quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Ervas que curam.

ERVAS QUE CURAM
W. B. Crow

Com base em estudos históricos e arqueológicos, hoje dispomos de uma extensa lista de plantas utilizadas pelos antigos na arte da cura. Algumas delas ainda podem ser encontradas na farmacopeia moderna enquanto outras já foram eliminadas. Apesar da introdução da psicologia aplicada na medicina moderna, supõe-se a existência de uma ação química das drogas sobre o funcionamento do organismo.
Presume-se que, mesmo aquelas que afetam o psiquismo, agem, de algum modo, através de ações químicas sobre as células do cérebro. A romã era usada na Babilônia e antigo Egito, mas atualmente é considerada inútil. Os babilônios usavam o açafrão-da-índia, considerado apenas um agente corante, em nossos dias. O Espicanardo, uma das drogas mais importantes para os hebreus e hindus, é hoje considerado como um mero material adulterante, encontrado em algumas amostras de valerianas. A erva-de-passarinho, à qual os druidas atribuíam poderes quase milagrosos de cura, já não se inclui em livros atuais de farmacologia.

Propriedades ocultas
Parece fora de dúvida que os povos da Antiguidade conheciam as propriedades ocultas das ervas, às quais creditavam efeitos metafísicos sobre aspectos mais sutis do homem, fato considerado imaginário pela ciência materialista atual. Somente poucos videntes atreveram-se a falar sobre o assunto nos últimos anos. Em 1906, um senhor idoso, de nome Charubel, publicou um livro¹ no qual abordava a cura de moléstias através do uso de magia simpática, utilizando ervas e pedras, tratamento este ao qual denominou de "plano da alma".
Posteriormente, o Dr. Rudolf Steiner, fundador da Sociedade Antroposófica, elaborou medicamentos com base em suas pesquisas sobre a ciência espiritual, e dentre tais medicamentos, inclui-se a erva-de-passarinho. Steiner acreditava que os elementos espirituais atuavam por meio de substâncias físicas, de maneira que seu método não representava um antagonismo, e sim um sistema complementar à medicina moderna.
Acreditava-se que o exorcismo, bastante encontrado nas páginas do Novo Testamento, incluía, segundo babilônios, egípcios e hindus, uma clíster ou lavagem intestinal². A maioria dos métodos de administração de medicamentos, conhecidos hoje em dia pelos farmacêuticos, tem origens que remontam à Antiguidade.

Ayurveda, O Sistema Hindu
As quatro Vedas são as obras mais importantes da literatura hindu, e a Ayur-veda é o suplemento médico a uma delas, o qual, segundo a tradição, foi escrito por Dhanwantari, médico dos deuses. Trata do assunto sob um ponto de vista extremamente amplo, pois o termo sânscrito ayur quer dizer vida³. Sua tese é a de que a saúde é o equilíbrio harmonioso das três forças importantes que atuam sobre o organismo humano, e seus sete tecidos principais. Há três tipos principais de doença: a de natureza física, acidental, e mental, e todas elas possuem fundo espiritual.
Existem também três tipos de medicamentos: (1) Os mantras (vibrações sonoras reguladas), rituais e oferendas, plantas, e pedras preciosas; (2) artigos usados de forma correta, e (3) mente isenta de atos ou pensamentos que possam acarretar prejuízos a outrem.

As ervas, por conseguinte, constituem apenas parte do tratamento, embora muitas delas pertencentes à abundante flora nativa da Índia tenham sido incorporadas ao método. Muitas delas foram importadas pela medicina ocidental e por ela adotadas devido seus efeitos sobre a fisiologia humana. Um exemplo disso é a Rauwolfia, gênero venenoso da família das pervincas, há muito usada na índia como um purgante e antídoto contra picadas de cobras e insetos. Alguns anos mais tarde começou a ser empregada na Europa como medicamento ansiolítico.
No entanto não é só por seus efeitos fisiológicos que as drogas Aiurvédicas são utilizadas na Índia. De acordo com a opinião do Dr. Raman, as seguintes características também são levadas em consideração:
(1) a predominância dos cinco bhutas (termo sânscrito) na composição da droga; (2) o sabor; (3) as qualidades físicas, por exemplo, se líquida ou sólida, leve ou pesada; (4) a potência ou energia ativa; (5) os efeitos posteriores; e (6) quaisquer particularidades especiais.
Aquele que aplica o sistema aiurvédico também leva em consideração a estação do ano, o estado do paciente, sua alimentação e todos os aspectos de seu meio ambiente.

