sábado, 14 de novembro de 2015

A 'Árvore' nas mais diferentes concepções e crenças.


A ciência materialista do século passado legou-nos uma imagem do universo, na qual objetos à semelhança de esferas executariam movimentos de rotação e translação, no espaço-tempo. Sua linguagem era matemática.
Por seu turno, a ciência espiritual das eras medievais, cujas verdades são atualmente corroboradas pelas descobertas da psicologia profunda, representava o universo, ou melhor, o Todo espiritual, como um templo, uma árvore, ou monte, ou, mais especificamente, uma combinação integrada dos três itens. E, obviamente, esta ideia era apresentada em linguagem mitológica.
A árvore cresce no monte dos deuses, o Olimpo dos gregos, seu lar e templo. Estava situada "no centro do paraíso" (Gen, II, 9), mas em vários rituais pode-se constatar que seus galhos alcançavam os confins do universo.
Os egípcios, hebreus, fenícios, persas, druidas, escandinavos, hindus, chineses, japoneses, os maoris da Nova Zelândia, os astecas do México, os maias do Yucatan e os incas do Peru, sem exceção, falam dessa árvore.

A árvore cabalística da vida
Entre os hebreus, havia um diagrama filosófico-cabalista que simbolizava a árvore da vida, da qual pendiam os dez sephiroth (sing. sephira). Cada um deles era representado por uma romã, cujas cores eram diferentes entre si, e pertinentes aos seus significados.
Existe, é claro, vasta literatura sobre a Cabala, e por certo, muitos leitores poderão, se o desejarem, familiarizar-se com o assunto. 

A árvore da vida escandinava
A versão escandinava desta lenda é bem conhecida, já que se acha incorporada ao folclore e incluída nas Edas, coletâneas de fatos tradicionais da mitologia dos antigos povos escandinavos. Nestas, a árvore da vida é simbolizada por um freixo gigantesco situado nocentro de uma montanha, na qual os deuses reúnem-se em conselho.
Seus galhos ultrapassam os limites "celestiais". Três raízes destacam-se sobre as demais, amplamente espaçadas entre si. Podem ser descritas resumidamente da seguinte forma: (1)
uma delas leva ao Niflheim, uma espécie de inferno frio, úmido e escuro, onde habita o lobo Fenris, e abaixo desta encontra-se a fonte da primavera chamada de Hvergelmir, junto à serpente Nidhug, que se alimenta continuamente da raiz; (2) leva à terra dos gigantes congelados, Jotunnheim, cuja cidade principal chama-se Utgard; abaixo desta raiz acha-se a fonte da sabedoria, guardada pelo gigante Mimir; (3) leva à terra dos deuses abaixo da qual acha-se a fonte sagrada de Urd, assistida pelas três deusas do destino ou parcas, segundo a mitologia romana.
Nos galhos da árvore, quatro cervos alimentam-se de brotos. Representam os quatro ventos ou quatro elementos. Pousada no galho mais alto há uma águia e, entre seus olhos, um falcão¹. Um esquilo sobe e desce a árvore, levando mensagens que geram conflitos entre a águia e a cobra anteriormente citada.
Esta árvore da vida da tradição escandinava denomina-se Yggdrasil, e representa o poder de Ygg ou Odin, o rei dos deuses, o qual, segundo a lenda, teria permanecido pendurado à mesma durante nove dias.

A "Árvore-Bodhi"
Entre os budistas era costume associar um buda a uma árvore, da mesma forma que gregos e romanos com relação a plantas. Nas manifestações da arte, a mais conhecida era a pipala (Ficus religiosa), sob a qual Sáquia-Muni, ou Gautama, o Buda histórico, foi iluminado.
Esta árvore juntamente com as suas correlatas, a Ficus indica e a benghalensis, são provavelmente as maiores plantas que se conhece devido seus galhos crescerem continuamente, muito mais que os das outras árvores. Suas raízes são tão grossas que se parecem com troncos. Uma só destas árvores vale, simbolicamente, por uma floresta inteira. Não é de surpreender o fato dos budistas a considerarem a árvore da vida.

As três sementes
De acordo com a lenda, quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, levaram consigo (ou segundo uma outra lenda, enviaram) seu terceiro filho, Seth, aos portões do mesmo a fim de apanhar três sementes da árvore da vida.
Dessas sementes, cresceram árvores que forneceram: (1) a madeira para o cajado de Moisés; (2) o ramo que foi usado para tornar doces as águas de Marah; (3) a madeira usada na construção do templo de Salomão; (4) a madeira usada para fazer o banco no qual sentaram-se as sibilas ao profetizarem a vinda do Messias; (5) a madeira para a cruz de Cristo. Esta lenda acha-se representada num quadro acima do altar de uma igreja em Leyden, Holanda.

O homem arquetípico
É interessante notar que os cabalistas sempre representam o homem arquetípico em sua árvore da vida. Também afirmam ser a cruz de Cristo chamada de árvore (Atos, V, 30; Atos, X, 39; Gálatas, III, 13; Pedro, 11, 24).
Diz a lenda que Zoroastro foi suspenso numa árvore e chamado de luz gloriosa dessa árvore. Tanto Adônis da Síria como Atis da Frígia, eram associados à vegetação. Osíris, deus da vegetação do antigo Egito, foi morto por sepultamento em uma caixa que eventualmente se alojou em um pé de acácia ou tamarga. Krishna, suprema encarnação de Vishnu, na mitologia hindu, foi morto por uma flecha que o deixou preso a uma árvore.
Já mencionamos Odin. Há numerosos exemplos de associação de deuses encarnados e sacrificados e árvores, na mitologia de todos os povos conhecidos.

