décadas do século XX, em uma série de seitas e sociedades herméticas, nos moldes maçônicos e rosacrucianos, como a Ordo Templi Orientis (O.T.O.), de Aleisteir Crowley. Em meados da década de 1950, entretanto, surge na Inglaterra, a partir da obra do folclorista amador Gerald B. Gardner, a vertente do neopaganismo que vai alcançar maior popularidade e ganhar verdadeiros contornos de religião: a Wicca.
A Wicca, comumente chamada de "bruxaria moderna", parte do pressuposto da existência de uma "antiga religião" praticada na Europa pré-cristã, de caráter fortemente matrifocal, e que teria sido conservada através da tradição oral pelos seus praticantes até os dias atuais. Nessa perspectiva, advoga-se que as pessoas perseguidas e mortas pela Santa Inquisição como bruxas, entre os séculos XV e XVII, seriam sacerdotes e praticantes dessa antiga religião pagã. São os elementos dessa antiga religião que ela busca, portanto, resgatar.
Essas alegações baseiam-se amplamente em obras antropológicas ou folclóricas do final do século XIX e início do século XX, como Aradia, gospel of the witches (1899), de Charles G. Leland, The Golden Bough (1922), de Sir James Frazer e, principalmente, The witch cult in western europe (1921), de Margareth Murray. Embora a idéia da sobrevivência de um culto pagão através dos tempos, da forma expressa nesses livros e em outros semelhantes, já estivesse amplamente ultrapassada nos meios acadêmicos no período de surgimento da Wicca, o apelo popular de uma "religião pagã da deusa", em contraponto à "religião cristã do deus" foi decisivo para a multiplicação dos seus seguidores, que logo se contavam aos milhares, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos.

A partir do início da década de 1970, as idéias da Wicca receberam acréscimos em especial do movimento feminista e da new-age, chegando assim a uma razoável definição do que seria a nova religião. Principalmente nos Estados Unidos, começaram a surgir tentativas de sistematização, através de associações e conselhos de "bruxos", e foram fundadas as primeiras igrejas propriamente ditas.
A Wicca chegou ao Brasil, de forma ainda tímida, provavelmente em meados da década de 1980. Somente a partir do início da década seguinte, no entanto, é que surgem no mercado brasileiro os primeiros livros sobre o assunto, traduções de obras populares nos Estados Unidos, de autores como Lois Bourne, Scott Cunningham e Laurie Cabot. Apenas a partir de 1998 é que se nota uma multiplicação de títulos e uma grande difusão da sua doutrina como religião alternativa. Essa propagação é um fenômeno típico da classe média, e se dá principalmente através da Internet, onde o número de referências e sites sobre o assunto, de modestas duas dúzias em 1998, ultrapassa hoje a casa dos 50 mil, apenas no Brasil (DUARTE, 2003). Hoje em dia, em nosso país, existe pelo menos uma associação registrada - a Abrawicca - com ramificações na maioria dos estados brasileiros, e uma igreja registrada em Minas Gerais.
Essa característica de profunda difusão através da Internet é de sumo interesse. A quantidade de informações disponíveis e a rapidez da comunicação, aliadas a um caráter tipicamente não dogmático da Wicca, criaram uma diversidade de opiniões e um constante debate. Na verdade, torna-se possível acompanhar - talvez pela primeira vez de forma ampla e aberta - a formação das bases e crenças de uma religião nascente, e o desenvolvimento ainda incipiente de uma teologia específica.

Problematização e metodologia
Partindo dos princípios expostos, buscamos diagnosticar em que consiste o conjunto de crenças dos adeptos da Wicca, hoje, no Brasil. A idéia era poder determinar um certo conjunto de crenças comuns para a maioria desses adeptos, que pudesse ser tido como consenso, e compará-lo com a literatura específica sobre o assunto, a fim de determinar aproximações ou desvios. Como forma de controle, buscamos igualmente a opinião de pessoas pertencentes a outras religiões sobre aquilo que elas acreditam ser as crenças da Wicca.
Deve-se levar em consideração alguns fatores específicos. Em primeiro lugar, não existe nenhum tipo de "livro sagrado" ou "revelação" na Wicca. Dessa maneira, as fontes que fundamentam a crença e a prática são, exclusivamente, a literatura sobre o assunto, que consiste basicamente em obras (na sua maior parte estrangeiras) de sacerdotes renomados. A Wicca não possui, igualmente, uma cosmogonia ou uma mitologia próprias, tendendo antes a interpretar de uma forma particular as diversas cosmogonias e mitologias pagãs. Embora pela sua própria origem anglo-irlandesa exista uma tendência a privilegiar mitos e tradições célticas e germânicas, a única coisa que pode ser apontada como uma fundamentação mitológica para a Wicca é a própria alegação de ser a continuidade ou o resgate de uma antiga religião pré-cristã.
Consideramos, então, que aquilo que pode caracterizar e definir uma determinada religião, bem como distingui-la de outras, é: a) sua visão específica de uma divindade ou de um conjunto de divindades, ou mesmo a inexistência dessa visão; b) os fundamentos histórico-mitológicos em que a crença se baseia, e que lhe conferem um caráter de validade ou autenticidade, baseados na tradição; c) a existência de uma prática comum, seja ela de caráter ritualístico ou não, e d) a existência de princípios éticos ou morais, que devam ser seguidos por todos os fiéis ou adeptos.
No item “existência de uma prática comum”, no entanto, abandonamos a idéia de determinar simplesmente uma forma ritual específica da Wicca, uma vez que a literatura sobre o assunto é consensual a respeito das celebrações, suas formas e simbolismos, e ainda porque essas celebrações, sendo baseadas em festivais sazonais, não diferem essencialmente de celebrações semelhantes encontradas em outras religiões. Dessa forma, com exceção de uma breve alusão que explicitaremos adiante, preferimos nos concentrar em outro aspecto da prática, de caráter mais polêmico: a utilização e a crença na efetividade da magia.
Para atingir nosso objetivo, disponibilizamos na Internet um questionário composto de 17 afirmações, as quais os respondentes deveriam classificar como falsas ou verdadeiras, de acordo com os seus conhecimentos sobre a Wicca. Ao responder o questionário, o respondente deveria informar sua faixa etária, sua escolaridade e sua religião, sendo que 40% dos respondentes declararam-se wiccanos.
As afirmações propostas no questionário foram, em parte, retiradas de livros consagrados sobre o assunto e, outras, feitas de acordo com os conhecimentos mais atuais sobre antropologia, mitologia comparada e história das religiões. Os dados obtidos foram tabulados e comparados por computador, através de um programa feito especialmente para esse fim.

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