Moxa
Na China, desde seus primórdios, era prática usual uma metodologia médica que visava curar moléstias através da introdução de agulhas em vários pontos do corpo humano. Este método é a acupuntura, bastante difundida atualmente. 
Diagramas e modelos especiais indicam o lugar exato onde se deveria aplicar as agulhas. Este método estendeu-se à Europa e, na França, por exemplo, sua aplicação é bem elevada. Como a acupuntura não está relacionada às ervas, deixamos de apresentar maiores comentários a respeito, visto não ser o objetivo precípuo desta obra.
Entretanto, os praticantes da acupuntura utilizam-se, em certas ocasiões, do que se chama moxa. Pertencem a uma categoria diferente. A moxa consiste no emprego de pequenos cones ou cilindros feitos de folhas de Artemísia em pó, uma planta composta relacionada à camomila, que é usada como um contra-irritante. Estes cones são colocados em posições definidas em certas partes do corpo, posições estas indicadas pelos diagramas-moxa, perfeitamente distintos dos diagramas de acupuntura, acesos com vela ou incenso elevando-se uma pequenina bolha dentro da qual a cinza pode ser esfregada. A moxa tem sido eventualmente praticada na Europa.

Doutrina das características
Na Idade Média, na Europa, uma curiosa propriedade oculta era atribuída a determinadas plantas e ervas. Observou-se que certas partes de uma planta assemelhavam-se, na forma ou na cor, com algumas partes do corpo humano e acreditava-se que uma moléstia porventura apresentada por algum órgão, poderia ser curada por meio da aplicação da planta correspondente. Este princípio era denominado doutrina das características, que afirmava ter cada planta um caráter próprio específico, como seu próprio uso, e bastava apenas contemplá-la detidamente para compreender sua característica. Em algumas plantas era fácil definir este procedimento. As hepáticas, por exemplo, eram assim chamadas porque o caule, freqüentemente, assemelha-se à forma de um fígado. Conseqüentemente eram aplicadas no tratamento de doenças do fígado. A pulmonária, planta relacionada à borragem e ao miosótis, apresenta folhas semelhantes a pulmões e era usada para o tratamento de doenças deste órgão. A utriculária é uma planta aquática cujas folhas são submersas, e sobre estas nascem pequeninas bolhas dentro das quais são capturados insetos. Foi muito empregada no tratamento de moléstias da bexiga. É vagamente relacionada com a dedaleira.
A orquídea, uma monocotilédone, recebe esta denominação devido a seus tubérculos subterrâneos, parecidos com os testículos do homem. Por esta razão, acreditava-se ser valiosa no tratamento de moléstias dos órgãos sexuais masculinos, principalmente.
A aristolóquia, pertencente a um grupo relativamente isolado de dicotilédones, possui flores enormes tendo a corola parecida com o útero feminino, e, em conseqüência disso, utilizada nas doenças da mulher, e freqüentemente para atenuar as dores do parto. Devido à cor, o sândalo vermelho era usado para doenças sanguíneas, como também as pétalas das rosas vermelhas. Pensava-se que o amarelo do açafrão, do estigma de uma planta monocotilédone do tipo croco, por ser parecido com a bile, seria adequado para o tratamento de estados biliosos.

Tratamentos com ervas
No início da Idade Média os médicos faziam uso de inúmeras ervas como medicamentos, seguindo os grandes trabalhos clássicosde Hipócrates (460-377 a.C.) e Galeno1 (por volta de 130-200 d.C), porém aproximadamente à época da Reforma Luterana, Paracelso (1493-1541) introduziu o uso de muitas drogas minerais. Na Inglaterra, o Real Colégio de Cirurgiões obteve cartas-patente em 1518 (durante o reinado de Henrique VIH — 1491-1547) que outorgavam poderes semelhantes aos atualmente conferidos pelas Associações Médicas.