Elementares e dementais. 
(espíritos das árvores)
A maioria dos que são realmente versados em ocultismo sabem perfeitamente qual a diferença existente entre elementares e elementais. O primeiro termo designa assombrações ou aparições fantasmagóricas de espíritos que se encontram num estágio atrasado, no qual permanecem por algum tempo, antes de passarem a níveis mais elevados. Neste caso incluem-se os fantasmas ou visões ocorridas e as entidades que costumam assombrar casas velhas ou abandonadas.
Já os dementais, pelo contrário, são espíritos da natureza. Pertencem a uma classe inferior a dos anjos e não são imortais, podendo vir a sê-lo segundo a tradição, desde que convivam com seres humanos. Há seis classes principais:² os gnomos, ou espíritos da terra; as ondinas ou ninfas das águas; as sílfides ou graciosas criaturas do ar; as salamandras, do fogo: as dríades, ou ninfas dos bosques; e os faunos, elementais do reino animal. Trataremos aqui apenas das dríades, elementais dos bosques.
Nos tempos clássicos acreditava-se que toda árvore fosse habitada, ou de certa forma, estivesse relacionada com um desses espíritos ou ninfas, os quais morriam juntamente com a árvore. Estas ninfas eram chamadas de hamadríades. Frequentemente o povo do campo fazia oferendas de leite, azeite e mel, e as feiticeiras, vez por outra, sacrificavam cabras em sua honra. Alguns grupos de ervas também incluíam suas dríades, distintas daquelas existentes nas árvores, provavelmente as oríades e as napeias que dominavam as montanhas, colinas e vales, respectivamente.

Metamorfose
Na mitologia clássica, os seres humanos, à vezes, eram transformados em animais ou plantas. Isto sem dúvida, refere-se a uma mudança a nível psicológico, e o ser vivente em particular, no qual a vítima era transformada, certamente corresponderia à propriedade oculta envolvida.
Em Metamorfose, obra de Ovídio, há inúmeras citações sobre esse tipo de transformação. Com respeito àquelas do reino vegetal, podemos citar a ninfa Dafne, transformada em loureiro para escapar aos avanços de Febo, Siringe transformada em bambu para fugir à luxúria de Pan. O jovem Narciso, que para evitar o sexo oposto, especialmente a fofoqueira ninfa das fontes e florestas, Eco, transformou- se na flor de mesmo nome.
Clítia, ninfa abandonada pelo Deus Sol, foi transformada em girassol, e daí, provavelmente, sua posição inclinada na direção do astro-rei. Adônis, amante de Vênus, ferido por um javali, foi transformado por Astarte num pé de mirra, por ter cometido incesto com seu próprio pai. Entretanto, acreditava-se existir antídotos para tais transformações.
Por exemplo, na Odisséia de Homero, o herói usa amóli, uma planta do gênero da cebola (Allium) para fazer seus companheiros — transformados em porcos por Circe — recuperarem a forma humana. 0 alho, outra planta do mesmo gênero, foi utilizada mais tarde contra vampiros.

A Bernaca
A metamorfose, na mitologia, prenunciou a descoberta do mesmo tipo de processo existente na natureza, como, por exemplo, a transformação do girino em sapo.
Em crendices que perduraram até meados do século XVII, citam -se casos de metamorfoses imaginárias, nas quais, por exemplo, os pinheiros próximos às regiões costeiras do norte e oeste da Escócia e Irlanda, geraram um tipo de percevejo conhecido como bernaca, que se transformavam nos gansos selvagens de mesmo nome. Há realmente uma grande semelhança — embora superficial — entre os membros de um percevejo bernaca e as pernas de um pássaro.³ Para estudantes do ocultismo, não há razão alguma para a não existência dessa afinidade, entre árvore, ganso e bernaca, apesar de não haver nenhuma metamorfose física e os mesmos pertencerem a tipos de estruturas completamente diferentes e, portanto, a diferentes domínios da natureza.

Alfabeto da árvore druídica
Já vimos que na mitologia havia grande número de plantas especialmente dedicadas a deuses. Na mitologia céltica, havia uma lista de deuses com suas árvores correspondentes. A batalha das árvores é um desses mitos. As árvores eram consideradas quase como totens das tribos.
O alfabeto gálico original também apresentava correspondência com essa lista de árvores. Era constituído de dezessete letras. A letra H foi acrescentada posteriormente (o Uath ou espinho-branco). Sua seqüência é a seguinte: BLNFS(H)DTCMGPRAOUEI, sendo cada letra representada pelo nome de uma árvore.
Atualmente, o alfabeto apresenta seqüência diferente, algo como (em galês): Ailm, Beite, Coll, Dur, Eagh, Fearn, Gath, Huath, Togh, Luis, Muin, Nuin, Oir, Peith, Ruis, Suie, Teine, Ur. As árvores correspondentes são: olmeiro, bétula, aveleira, carvalho, álamo, amieiro, hera, espinheiro, teixo, sorveira-brava, videira, freixo, epônimo, pinheiro, sabugueiro, salgueiro, tojo e urze.

NOTAS:
¹ - Em outras culturas também há relatos de mitos que associam pássaros a árvores. 
² - Mais relatos sobre classes não inseridas nesta obra podem ser encontrados nas páginas 110 e 111 do livro de W.B.Crow: História da Magia, Feitiçaria e Ocultismo, Londres, 1968.
³ - Um relato completo sobre o assunto pode ser encontrado na obra de E.Heron-Allen, Bernacas na Natureza e Mitologia, Londres, 1928.

Trecho extraído do Livro: Propriedades Ocultas das Ervas e Plantas - W.B.Crow - 56 à 60.

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