Porém, nessa época, foi decretado um Ato Parlamentar segundo o qual qualquer pessoa que possuísse conhecimentos das propriedades de cura das plantas, podia, legalmente, fazer uso dos mesmos. Afirma-se que tal Ato foi um privilégio concedido aos inúmeros praticantes da medicina popular que não haviam estudado anatomia, fisiologia e demais matérias pertinentes ao currículo de uma escola de medicina. Tais profissionais tornaram-se conhecidos como herbanários. As plantas utilizadas no começo deste século eram ervas silvestres (Dicotiledóneas), sendo que apenas um reduzido número delas era reconhecido como valioso pelos médicos. Abaixo segue-se uma lista² disposta segundo as famílias:

Familia da Lorantácea (Lorantáceas): Erva-de-passarinho (Viscum).
Família das Plantas Floríferas (Poligonáceas): Bistorta (Polygonum).
Família da Cariofilácea: Morrião-dos-passarinhos (Stellaria).
Família das Rosáceas: Agrimonia (Agrimonia), Ulmária (Ulmaria),
Framboesa Silvestre (Rubus).
Família do Feijão e da Ervilha (Leguminosas): Giesta (Sarothamnus).
Família do Linho (Lináceas): Linho (Linum).
Família da Litrácea (Litráceas): Salgueirinha (Lythrum).
Família da Cenoura (Umbelíferas): Azevinho (Eryngium), Cenoura
Silvestre (Daucus), Sanícula (Sanícula).
Família da Genciana (Gencianáceas): Fava-do-brejo (Menyanthes),
Centáurea-menor (Erythraea).
Família da Borragem (Borragináceas): Consolda (Symphytum).
Família das Urtigas Mortas (Labiadas): Marroio-negro (Ballota), Marroio-
branco (Marrubium), Hera terrestre (Glechoma), Erva-das-feridas (Prunella), Barrete (Scutellaria), Betônia (Betónica), Salva(Teucrium), Salva Vermelha (Salvia), Hortelã (Mentha), Hissopo (Hyssopus).
Família da Banana de São Tomé (Plantagináceas): Banana-de-São Tomé (Plantago).
Familia da Valeriana (Valerianáceas): Valeriana (Valeriana).
Família do Girassol (Compostas): Bardana-maior (Arctium), Erva-picão (Bidens), Tussilagem (Tussilago), Dente-de-leão (Taraxacum),
Artemisia (Artemesia), Tasneirinha (Senecio), Milefólio (Achillea).

O tratamento com ervas difundiu-se na América por intermédio dos imigrantes ingleses que fundaram a colônia de Plymouth, e um conjunto de plantas bastantes variadas começou a ser usado, entre as quais incluem-se as seguintes, sendo as duas primeiras famílias monocotilédones:

Família das Orquídeas (Orquidáceas): Orquídea Silvestre (Cypripedium).
Família das Taiobas (Aráceas): Arão (Arum).
Família das Mirtáceas (Mirtáceas): Murta-do-brejo (Myrica).
Familia das Aristolóquias (Aristoloquiáceas): Aristolóquia (Aristolochia), Serpentária Canadense (Asarum).
Família dos Nenúfares (Ninfáceas): Nenúfar (Nymphaea).
Familia dos Ranúnculos (Ranunculáceas): Erva-de-São Cristóvão (Cimicifuga), Hidraste (Hydrastis).
Familia das Uvas-Espim (Berberidáceas): Uva-Espim (Berberís).
Familia das Hamamélis (Hamamelidáceas): Hamamélis (Hamamelis).
Familia da Azedinha Grande (Oxalidáceas): Azedinha Grande (Oxalis).
Família das Arrudas (Rutáceas): Espinho-de-vitém (Zanthoxylum).
Familia das Piroláceas (Piroláceas): Pirolácea (Pyrola).
Familia das Batatas (Solanáceas): Pimenta-de-caiena (Capsicum).
Familia das Urtigas-mortas (Labiadas): Poejo (Mentha), Marroio aquático (Lycopus).
Familia da Dedaleira (Escrofulariáceas): Quelone (Chelone).
Família do Girassol (Compostas): Raiz-de-cascalho (Empatorium).
Família das Lobélias (Lobeliáceas): Lobélia (Lobelia).

Muitas destas ervas já eram adotadas na medicina natural dos nativos. A Lobélia e a Pimenta-de-caiena eram os principais medicamentos dentro do sistema Thomsoniano, assim chamado em homenagem ao seu criador, Samuel Thomson (1769-1843). O uso de ervas foi causa de muitas controvérsias entre a classe médica que se opunha aos herboristas.

Homeopatia
O sistema homeopático foi introduzido por um médico alemão e sua prática é adotada por milhares de médicos legalmente habilitados. Difere, porém, da medicina comum, denominada alopática. As diferenças são: (1) Toda e qualquer droga usada em homeopatia deve ser testada antes numa pessoa saudável; (2) a droga deve produzir, nessa pessoa, sintomas idênticos àqueles da doença que se quer tratar; (3) deve-se usar apenas um medicamento de cada vez; (4) a droga é usada na forma diluída. De fato, acha-se que a solução diluída ativa a ação da mesma. Daí serem chamados de potências os graus de diluição. 
A homeopatia foi criada por Samuel Hahnemann (1755-1843). Enquanto traduzia a obra de Cullen Materia Medica, verificou a existência de certo número de medicamentos chamados específicos, os quais agiam apenas em certas sintomatologias. Um destes medicamentos era a quina, do gênero da Cinchona, planta sul-americana da família das garanças que era muito conhecida à época no tratamento da malária.
Possuidor de espírito pesquisador, Hahnemann experimentou a droga em si mesmo e descobriu haver produzido sintomatologia semelhante à da malária, em seus mínimos detalhes. Então, auxiliado por amigos experimentou grande número de drogas, obtendo resultados análogos.
Assim, sabe-se que a beladona {Atropa Belladonna) produz os sintomas característicos da escarlatina, a trepadeira venenosa (Rhustoxicodendron), causa os da erisipela, o estramonio (Datura stramonium) os da asma, a colocíntida (Citrullus colocynthis), os da cólica, e assim sucessivamente. O medicamento é sempre usado em pequenas quantidades, diluído em água ou misturado em pó neutro, tal como o açúcar do leite (lactose), por exemplo.
Alguns dos primeiros médicos homeopatas usavam diluições tão extremas que, dizia-se, somente poucas moléculas ou mesmo nenhuma delas permanecia. Isso leva a teses, que acreditamos foram formuladas pelo Dr. Rudolf Steiner, segundo as quais estariam envolvidas no sistema certas propriedades ocultas ou metafísicas.
Sabe-se que algumas pesquisas nesse sentido foram efetuadas pela Sociedade Antroposófica.

NOTAS:
1 Psicologia da Botânica (Leigh, 1906), relacionando os efeitos psíquicos de trinta e nove plantas, três metais e onze minerais preciosos, bem como seus respectivos símbolos.

2 C. J. S. Thompson, Mistério e Artes do Farmacêutico, Londres, 1929.

3 Afirmativa baseada no Ayur-veda ou Sistema Médico Hindu, de B. V. Raman, editado e anotado por W. B. Crow, e publicado originariamente no The Search Quarterly, periódico trimestral, em 01/04/34, sendo reeditado posteriormente em Bangalore.

1 Anteriormente citado.

2 O bhuta é um elemento alterado mas - como observa o Dr. Raman - não se trata de um elemento químico no sentido exato do termo; antes, seria equivalente a um elemento, se considerado do ponto de vista natural-filosófico ou ciência arcana.

1 As drogas vegetais são também chamadas de galênicas em homenagem a Galeno, médico grego criador deste sistema. 
2 Lista elaborada por W.H. Webb em: Guia-padrão de Remédios Herbáceos não-Venenosos, Southport, 1916.

Trecho extraído do Livro: Propriedades Ocultas das Ervas e Plantas - W. B. Crow - 20 a 26.

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